A contagem de células somáticas (CCS) mede a quantidade de células de defesa, principalmente leucócitos, que migram para a glândula mamária em resposta a processos inflamatórios. Quanto maior a CCS, maior a probabilidade de ocorrência de mastite, seja clínica ou subclínica, o que impacta negativamente a produtividade leiteira por vaca, o rendimento industrial de produtos lácteos e, em última instância, a qualidade e a vida de prateleira dos derivados (REHAGRO, 2024). Por essa razão, legislações específicas estabelecem limites rígidos para a CCS, e muitas empresas do setor bonificam produtores que entregam leite com baixos níveis dessa contagem.
No Brasil, a regulamentação da CCS evoluiu ao longo das últimas duas décadas. A Instrução Normativa (IN) nº 51/2002 fixou o primeiro limite para a CCS em 1.000.000 cél·mL-1. Posteriormente, a IN nº 62/2011 reduziu gradualmente esse teto e instituiu a Rede Brasileira da Qualidade do Leite (RBQL). Por fim, as IN nº 76 e nº 77/2018 definiram o limite atual: 500.000 cél·mL-1, calculado como a média geométrica trimestral de cada fazenda. Os dados oficiais, disponibilizados no Painel BI-Leite do Ministério da Agricultura (MAPA), permitem acompanhar a evolução desses indicadores desde 2013, ano em que a RBQL começou a operar de forma regular (BRASIL, 2021).
Neste contexto, este artigo analisa a trajetória da CCS no Brasil a partir de 2013, primeiro ano com dados oficiais consolidados, e relaciona as oscilações observadas com eventos que marcaram o setor ao longo desse período. Além de reconstruir essa evolução, o artigo chama a atenção para o recente aumento nos índices de CCS, que demanda vigilância redobrada por parte de produtores, indústrias e formuladores de políticas públicas. Por fim, apresenta uma breve comparação com o cenário internacional, destacando os padrões de qualidade a serem alcançados para fortalecer a competitividade do leite brasileiro no mercado global e impulsionar as exportações de lácteos.
Evolução da CCS nacional (2013-2024)
Desde que a Rede Brasileira da Qualidade do Leite (RBQL) passou a divulgar dados públicos em 2013, tornou-se possível acompanhar a resposta da contagem de células somáticas (CCS) a mudanças técnicas, econômicas e regulatórias ao longo da cadeia produtiva do leite. O ponto de partida foi modesto: pouco mais de 700 mil amostras, coletadas quase exclusivamente em laticínios sob inspeção federal (SIF), indicaram uma média de 381.000 cél·mL-1 (BRASIL, 2021). Naquela época, esse valor subestimava a realidade nacional, pois as coletas ainda não contemplavam a vasta base de pequenos produtores fora do SIF.
Entre 2014 e 2016, a inclusão de laboratórios estaduais e municipais triplicou o número de amostras analisadas (BRASIL, 2021). A média da CCS saltou inicialmente para 407.000 em 2014 e, em seguida, para 444.000 em 2016, um pico associado à consolidação de mais de dois milhões de análises anuais. A partir de 2016, o volume total de exames apresentou variações anuais inferiores a 5%, estabilizando-se em torno de 2,3 milhões de amostras (BRASIL, 2021). Foi também neste período que a Embrapa publicou o primeiro Manual de Boas Práticas de Ordenha (EMBRAPA, 2015), iniciando uma série de treinamentos que se tornariam referência nacional.
A Figura 1 sintetiza essa trajetória em três momentos principais. O valor inicial de 2013 representa um "piso metodológico", reflexo da subamostragem que excluía a maioria dos pequenos produtores. Entre 2014 e 2019, observa-se um platô em torno de 440.000 a 450.000 cél·mL-1, refletindo a expansão estabilizada da rede de laboratórios. Em 2020, houve uma queda pontual para 432.000, provavelmente impulsionada pela fiscalização trimestral do SISLeite. No entanto, essa melhora não se manteve: a curva voltou a subir rapidamente, alcançando o recorde de 531.000 cél·mL-1 em 2024 (BRASIL, 2024a).
Figura 1. Evolução da CCS média nacional (2013-2024)
Fonte: Mapa – Painel BI-Leite (fev 2024).
Por que a CCS voltou a subir?
A elevação recente da contagem de células somáticas (CCS) está relacionada a fatores críticos que ainda não foram plenamente superados:
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Adoção incompleta das boas práticas de ordenha: Auditorias realizadas segundo a IN 77 indicam que o pré-dipping — aplicação de desinfetante antes de colocar as teteiras — é negligenciado em cerca de um terço das propriedades avaliadas (REHAGRO, 2024). Essa falha aumenta em 10 vezes a carga bacteriana na pele do teto, elevando o risco de infecções. O pós-dipping também sofre interrupções frequentes, especialmente em dias de chuva ou pela falta do produto, resultando em acréscimos médios de 60.000 cél·mL-1 na CCS do tanque.
