A pecuária, e em especial a bovinocultura, é frequentemente apontada como uma das fontes significativas de gases de efeito estufa (GEE), com o metano entérico (produzido no rúmen dos animais) sendo um dos principais contribuintes. No entanto, é fundamental reconhecer que a atividade não é intrinsecamente prejudicial, e que há um vasto campo de atuação para aprimorar sua sustentabilidade.
Surpreendentemente, pequenas e estratégicas mudanças na dieta do gado podem gerar impactos ambientais substanciais, otimizando a digestão e, crucialmente, reduzindo a produção de metano, contribuindo assim para uma pecuária mais eficiente e amiga do meio ambiente.
Como a pecuária leiteira libera metano?
O metano entérico é um subproduto natural do processo de fermentação que ocorre no rúmen dos bovinos, onde microrganismos digerem a celulose e outros componentes fibrosos dos alimentos. Embora essencial para a digestão do animal, a liberação desse gás representa uma perda de energia para o bovino e um potente GEE para a atmosfera, com um potencial de aquecimento global muito superior ao do dióxido de carbono em curtos e médios prazos. A magnitude desse impacto varia consideravelmente, dependendo da dieta, da raça do animal e do sistema de produção.
A base para a redução de metano e a otimização da digestão reside em melhorar a eficiência da fermentação ruminal; quando a digestão é mais eficiente, menos subprodutos indesejáveis, como o metano, são formados. Uma digestão otimizada significa que o animal aproveita melhor os nutrientes da dieta, resultando em maior produtividade (mais leite ou carne) com a mesma quantidade de alimento ou até menos, o que se traduz em menor pegada ambiental por unidade de produto.
Como reduzir a emissão de metano através da alimentação?
Uma das abordagens mais promissoras é o uso de suplementos minerais específicos e aditivos alimentares. Certos minerais e compostos podem modular a população microbiana do rúmen, favorecendo microrganismos que produzem menos metano ou inibindo aqueles que são grandes produtores; por exemplo, a inclusão de:
- Nitratos,
- Óleos vegetais específicos (como óleo de coco ou linhaça),
- Algas marinhas (especialmente a Asparagopsis taxiformis)
- Ou aditivos sintéticos como o 3-nitrooxipropanol (3-NOP)
Esses compostos tem demonstrado reduzir significativamente as emissões de metano. Embora o 3-NOP seja uma tecnologia mais avançada e de custo mais elevado, a busca por suplementos mais acessíveis e eficientes é contínua e acessível para o produtor.
A qualidade da forragem é outro pilar fundamental porque as forrageiras de melhor qualidade e mais digestíveis permitem que o animal extraia mais nutrientes em menos tempo, reduzindo o período de fermentação no rúmen e, consequentemente, a produção de metano. Pastagens bem manejadas, com forragem jovem e rica em folhas, oferecem maior digestibilidade em comparação com pastos velhos e fibrosos. Investir em pastagens mais nutritivas, seja por meio de manejo rotacionado, adubação adequada ou introdução de espécies forrageiras melhoradas, tem um impacto direto e positivo na eficiência digestiva e na redução de GEE.
A suplementação estratégica com concentrados também desempenha um papel importante. A inclusão de grãos, farelos proteicos ou outros alimentos concentrados na dieta, especialmente em períodos de escassez de forragem ou para animais de alta produção, pode alterar o ambiente ruminal.
Dietas com maior proporção de carboidratos não fibrosos (presentes em grãos) tendem a favorecer vias de fermentação que produzem menos metano em comparação com dietas ricas apenas em fibras de baixa digestibilidade. No entanto, é crucial que essa suplementação seja balanceada para evitar problemas metabólicos, como a acidose ruminal.
Outra estratégia é o ajuste do teor de lipídios (gordura) na dieta; a gordura quando adicionada à dieta em níveis controlados, pode atuar como um inibidor dos microrganismos metanogênicos no rúmen. Além disso é uma fonte de energia concentrada, o que pode otimizar a densidade energética da dieta e melhorar a eficiência alimentar. Contudo, o excesso de gordura pode prejudicar a digestão da fibra, sendo necessário um balanço cuidadoso.
A otimização da sanidade e do bem-estar animal também se reflete na eficiência digestiva, animais sadios e confortáveis têm um sistema digestório funcionando em sua plenitude, o que maximiza o aproveitamento dos nutrientes e minimiza o desperdício de energia na forma de metano. Isso inclui controle de parasitas, manejo adequado do estresse e acesso a água de qualidade, como abordado em outros contextos.
A pesquisa e o desenvolvimento contínuo de novos aditivos e estratégias nutricionais são cruciais para o futuro da pecuária sustentável. Cientistas e pesquisadores estão constantemente buscando soluções inovadoras, desde a identificação de bactérias ruminais mais eficientes até o desenvolvimento de alimentos geneticamente modificados que promovam menor produção de metano. A colaboração entre a academia e os produtores é fundamental para testar e implementar essas inovações no campo.
A adoção dessas pequenas mudanças na dieta não apenas beneficia o meio ambiente, mas também pode trazer vantagens econômicas para o produtor; uma digestão mais eficiente significa que o animal está convertendo melhor o alimento em produto, o que pode resultar em menor custo por litro de leite ou quilo de carne, além de reduzir a necessidade de insumos adicionais a longo prazo. É um cenário de ganha-ganha para a fazenda e para o planeta.
Agradecimentos: À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (Processo n. 303505/2023-0), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) Chamada Pública FAPEG n. 21/2024 - Programa de Auxílio à Pesquisa Científica e Tecnológica - Edição 2024, Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) e IF Goiano - Campus Rio Verde pelo apoio financeiro a realização da pesquisa.
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