Atuando no Rio Grande do Sul e também em projetos digitais de abrangência nacional, Leandro resume o papel de um bom profissional em uma expressão: conduzir a transformação da vida dos produtores e das famílias com conhecimento científico avançado. Não se trata, portanto, de simplesmente chegar à propriedade, identificar uma demanda e apresentar uma lista de soluções. O ponto de partida precisa ser a necessidade de cada produtor. “A gente precisa ter como ponto de partida a demanda, a necessidade, a realidade daquele caso. Cada propriedade, cada tambo leiteiro, cada propriedade é um universo ao mundo, com as suas limitações, com seus potenciais”, afirma.
Essa diferença pode parecer sutil, mas muda completamente a forma de fazer assistência técnica. Mesmo propriedades vizinhas podem ter recursos, mão de obra, terra, limitações e potencialidades diferentes. Por isso, uma recomendação que funciona em determinado sistema pode não fazer sentido em outro. Para Leandro, o trabalho do técnico começa justamente quando ele consegue compreender esse contexto e, a partir dele, ajudar o produtor a encontrar seu rumo.
“Às vezes a gente precisa ajudar o produtor de leite a encontrar o seu rumo, o seu objetivo, qual é a sua demanda”, explica. Sem essa clareza, o profissional corre o risco de passar a vida apagando incêndios. “A gente fica apagando o fogueiro ali com soluções técnicas paliativas, mas sem um planejamento de médio e longo prazo, para atender os sonhos, o planejamento, para realizar os objetivos da família.”
É aí que entra o segundo elemento que, para Leandro, não pode ser separado da assistência: o conhecimento científico. A adaptação à realidade da fazenda não significa abrir mão da técnica ou simplesmente validar aquilo que o produtor já faz. Pelo contrário. Cabe ao profissional levar conhecimento atualizado para aquela realidade, sem se prender ao marketing comercial ou a crenças que foram transmitidas ao longo das gerações. “Não nos apegar em marketing comercial e nem em crenças populares, ‘porque eu sempre fiz assim, porque minha família fazia assim, porque eu aprendi assim’. A gente precisa estar atento, estar atualizado para trazer esses avanços para a realidade da família, para conduzir essa transformação.”
Quando o resfriador transborda — e a transformação vai além do leite
Foi justamente acompanhando os resultados no campo que Leandro percebeu que a transformação de uma propriedade leiteira poderia ser muito maior do que simplesmente aumentar a produção.
No início de sua carreira, seu trabalho estava muito relacionado às técnicas agronômicas voltadas à produção de forragem e pasto. Os resultados começaram a aparecer e, com eles, vieram cenas que ficaram marcadas em sua trajetória. “Os primeiros resfriadores transbordaram, os produtores começaram a produzir um monte de pasto”.
O aumento da produtividade e da eficiência técnica, agronômica e zootécnica foi, naquele momento, uma grande motivação. Mas, com o tempo, uma segunda percepção passou a nortear seu trabalho: não bastava produzir mais leite se a atividade continuasse tornando a vida do produtor mais difícil. “Além de transbordar o resfriador, além do aumento da lucratividade; a gente teve resultados de melhoria da qualidade de vida, por facilitar a mão de obra, por simplificar os processos e passar a ter mais tempo para a família, tornando a atividade mais prazerosa e mais tranquila de ser conduzida”, conta.
A constatação ganhou ainda mais peso porque, especialmente nas pequenas propriedades, produção de leite e vida familiar estão profundamente conectadas. A mesma família que administra o negócio também vive a rotina da ordenha, cuida das atividades agrícolas e toma decisões econômicas. A gestão pode acontecer na cozinha ou na varanda da casa, com os filhos por perto, misturando o negócio à própria vida.