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Assistência técnica insuficiente e intermitente: Programas como Balde Cheio e ATeG Leite, que comprovam visitas mensais, demonstram redução rápida da CCS nas propriedades assistidas. No entanto, eles atendem a menos de 25% dos 1,1 milhão de produtores nacionais (SENAR; EMBRAPA, 2024). Sem orientação constante, práticas inadequadas – como troca tardia de teteiras, uso de água fria para lavagem do úbere no inverno e não uso de luvas descartáveis – se tornam comuns, comprometendo a qualidade do leite.
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Incentivos econômicos pouco atrativos: Em muitas regiões, o bônus pago por cooperativas e laticínios por leite com CCS inferior a 300.000 cél·mL-1 é de apenas R$ 0,02 L-1. Segundo Gonsalles e Antunes (2024), a partir de R$ 0,04 L-1 o produtor percebe retorno financeiro suficiente para investir em higiene, veterinário e manutenção preventiva. Valores abaixo disso levam o produtor a priorizar o volume em detrimento da qualidade.
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Fiscalização desigual entre estados: Estados com boa estrutura laboratorial, como Minas Gerais e Paraná, notificam e penalizam produtores em até 30 dias. Em locais com infraestrutura deficiente, esse processo pode levar de 60 a 90 dias, quando o leite já foi comercializado (NUTRINEWS, 2024). Essa disparidade resulta em médias estaduais que variam de 270.000, em rebanhos profissionalizados, a mais de 700.000 cél·mL-1, em regiões com controle precário.
O que esperar dos resultados de 2025?
Até o fechamento deste artigo não existe, nos repositórios oficiais do Ministério da Agricultura (MAPA), a média nacional de CCS referente a 2025. No entanto, os sinais disponíveis apontam para a manutenção do patamar recorde observado em 2024.
O primeiro indício vem do Programa Mais Leite Saudável (PMLS), política federal que oferece crédito subsidiado para modernização da infraestrutura – como ordenha canalizada e tanques de resfriamento – aliado a um forte componente de assistência técnica continuada. Cada projeto aprovado inclui o acompanhamento de consultores para diagnóstico da qualidade do leite, elaboração de planos de ação e treinamento em Boas Práticas de Ordenha, etapas essenciais para reduzir a CCS. A nova etapa do programa, homologada para o período 2025–2028, deve beneficiar cerca de 50 mil propriedades em todo o país (BRASIL, 2025a). Embora expressivo, esse número representa menos de 5% do total de produtores brasileiros, o que torna improvável um impacto significativo na média geométrica nacional no curto prazo.
O segundo fator é a inércia regulatória. O MAPA discute internamente a revisão da Instrução Normativa nº 76/2018, com a possibilidade de reduzir o limite da CCS para 450.000 cél·mL-1. Contudo, até julho de 2025, nenhuma portaria oficializou prazos ou cronogramas de transição. Essa indefinição desestimula investimentos em infraestrutura de ordenha, capacitação de equipes e assistência técnica contínua, levando produtores e laticínios a adotar uma postura de “esperem para ver”.
O terceiro elemento é o impacto de eventos climáticos extremos. A Portaria MAPA nº 687/2024 introduziu medidas excepcionais para o Rio Grande do Sul, estado fortemente afetado por enchentes em maio de 2024. A norma permitiu a prorrogação de cronogramas e a flexibilização de metas do PMLS, além do redirecionamento de recursos para a reconstrução de instalações (NOTÍCIAS AGRÍCOLAS, 2024a; 2024b). As enchentes interromperam a coleta em dezenas de municípios, reduzindo em cerca de 15% o volume de leite inspecionado no estado nas semanas seguintes, segundo a Emater/RS (EMATER/RS, 2024).
Como terceiro maior produtor nacional, responsável por aproximadamente 12% do leite brasileiro em 2023 (IBGE, 2024), qualquer retração prolongada na produção gaúcha afeta os indicadores nacionais. Além da redução de volume, as dificuldades logísticas aumentaram o tempo entre a ordenha e o resfriamento industrial, o que pode ter elevado a CCS média nas bacias afetadas. Embora tais flexibilizações sejam fundamentais para a retomada produtiva, elas não alteram o limite sanitário vigente de 500.000 cél·mL-1 nem trazem ganhos mensuráveis de qualidade no curto prazo.
Diante dessa combinação – cobertura ainda limitada de projetos estruturantes, ausência de novos parâmetros legais e concessões regionais que apenas mitigam os impactos – o cenário mais provável é a continuidade da elevação da média nacional de CCS em 2025, superando os 531.000 cél·mL-1 registrados em 2024.
