Com o envelhecimento populacional se intensificando no Brasil e no mundo, cresce também o interesse por estratégias que promovam um envelhecimento saudável e com qualidade de vida. Nesse contexto, uma revisão publicada recentemente na revista Food Research International destaca o papel promissor dos produtos lácteos fermentados como fontes de peptídeos bioativos, que são pequenas sequências de aminoácidos com efeitos fisiológicos benéficos.
O artigo, publicado por pesquisadoras da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), evidencia que, além de fornecerem proteínas de alto valor biológico, cálcio e outros nutrientes, os produtos lácteos fermentados podem contribuir para a nossa saúde ao fornecerem peptídeos bioativos, compostos que podem atuar positivamente no controle de doenças crônicas comuns em idosos, como hipertensão, diabetes tipo 2 e osteoporose.
O que são os peptídeos bioativos?
Esses compostos estão inativos dentro das estruturas das proteínas e podem se tornar ativos quando são liberados por ação de enzimas. Essa liberação pode ocorrer tanto durante a fermentação dos produtos lácteos quanto na digestão gastrointestinal. Uma vez ativos, os peptídeos podem exercer diversas funções, como:
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Efeito anti-hipertensivo, por inibição da enzima conversora de angiotensina (ECA);
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Ação antidiabética, por interferência na digestão e absorção de carboidratos;
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Atividade antioxidante, contribuindo para a proteção celular;
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Efeito imunomodulador e anti-inflamatório, importante para o equilíbrio do sistema imune;
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Melhora da absorção de minerais, como cálcio e magnésio, auxiliando na prevenção da osteoporose.
Peptídeos bioativos derivados de produtos lácteos e o potencial benefício à saúde
Produtos como iogurtes, queijos e kefir são reconhecidos pela presença de peptídeos bioativos. As bactérias ácido-láticas (BAL), utilizadas nos processos de fermentação durante a fabricação desses produtos, desempenham papel-chave nesse processo ao produzirem enzimas que hidrolisam as proteínas do leite e liberam fragmentos bioativos.
Estudos mencionados na revisão destacam que diferentes cepas de bactérias e diferentes condições de processamento (como tempo de maturação, adição de culturas adjuntas e tratamento térmico do leite) afetam diretamente o perfil peptídico dos produtos finais. Queijos com maior tempo de maturação, por exemplo, tendem a apresentar maior diversidade e quantidade de peptídeos bioativos. Além disso, o trabalho destaca que esses peptídeos também podem ser formados durante o processo digestivo, após a ingestão dos produtos lácteos fermentados.
A revisão ressalta que os peptídeos bioativos têm potencial para atuar de forma integrada em diversos sistemas do organismo. Na saúde cardiovascular, por exemplo, eles podem auxiliar no controle da pressão arterial. Já no sistema nervoso, certos peptídeos apresentam efeitos neuroprotetores e podem modular funções cognitivas.
A despeito da hipótese animadora, os autores reforçam a necessidade de estudos clínicos para comprovar os efeitos desses compostos em humanos, especialmente considerando as mudanças fisiológicas do trato digestivo em idosos, que podem influenciar a liberação e a absorção desses peptídeos.
Referências bibliográficas
Munhóz, B. A. & Baptista, D. P. (2025). Fermented dairy products as sources of bioactive peptides with potential benefits to older adults' health. Food Research International, 218, 116921. https://doi.org/10.1016/j.foodres.2025.116921