Por isso, o objetivo não pode ser resumido apenas à renda. É preciso pensar em uma atividade que permita à família ter resultado sem se tornar refém dela. “O objetivo deles é não ser refém, é ter renda, mas ter qualidade de vida, não se tornar escravo das vacas, ter uma atividade que dê satisfação, que eles tenham orgulho e sejam felizes produzindo.” Essa visão passou a definir dois nortes para sua atuação: buscar soluções capazes de aumentar desempenho, eficiência e renda e, ao mesmo tempo, simplificar a vida e o trabalho dos produtores e funcionários.
Os dois grandes gargalos: renda e mão de obra
Quando olha para os desafios das propriedades “da porteira para dentro”, Leandro aponta dois grandes gargalos: lucratividade e mão de obra. A questão econômica está diretamente relacionada à instabilidade do cenário de preços, aos custos dos insumos e ao custo de produção. As oscilações do mercado podem provocar impactos importantes sobre a atividade e tornam necessário pensar em estratégias que deem sustentabilidade econômica ao leite no médio e no longo prazo. Mas existe outro lado da equação. A atividade também precisa ser viável do ponto de vista humano.
A dificuldade de mão de obra, a penosidade do trabalho e os desafios relacionados à sucessão familiar fazem parte desse cenário. Segundo Leandro, existe dificuldade em incentivar os jovens a permanecerem na atividade e em fazer com que produtores invistam e tratem o leite como um negócio planejado. Sem isso, muitos acabam apenas “empurrando com a barriga”, até que a atividade deixe de fazer sentido.
O resultado pode ser a desistência e o abandono da produção, com concentração da atividade em um número menor de propriedades e dificuldades ainda maiores para os pequenos produtores, especialmente em determinados sistemas a pasto. Por isso, para Leandro, não existe uma solução isolada. “Não tem como tu conseguir renda dificultando o trabalho, mandando o cara trabalhar mais, complicando os processos gerenciais”, afirma. Da mesma forma, simplificar o sistema sem garantir retorno econômico também não resolve.
A propriedade precisa buscar eficiência produtiva e econômica, mas também eficiência de mão de obra. Renda e qualidade de vida, portanto, não são objetivos concorrentes — são partes da mesma equação.
O produtor que evolui sabe onde quer chegar
Se há uma característica que diferencia os produtores que conseguem evoluir continuamente, Leandro aponta uma palavra: mentalidade de longo prazo. Isso não significa necessariamente ter um plano estratégico formal, cheio de documentos e indicadores. Significa saber, dentro da própria família e da equipe, qual é o objetivo com o leite. A partir daí, o produtor consegue buscar assistência técnica, informações e tecnologias que contribuam para chegar onde deseja.
“Quando tu entende o teu sistema de produção, a tua propriedade, o teu objetivo, e tu tem na tua cabeça [...] que tu sabe o teu objetivo com leite, e aí tu tem isso como teu norte, vai atrás disso, vai atrás de profissionais de assistência técnica, vai atrás de informações técnicas, de tecnologias, pra te ajudar nesse teu objetivo.”
O problema aparece quando esse norte não existe. Nesse cenário, cada informação nova pode parecer uma oportunidade. O produtor participa de um dia de campo, conversa com um técnico, vê uma recomendação nas redes sociais, acompanha outro produtor e recebe uma nova orientação. No fim, acumula pedaços de diferentes sistemas sem necessariamente construir uma lógica coerente.
Leandro compara esse processo à montagem de uma “colcha de retalhos” — ou até de um “Frankenstein” dentro da propriedade. “Tu faz uma colcha de retalhos, ou monta um Frankenstein na tua propriedade, aplica um pouco de cada coisa, e aí não vai dar certo, tu tá fadado ao fracasso.” Para ele, o caminho é justamente o contrário: primeiro entender o modelo e a lógica que se deseja construir e, depois, buscar profissionais, técnicas e conhecimentos que contribuam para esse objetivo.
“O produtor não faz o que o técnico recomenda”
É também nesse ponto que Leandro deixa uma das mensagens mais fortes para os profissionais que estão começando na assistência técnica. A primeira mudança de mentalidade, segundo ele, é abandonar a ideia de que o produtor precisa simplesmente executar aquilo que o técnico recomendou. “O produtor não faz o que o técnico recomenda. O produtor faz o que ele enxerga sentido para a propriedade, para o trabalho dele.”