CCS brasileira em perspectiva internacional
O Brasil registrou, em 2024, uma média geométrica de aproximadamente 531.000 cél·mL-1, valor que contrasta fortemente com os índices das principais regiões exportadoras de lácteos. Na União Europeia, a contagem média de células somáticas gira em torno de 180.000 cél·mL-1, praticamente um terço do índice brasileiro (EC, 2024). Nos Estados Unidos, o número é semelhante (CDCB, 2024), enquanto a Nova Zelândia, referência mundial em produção pastoril, apresenta uma média de cerca de 160.000 cél·mL-1 (DAIRYNZ, 2024). Esses dados, ilustrados na Figura 2, evidenciam uma defasagem sanitária que vai além de diferenças climáticas ou de sistemas produtivos, estando fortemente associada a políticas públicas, incentivos econômicos e cultura de assistência técnica.
Figura 2. CCS média em 2024: Brasil x referências internacionais
Fonte: MAPA/Painel BI-Leite; Milk Market Observatory, EC (EU-27); CDCB DHI Summary 2024 (EUA); DairyNZ Statistics. 2023/24 (NZ).
Na Europa, o teto regulatório de 400.000 cél·mL-1, vigente há mais de duas décadas, funciona como exigência mínima de conformidade, enquanto bonificações progressivas pagas pelos laticínios estimulam a maioria dos produtores a manter contagens ainda mais baixas.
Nos Estados Unidos, o sistema de pagamento por qualidade é igualmente rigoroso: rebanhos que mantêm CCS abaixo de 200.000 cél·mL-1 recebem bônus substanciais, enquanto aqueles que excedem o limite sofrem descontos imediatos.
Na Nova Zelândia, soma-se a esse contexto um forte componente cooperativista: empresas como a Fonterra publicam metas anuais e fornecem aos produtores relatórios comparativos detalhando as perdas econômicas associadas à mastite, reforçando a percepção de que CCS elevada não é apenas um problema sanitário, mas uma fonte direta de ineficiência econômica.
Nesse cenário, o índice brasileiro torna-se um sinal de alerta competitivo. Globalmente, compradores de leite em pó, queijos e ingredientes valorizam matéria-prima com baixa contagem celular, pois ela assegura maior rendimento industrial e vida de prateleira mais longa. Ao se manter acima de 500.000 cél·mL-1, o Brasil limita seu acesso a nichos premium e corre o risco de enfrentar barreiras técnicas adicionais em mercados que já exigem, cada vez mais, rastreabilidade ambiental e práticas de bem-estar animal. Em outras palavras, reduzir a CCS não é apenas uma exigência sanitária interna, mas um passo estratégico para posicionar o país de forma competitiva em uma arena internacional cada vez mais orientada por padrões de qualidade mensurável.
Conclusões
A análise de mais de uma década de dados revela que a contagem de células somáticas (CCS) no leite brasileiro passou por avanços importantes, mas permanece distante dos padrões internacionais. A estabilização em torno de 440.000–450.000cél·mL-1, observada entre 2014 e 2019, indicava um progresso gradual e consistente, interrompido pela escalada até o recorde de 531.000cél·mL-1 em 2024. Essa reversão evidencia que conquistas pontuais não se sustentam sem políticas públicas de longo prazo, investimentos contínuos em infraestrutura de ordenha e assistência técnica permanente nas propriedades.
Caso as primeiras estimativas de 2025 confirmem a tendência de alta, o Brasil corre o risco de consolidar uma posição periférica nos mercados internacionais de maior valor agregado. Programas como o Mais Leite Saudável (PMLS) podem ajudar a mitigar o problema, mas seu alcance restrito e a ausência de metas regulatórias mais ambiciosas limitam seu impacto em nível nacional. A revisão da Instrução Normativa nº 76/2018, aliada à oferta de bonificações mais expressivas por parte da indústria, surge como ferramenta essencial para reverter esse cenário.
Reduzir a CCS não é apenas uma exigência sanitária: trata-se de uma estratégia econômica para elevar a competitividade da cadeia láctea, melhorar o rendimento industrial e garantir ao consumidor produtos mais seguros e com maior vida de prateleira. O desafio, portanto, vai além da gestão individual das fazendas e exige articulação entre produtores, laticínios, serviços de extensão, instituições financeiras e o poder público. Metas claras, incentivos bem estruturados e monitoramento transparente podem transformar a preocupação atual em uma oportunidade concreta de avanço tecnológico, econômico e reputacional para o leite brasileiro.
Agradecimentos:
Os autores agradecem a CAPES - Código Financiamento 001; ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) (APQ 00785-23/RED 00157-23/ APQ-06600-24), a FINEP e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT).
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