Da Tradição à inovação: potencial da impressão 3D no setor queijeiro

Impressão 3D de queijos revoluciona o setor lácteo, permitindo personalização, redução de desperdícios e produtos com maior valor nutricional. Confira!

Publicado por: vários autores

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Os queijos figuram entre os derivados lácteos mais consumidos globalmente, sendo elaborados por meio de diferentes processos que refletem tradições e particularidades culturais (MOHSIN et al., 2024). A demanda crescente por alimentos com elevado teor de proteínas e vitaminas tem impulsionado esse mercado, que apresenta previsão de expansão anual de até 6,9% até 2029, de acordo com estimativas da Mordor Intelligence.

Para acompanhar o crescimento do consumo de queijos, fatores como rendimento e composição nutricional se tornaram diferenciais importantes para o setor, ao lado dos avanços tecnológicos que vêm modernizando os processos de produção (Mohsin et al., 2024). Nesse cenário, a impressão 3D desponta como uma inovação promissora, ainda pouco explorada na área de lácteos. Também chamada de manufatura aditiva, essa tecnologia funciona de forma semelhante a uma impressora convencional, mas, em vez de tinta, utiliza biomateriais alimentícios para formar camadas sucessivas que resultam em estruturas estáveis e até personalizadas (Le Tohic et al., 2018).

Em pesquisas realizadas em escala piloto, a maior parte dos estudos sobre impressão 3D em queijos tem se concentrado nos queijos processados. Isso acontece porque esses produtos apresentam maior homogeneidade e estabilidade, o que facilita o processo de extrusão durante a impressão (Le Tohic et al., 2018; Pulatsu; Lin, 2021). Já no caso dos queijos frescos e artesanais, os desafios são maiores: a umidade mais elevada e a textura variável dificultam a formação de estruturas estáveis, o que pode comprometer tanto a deposição das camadas quanto a fidelidade do formato final.

 

Personalização de forma, textura e composição nutricional

A impressão 3D abre espaço para uma verdadeira revolução na forma como os queijos podem ser desenvolvidos. Com essa tecnologia, é possível ajustar de maneira precisa a forma, a composição, a textura e até as propriedades funcionais do produto, permitindo a criação de queijos inovadores e com maior valor agregado. Entre os principais diferenciais da técnica estão a possibilidade de personalização (tanto física quanto nutricional), o controle mais rigoroso da composição e da textura, a redução de desperdícios, a automação dos processos e até a incorporação de compostos que podem enriquecer o alimento (Figura 1).

Figura 1. Vantagens da utilização da tecnologia de impressão 3D para o setor lácteo

Fonte: os autores (2025)

Com o uso de modelos digitais tridimensionais, a impressão 3D permite produzir queijos com formatos e texturas personalizados, atendendo demandas específicas de consumidores de nicho (Ross et al., 2021; Hakim et al., 2024). Essa flexibilidade abre espaço para produtos voltados, por exemplo, a idosos e pessoas com necessidades especiais, que podem apresentar restrições alimentares ou dificuldades de mastigação e deglutição (Dick; Bhandari; Prakash, 2021).

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Mas o potencial da tecnologia vai muito além da estética. A impressão 3D possibilita controlar com precisão a composição do queijo, ajustando variáveis como teor de gordura, proteína e umidade. Dessa forma, torna-se viável desenvolver produtos com perfis nutricionais específicos para diferentes públicos, como crianças, idosos ou indivíduos com dietas restritivas (Dou; Ren, 2024).

Outro diferencial é a capacidade de modular a textura por meio de parâmetros de formulação e propriedades reológicas, como a concentração de proteínas, o uso de hidrocoloides ou a adição de lipídios. Pesquisas indicam que a incorporação de proteínas do soro e de caseína micelar pode melhorar a coesão e a estabilidade das matrizes lácteas, garantindo maior precisão na deposição das camadas e melhor retenção da forma final (Derossi et al., 2021; Liu; Zhang, 2021).

Assim, ao unir estética e funcionalidade, a impressão 3D amplia o portfólio de possibilidades para a indústria e fortalece sua competitividade. Mais do que um alimento tradicional, o queijo pode assumir o papel de veículo de inovação tecnológica e de identidade cultural, alinhando-se às tendências de consumo por produtos personalizados e sustentáveis (Pulatsu; Lin, 2021; Hakim et al., 2024; Caulier; Doets; Noort, 2020).

 

Redução de desperdícios e sustentabilidade

Do ponto de vista produtivo, a impressão 3D representa um avanço importante na redução de desperdícios, pois o alimento é depositado camada por camada, utilizando apenas a quantidade necessária de matéria-prima (Jiang et al., 2020; Ross et al., 2021). Esse cuidado se alinha aos princípios da economia circular e da sustentabilidade, especialmente em um setor que apresenta altos índices de perdas ao longo da cadeia de produção (March et al., 2019; Hakim et al., 2024).

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Além disso, a automação e a precisão do processo diminuem a variabilidade entre lotes, garantindo maior uniformidade e padronização do queijo produzido. Parâmetros controlados como velocidade de extrusão, diâmetro do bico e temperatura de processamento asseguram consistência e estabilidade estrutural (Ross et al., 2021; Ma; Zhang, 2022; Ghimire et al., 2025).