Para Leandro, compreender isso muda a postura profissional. O técnico deixa de ser aquele que chega à propriedade para dizer o que deve ser feito e passa a assumir um papel de condução. É uma diferença importante porque, muitas vezes, a pergunta feita ao profissional é justamente como convencer o produtor a fazer determinada coisa. A resposta de Leandro é direta: esse não deveria ser o objetivo. “Eu não convenço o produtor a fazer o que eu digo, ou o que eu quero. Eu encontro a solução apropriada para a necessidade do produtor. Essa é a diferença.”
O olhar, portanto, é mais humano, mas sem perder o rigor técnico. O profissional precisa compreender a pessoa, a família, a propriedade e o negócio para então aplicar o conhecimento científico de maneira adequada.
A ciência também precisa vencer o “sempre fiz assim”
A segunda recomendação de Leandro aos jovens profissionais está relacionada à atualização técnica e científica — e ao desapego dos padrões estabelecidos.
Ele próprio considera essa mudança de paradigma importante em sua trajetória. Ao sair da universidade e começar a atuar no campo, é natural que o profissional se apoie nos padrões que aprendeu. O problema surge quando esses padrões deixam de acompanhar a evolução do conhecimento. “Quando a gente abre a mente e olha para a ciência atualizada, começa a investigar artigos científicos, o conhecimento que está sendo gerado, a gente vê que vários padrões, vários consensos do campo já estão ultrapassados.”
A questão é especialmente relevante, segundo ele, nos sistemas a pasto, em que o conhecimento científico sobre pastagens continua evoluindo. Existe, porém, uma distância entre o conhecimento produzido pela pesquisa e aquilo que ainda é repetido no campo — e, atualmente, também nas redes sociais.
Para Leandro, o profissional não pode ter apego emocional ou ideológico a determinadas técnicas apenas porque elas são conhecidas ou tradicionalmente utilizadas. O papel do técnico é justamente representar e traduzir o conhecimento acadêmico e científico para a realidade das propriedades. “Então, a gente precisa ser um representante desse conhecimento acadêmico e científico, e a gente faz isso justamente nos mantendo atualizados, sem apego ideológico ou emocional àquele padrão que já está estabelecido.”
Isso não significa levar para a propriedade tudo aquilo que aparece em um artigo ou uma nova pesquisa. Significa saber interpretar o conhecimento, compreender a demanda do produtor e transformar ciência em uma solução apropriada para aquele contexto.
Quando técnico e produtor passam a caminhar na mesma direção
No fim, a assistência técnica que Leandro defende não se resume a conhecimento, assim como não se resume à experiência prática. Ela nasce da combinação entre objetivo claro, compreensão da realidade, ciência atualizada e capacidade de transformar conhecimento em ação.
Quando o produtor de leite sabe onde quer chegar e o profissional consegue conduzir essa transformação a partir de conhecimento científico aplicado à realidade da propriedade, a relação deixa de ser simplesmente uma prestação de serviço. “E aí sim, aí voa um produtor que tem o plano, que tem na sua mente onde ele quer chegar, o que ele precisa, e o profissional conduzindo essa transformação em uníssono, ajudando ele realmente, trazendo o viés científico acadêmico aplicado para a prática, para esse produtor, aí sim a coisa anda.”
É uma visão que também ajuda a explicar por que, para Leandro, eficiência e qualidade de vida precisam caminhar juntas. O sucesso de uma propriedade não está apenas no quanto ela produz, mas na capacidade de transformar produção em renda, renda em sustentabilidade e eficiência em uma rotina que faça sentido para quem vive dela.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das principais mudanças no papel do técnico: não entregar uma receita pronta, mas ajudar cada família a construir um caminho possível — e cientificamente sustentado — para chegar onde deseja.
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