Para quem produz leite a pasto, perder as pastagens significa muito mais do que um dano à lavoura. É perder parte importante da alimentação do rebanho e, consequentemente, alterar a rotina e os custos da propriedade. Foi o que aconteceu com a produtora Fernanda Bernieri, à frente da propriedade Família Bernieri, em Constantina (RS), após duas ocorrências de granizo registradas na primeira semana de setembro.
Fernanda em meio às pastagens antes dos temporais que acometeram o RS. Fonte: Fernanda Bernieri.
A atividade leiteira da família começou em 1998 como uma fonte de renda complementar e, ao longo dos anos, ganhou protagonismo dentro da propriedade. Hoje, a fazenda produz cerca de 650 litros de leite por dia, em sistema de semiconfinamento.
Os primeiros impactos do temporal, segundo Fernanda, foram percebidos justamente na alimentação dos animais. As pastagens foram destruídas e a lavoura de trigo, que ocupava 14 hectares e seria destinada à produção de silagem, teve grande parte da massa perdida. “Sobrou em torno de 30% dessa área”, relata a produtora. Segundo ela, o trigo ainda está com o grão em estágio leitoso, mas precisará ser cortado em breve, já que a palha está secando após ter sido muito danificada pelo granizo.
O cenário também atingiu diretamente o sistema de alimentação das vacas. Antes das perdas, aproximadamente 70% da alimentação dos animais vinha de massa verde e 30% era fornecida no cocho. Com a destruição das pastagens, a proporção precisou ser invertida.
Vacas da Fazenda Bernieri antes dos temporais. Fonte: Fernanda Bernieri.
A propriedade passou a fornecer um trato adicional às vacas utilizando matéria seca, silagem e ração. A estratégia busca manter os animais bem nutridos e reduzir a queda na produção, mas trouxe um efeito imediato para os custos. “Isso tem um custo que é elevado para quem tinha pastagem abundante. Então, isso se tornou um custo a mais para a propriedade”, explica Fernanda.
A produção de leite também sente o impacto
Mesmo com o reforço na alimentação, a produtora já percebe uma redução na produtividade. As vacas tiveram uma queda de aproximadamente 0,6 litro por animal por dia.
Para uma propriedade que vinha trabalhando com disponibilidade abundante de pastagem, a mudança representa um impacto duplo: ao mesmo tempo em que a alimentação natural diminuiu, foi necessário aumentar a utilização de insumos no cocho para tentar preservar a produção. “Tudo que a gente consegue fazer em relação a elas e para diminuir também o prejuízo e não perder produção de leite a gente está fazendo”, afirma.
Fernanda ressalta, porém, que as medidas de manejo não eliminam as perdas provocadas pelo clima. “É óbvio que, do tamanho do impacto que a gente teve na propriedade, os prejuízos existem sim, mas a gente está tentando manejar para que eles não sejam tão intensos”, destaca.
Granizo após chuva e impacto na área verde da Fazenda Bernieri. Fonte: Fernanda Bernieri.
Dois episódios de granizo, impactos diferentes
Os prejuízos não vieram de um único evento. A propriedade foi atingida por duas chuvas de granizo, com características e consequências diferentes. A primeira ocorreu no sábado (05/09). Apesar de as pedras serem menores, a quantidade foi suficiente para causar danos às lavouras. Foram afetadas tanto a área de trigo quanto as pastagens. Dois dias depois, na segunda-feira (07/09), veio uma segunda chuva. Dessa vez, as pedras eram maiores e, embora o episódio tenha durado menos tempo e não tenha causado tantos danos às lavouras, atingiu estruturas da propriedade. Entre as áreas afetadas estão o bezerreiro, a ordenha e a pista de ordenha.
Plantação de trigo da Fazenda Bernieri pós temporal. Fonte: Fernanda Bernieri.
Agora, preocupação se volta para o milho
“Uma [chuva] danificou as lavouras, e a outra, que eram [pedras] mais grossas, danificou a estrutura”, resume a produtora de leite. Assim, além da perda de alimento para o rebanho, a família passou a lidar também com prejuízos físicos na estrutura utilizada diariamente para a produção de leite.
Diante das perdas já registradas, a estratégia da propriedade é manejar a alimentação para tentar preservar o desempenho das vacas e evitar que o impacto sobre a produção seja ainda maior. Mas, enquanto parte dos prejuízos já está contabilizada, existe uma nova preocupação no horizonte: o milho destinado à silagem.
Toda a área de milho da propriedade já foi plantada e, para Fernanda, esse é hoje o principal ponto de atenção diante da possibilidade de novos eventos climáticos severos. “O que preocupa nós como propriedade é o milho, é vir mais chuva talvez, como a tendência do clima é ser severo, que mais chuvas de granizo ocorram e a gente tem todo o milho da silagem plantado”, afirma.
A preocupação é que uma nova ocorrência atinja justamente a lavoura que será responsável por compor a alimentação do rebanho nos próximos meses. Depois de perder as pastagens e grande parte do trigo destinado à silagem, uma eventual perda do milho poderia ampliar ainda mais a necessidade de compra ou utilização de outros alimentos. “Hoje a minha preocupação maior é o milho, o resto da lavoura que está vindo agora e que o clima talvez influencie negativamente também nessa lavoura de milho”, resume.
Para uma propriedade que construiu sua produção leiteira com forte participação das pastagens, o episódio mostra como um evento climático pode se espalhar por diferentes pontos da atividade: começa na lavoura, chega à alimentação dos animais, afeta a produção de leite, aumenta os custos e ainda deixa uma nova safra sob risco.
No caso da Família Bernieri, o desafio agora é administrar as perdas já provocadas pelo granizo enquanto acompanha de perto o desenvolvimento do milho — e torce para que o clima dê uma trégua.
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