 

Enriquecimento e funcionalidade dos queijos

Outro diferencial é a possibilidade de enriquecer os queijos com compostos bioativos, probióticos e micronutrientes. Lipídios e proteínas do leite podem atuar como veículos de proteção, favorecendo a liberação controlada desses componentes e aumentando o valor nutricional e funcional do produto (Chow et al., 2021).

A tecnologia também permite o aprisionamento direcionado de enzimas, modulando reações bioquímicas que desenvolvem sabor e textura durante a maturação. Estudos mostram que a ação de enzimas como o coalho, combinada à regulação de pH e cálcio, pode ser integrada à impressão 3D para formar géis proteicos mais estáveis e otimizar características sensoriais (Uribe-Alvarez et al., 2021; Ross; Crowley; Kelly, 2022). Isso abre oportunidades para queijos com perfis sensoriais personalizados, consolidando a impressão 3D como uma ferramenta inovadora no setor.

 

Perspectivas e desafios

Assim, a impressão 3D no setor queijeiro surge como uma tecnologia promissora, capaz de unir tradição e inovação, permitindo personalização de forma, textura e composição nutricional dos queijos. Além de reduzir desperdícios e favorecer a padronização, ela possibilita incorporar compostos funcionais e criar produtos diferenciados. Entretanto, desafios como a padronização de formulações, a estabilidade de queijos artesanais e a aceitação do consumidor ainda precisam ser superados para que essa tecnologia seja amplamente adotada, consolidando-se como recurso estratégico para um futuro mais sustentável e inovador na indústria láctea.

Agradecimentos

Os autores agradecem a CAPES - Código Financiamento 001; ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) (APQ 00785-23/RED 00157-23/ APQ-06600-24/ APQ 05926-24), a FINEP e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT).

 

Referências bibliográficas

CAULIER, S.; DOETS, E.; NOORT, M. An exploratory consumer study of 3D printed food perception in a real-life military setting. Food Quality and Preference, v. 86, p. 104001, 1 dez. 2020. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0950329320302706>.

CHOW, C. Y. et al. Printability, stability and sensory properties of protein-enriched 3D-printed lemon mousse for personalised in-between meals. Food Hydrocolloids, v. 120, p. 106943, 1 nov. 2021. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0268005X21003593>.

DEROSSI, A. et al. Programmable texture properties of cereal-based snack mediated by 3D printing technology. Journal of Food Engineering, v. 289, p. 110160, 1 jan. 2021. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0260877420302570>.

DICK, A.; BHANDARI, B.; PRAKASH, S. Printability and textural assessment of modified-texture cooked beef pastes for dysphagia patients. Future Foods, v. 3, p. 100006, 1 jun. 2021. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2666833520300101>.

DOU, X.; REN, J. The application of dairy products and their derivatives as edible inks in 3D printing technology: A review. International Journal of Food Science and Technology, v. 59, n. 11, p. 8630–8644, 12 out. 2024. Disponível em: <https://dx.doi.org/10.1111/ijfs.17195>.

GHIMIRE, S. et al. Production of 3D-printed meat analogues using pea, fava, and mung bean proteins: A comparison study. Food Structure, v. 44, p. 100419, 1 abr. 2025. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2213329125000140>. 

HAKIM, L. et al. Edible ink for food printing and packaging applications: a review. Sustainable Food Technology, v. 2, n. 4, p. 876–892, 19 jul. 2024. Disponível em: <https://pubs.rsc.org/en/content/articlehtml/2024/fb/d4fb00036f>.

JIANG, Z. et al. Extrusion 3D Printing of Polymeric Materials with Advanced Properties. Advanced Science, v. 7, n. 17, p. 2001379, 1 set. 2020. Disponível em: </doi/pdf/10.1002/advs.202001379>. 

LE TOHIC, C. et al. Effect of 3D printing on the structure and textural properties of processed cheese. Journal of Food Engineering, v. 220, p. 56–64, 1 mar. 2018. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0260877417300420>. 

LIU, Z.; ZHANG, M. Texture properties of microwave post-processed 3D printed potato snack with different ingredients and infill structure. Future Foods, v. 3, p. 100017, 1 jun. 2021. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2666833521000071>. 

MA, Y.; ZHANG, L. Formulated food inks for extrusion-based 3D printing of personalized foods: a mini review. Current Opinion in Food Science, v. 44, p. 100803, 1 abr. 2022. Disponível em: <https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2214799321001727>.

MARCH, M. D. et al. Food Waste in Primary Production: Milk Loss With Mitigation Potentials. Frontiers in Nutrition, v. 6, p. 476468, 12 nov. 2019. Disponível em: <www.frontiersin.org>.

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Material escrito por:

Gabriela Aparecida Nalon

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Jeferson Silva Cunha

Jeferson Silva Cunha

Mestrando em Ciência e Tecnologia de Alimentos e membro do Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos - LIPA/DTA/UFV

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Manoela Maciel dos Santos Dias

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Pós-doutoranda no Programa de Pós Graduação em Ciência e Tecnologia de Alimentos da Universidade Federal de Viçosa

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Hiasmyne Silva de Medeiros

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Ana Flavia Coelho Pacheco

Ana Flavia Coelho Pacheco

Professora/pesquisadora do Instituto de Laticínios Cândido Tostes - EPAMIG-MG) e Membra do Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos - LIPA/DTA/UFV.

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