A bomba de combustível não costuma chamar a mesma atenção que uma queda no preço do leite ou uma alta no custo da ração. Ainda assim, em 2026, o diesel se tornou uma variável relevante na gestão financeira das propriedades leiteiras, especialmente nas operações que movimentam grandes volumes diariamente.
Para Ken McCarty, coproprietário da McCarty Family Farms, em Rexford, no Kansas, e vencedor do prêmio Milk Business Leader in Technology de 2025, o combustível está longe de ser apenas mais uma linha no orçamento. É um insumo essencial para uma operação que ordenha milhares de vacas em diferentes estados e mantém caminhões de ração, tratores e minicarregadeiras em atividade praticamente o tempo todo. Diante da volatilidade do mercado de energia, McCarty prefere não deixar o custo desse insumo totalmente exposto às oscilações do mercado. “Já vivemos momentos como este no passado e não temos nenhum desejo de repeti-los”, diz McCarty.
O custo de não planejar
Na rotina das fazendas leiteiras, é comum que o preço do leite e os custos da alimentação estejam entre os principais indicadores acompanhados pela gestão. O combustível, por outro lado, muitas vezes é tratado como uma despesa inevitável: quando o tanque está perto de esvaziar, abastece-se e paga-se o preço disponível naquele momento.
O problema é que essa falta de planejamento pode representar uma exposição significativa ao mercado. Em uma fazenda leiteira moderna, máquinas e equipamentos são utilizados continuamente. O preparo e a distribuição da ração total misturada (RTM), o manejo de dejetos, as atividades de campo e o transporte demandam uma frota que pode consumir milhares de litros de diesel por semana.
Em operações maiores, uma variação de US$ 0,50 por galão pode ter impacto relevante sobre o orçamento trimestral. Mesmo em uma propriedade com 500 vacas, uma alta de US$ 0,25 pode fazer diferença entre manter o equilíbrio financeiro ou terminar o período no vermelho. “Essa mudança de meio dólar não é apenas um inconveniente”, explica McCarty. “Representa uma enorme transferência de capital que poderia ter sido reinvestida na saúde do rebanho, em tecnologia ou em mão de obra.”
Para ele, o ponto central está justamente em não esperar o momento do abastecimento para descobrir qual será o custo. Quando o produtor chega à bomba, o preço já está definido pelo mercado naquele dia e há pouco espaço para administrar a exposição. A alternativa, portanto, é antecipar parte dessa decisão.
Planejamento com até 18 meses de antecedência
Na McCarty Family Farms, a aquisição de combustível é tratada como um processo contínuo de gestão de risco. Em vez de esperar pelas condições do mercado no momento da compra, a equipe trabalha com uma visão de 12 a 18 meses para estruturar sua necessidade de combustível.
O primeiro passo é entender o próprio consumo. Em conjunto com o fornecedor de combustível, a equipe analisa os padrões históricos da operação e projeta a demanda futura. Mas a estimativa não considera apenas o que aconteceu no passado. Mudanças previstas na atividade da fazenda também entram na conta.
Uma expansão da área cultivada, ganhos de eficiência dos equipamentos ou alterações no programa de transferência de gado para a produção leiteira, por exemplo, podem modificar a necessidade de combustível e transporte. Por isso, essas variáveis são incorporadas à previsão antes da contratação.
Com a demanda conhecida, começa o processo de estratificação das compras. Conforme os meses seguintes ficam disponíveis no mercado, a equipe reserva os volumes físicos de combustível. O objetivo é chegar ao início do ano fiscal, em 1º de janeiro, com aproximadamente 90% da necessidade já coberta.
Assim, quando os preços do diesel sobem, uma parcela significativa do consumo da McCarty Family Farms já está protegida por preços definidos anteriormente. A estratégia não busca prever exatamente o comportamento do mercado, mas reduzir a exposição da fazenda às oscilações.
O objetivo não é ganhar do mercado, mas administrar o risco que ele representa. Essa diferença é importante. Em um mercado sujeito a oscilações, tentar acertar o momento exato da menor cotação pode transformar a gestão de custos em uma aposta. McCarty não trabalha dessa forma. “Nunca encaramos isso como uma estratégia para ganhar dinheiro”, afirma. “Em vez disso, é puramente uma estratégia de mitigação de riscos.”
O parâmetro utilizado pela empresa também não é o menor preço registrado no ano. A meta é alcançar uma posição consistente em relação ao histórico. Se a fazenda conseguir permanecer no terço inferior ou na metade inferior da média histórica de cinco a dez anos, ou simplesmente manter um custo relativamente estável de um ano para o outro, a estratégia é considerada bem-sucedida.
A previsibilidade é, nesse caso, mais importante do que acertar o fundo do mercado. Com um custo de combustível mais estável, a fazenda consegue projetar suas margens de leite com maior segurança, sabendo que um de seus principais insumos variáveis já está parcialmente protegido.
Megan Roberts, economista agrícola da Compeer Financial, concorda com essa abordagem. “As estratégias de gestão de risco, incluindo o hedge, têm menos a ver com prever o mercado e mais com gerir cuidadosamente a exposição, tomando decisões consistentes e incrementais para suavizar a volatilidade de uma forma que se adapte às necessidades da sua exploração leiteira”, afirma.
O que o hedge não consegue proteger
Mesmo com cerca de 90% do combustível diretamente utilizado pela fazenda protegido, McCarty reconhece que a estratégia não elimina toda a exposição aos preços da energia. Isso porque o custo do combustível também chega à propriedade de forma indireta. Uma alta do diesel pode afetar o preço de produtos e serviços adquiridos pela fazenda e, de maneira especialmente importante, o custo do transporte do leite.
Essa distinção é fundamental. Fixar o preço do diesel utilizado pelos próprios tratores e equipamentos não protege o produtor das sobretaxas de combustível cobradas por transportadoras terceirizadas responsáveis pelo transporte do leite. O mesmo vale para caminhões que fazem entregas de insumos, como os grãos de destilaria. Ou seja, mesmo uma estratégia estruturada de proteção não elimina todas as variáveis que compõem o custo de produção. Há exposições que o produtor simplesmente não consegue controlar diretamente.
Mas justamente por isso a gestão das variáveis que estão sob seu controle se torna ainda mais importante. Reduzir a exposição direta ao diesel permite diminuir uma parcela da vulnerabilidade da fazenda e concentrar a atenção naquilo que permanece fora de seu alcance.
Eficiência também é estratégia
A proteção financeira é apenas uma parte da estratégia da McCarty Family Farms. A outra está no consumo físico do combustível. Quanto menos diesel a fazenda utiliza, menor é sua exposição ao preço do mercado. Por isso, a equipe também busca continuamente formas de reduzir o consumo de energia da operação.
Entre as iniciativas estão a otimização das rotas de alimentação, reduzindo deslocamentos e tempo ocioso, e o investimento em equipamentos mais novos e eficientes em termos de consumo de combustível.
Essa perspectiva amplia o conceito de proteção. Enquanto um contrato pode reduzir a exposição ao preço durante determinado período, uma melhoria de eficiência pode reduzir permanentemente a quantidade de combustível necessária para realizar uma atividade. “Estamos constantemente buscando maneiras de consumir menos combustível e energia em geral como um método adicional para reduzir nossa exposição aos mercados de energia”, diz McCarty.
Nesse sentido, eficiência energética funciona como uma proteção de longo prazo, independentemente do comportamento futuro dos preços.
E para uma fazenda com 500 vacas?
A escala da McCarty Family Farms é muito maior do que a realidade da maioria das propriedades leiteiras, mas o princípio da gestão de combustível pode ser aplicado também a operações menores. O primeiro passo é conhecer o próprio consumo. Quantos litros de diesel a fazenda utiliza em um mês típico? Quais atividades mais influenciam esse volume: distribuição de ração, manejo de dejetos, trabalho no campo ou transporte?
Com essa informação em mãos, o produtor passa a ter uma referência para discutir alternativas com seu fornecedor de combustível e avaliar contratos futuros. Não é necessário comprometer 90% da necessidade anual, como faz a McCarty Family Farms. Cobrir 50% ou 60% do consumo também pode trazer maior previsibilidade ao orçamento.
Mais importante do que buscar o percentual perfeito é estabelecer uma estratégia compatível com a realidade da propriedade e segui-la com disciplina. “A gestão de riscos não se trata de acertar o pico ou o fundo do mercado”, diz Roberts. “Trata-se de evitar o risco econômico de não fazer nada.”
A lição: proteja o que puder
Em 2026, a rentabilidade da atividade leiteira continua dependendo de uma série de variáveis. O preço do leite pode oscilar, os custos da alimentação permanecem sujeitos a mudanças e fatores externos podem alterar rapidamente as condições de mercado.
Nesse cenário, o combustível é um dos insumos em que o produtor pode tomar medidas concretas para reduzir sua exposição. Ao estruturar compras com antecedência, fixar parte dos preços e trabalhar para reduzir o consumo, a fazenda consegue diminuir a volatilidade de uma despesa importante e ganhar previsibilidade para o orçamento.
A estratégia da McCarty Family Farms reflete uma abordagem mais ampla de gestão: decisões baseadas em dados, planejamento de longo prazo e foco na redução dos riscos que podem ser administrados. O objetivo não é eliminar completamente a incerteza — algo impossível em uma atividade tão exposta ao mercado —, mas evitar que uma variável previsível transforme-se em uma surpresa para o caixa da fazenda.
Em um setor no qual cada centavo da margem importa, olhar para o diesel com a mesma atenção dedicada ao preço do leite e ao custo da alimentação pode fazer diferença. Afinal, o combustível não precisa ser apenas uma despesa que o produtor paga conforme a necessidade. Com planejamento, eficiência e uma estratégia de proteção, ele também pode ser um custo administrado.
Artigo escrito por Karen Bohnert, publicado no Dairy Herd Management, traduzido e adaptado pela Equipe MilkPoint.