Os protocolo de IATF foram sendo alterados e hoje com protocolo baseado nos hormônios estrógeno (E2) e progesterona (P4), se consegue sincronizar uma nova onda folicular (Godoi et al., 2010), sincronizando a ovulação e eliminando a necessidade de detecção visual de estro (Ferraz et al., 2023).
Vacas de alta produção de leite apresentam estros de duração reduzida, dificultando a identificação visual de estros (Poit, 2024). Além disso, falhas na detecção do estro resultam na inseminação de animais que não estão em estro e na não inseminação de animais que apresentem estros curtos, afetando diretamente na taxa de prenhez do rebanho (Heersche; Nebel, 1994; Poit, 2024). Devido aos fatores que podem influenciar na expressão e na taxa de detecção visual do estro, sistemas automáticos de monitoramento de atividade (SAMA) foram desenvolvidos para a avaliação contínua dos animais, e, de acordo com o aumento da atividade física em relação à atividade basal, detectar vacas em estro (LeRoy; Walton; LeBlanc, 2018; Madureira, et al., 2019).
Além disso, esses sistemas também podem detectar a intensidade do estro. Sabe-se que a intensidade do estro possui influência na taxa de concepção de vacas holandesas. Estudos realizados por Madureira et al. (2015) e Tippenhauer et al. (2023) em vacas holandesas, alojadas em sistema de free-stall, apontam que vacas com maior intensidade de estro, medidos por sistemas de monitoramento automático de atividade e submetidas a protocolos de IATF e IA após estro espontâneo, apresentam maiores taxas de concepção. Dessa forma, objetivou-se avaliar o efeito da intensidade do estro, avaliado pelo SAMA ao final do protocolo de IATF, na taxa de concepção em vacas leiteiras mestiças.
O experimento foi realizado no Setor de Bovinocultura Leiteira da Fazenda Experimental do Glória, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), localizada no município de Uberlândia, MG. O rebanho é composto por aproximadamente 80 vacas lactantes mestiças Holandês/Gir com produção média de 30,00 Kg de leite/dia/vaca, em duas ordenhas diárias. As vacas são mantidas confinadas em barracão do tipo "compost barn", recebendo silagem de milho com suplementação concentrada durante toda a lactação.
Após o parto, as vacas receberam os colares com o dispositivo do SAMA, e após o período voluntário de espera, foram submetidas ao seguinte protocolo de IATF: no dia 0, receberam um dispositivo intravaginal de progesterona de 1,0 g e a aplicação de 2 mg de benzoato de estradiol (BE) via intramuscular (IM). No dia 7, foi aplicado 2mg de cloprostenol via intramuscular (IM). No dia 9, foi injetado 1 mg de cipionato de estradiol (CE) via intramuscular (IM) e retirado o dispositivo intravaginal de progesterona. Após 48 horas, todas foram inseminadas.
De janeiro de 2024 a agosto de 2025, foram avaliados 254 estros ao final do protocolo de IATF. A coleta de dados dos estros foram feitas conforme os protocolos de IATF, podendo o mesmo animal ser submetido a mais de 1 protocolo caso a prenhez não fosse confirmada. De acordo os dados produzidos pelo SAMA, baseado na magnitude do desvio da característica de número de passos em relação à média basal ± dois desvios-padrão, a intensidade do estro das vacas foi categorizada conforme a porcentagem excedida de atividade em 4 grupos: ausente; fraco; moderado e forte.
O diagnóstico de gestação foi realizado por ultrassonografia transretal 32 dias após IATF. A taxa de concepção foi calculada pela divisão das vacas gestantes, no dia 32 após a IA, pelo total das inseminações e multiplicado por 100. As análises estatísticas foram realizadas por regressão logística no programa MINITAB, sendo incluído no modelo o efeito da intensidade do estro ao final do protocolo de IATF. Foi considerada diferença estatística quando o P ≤0,05.
Durante o período de coleta de dados, foram analisados 254 estros ao final do protocolo de IATF, e a intensidade foi classificada de acordo com a magnitude do desvio da atividade em relação à média basal. Dessa forma, 46,06% dos estros foram classificados como ausentes (117/254), 5,90% foram fracos (15/254), 25,60% foram moderados (65/254), e 22,44% foram fortes (57/254).
Figura 1 - Representação gráfica da proporção da intensidade de estros registrados durante o experimento ao final do protocolo de IATF. Fonte: o autor.
Constatou-se que 46,06% dos animais não manifestaram estros. Diversos fatores podem diminuir a expressão do estro, como aumento do índice de temperatura e umidade uma semana antes da IA (Tippenhauer et al., 2021), claudicação (Walker et al., 2008), paridade, menor escore de condição corporal, alta produtividade, menor concentração de estradiol (Madureira et al., 2015), distúrbios ocorridos no período de transição (natimorto, retenção de placenta, metrite puerperal, cetose subclínica, entre outros) (Bretzinger et al., 2023).
Dentre esses fatores, destaca-se o estresse térmico. Conforme há um aumento da produção de leite, há um aumento da produção metabólica de calor, sendo necessário mecanismos de resfriamentos, como o sistema de aspersão e ventilação, descrito por Flamenbaum et al. (1986). Na Fazenda do Glória, utiliza-se esse sistema, porém há uma quantidade insuficiente de ventiladores no compost barn, além da ausência de sombreamento lateral, que pode contribuir para um possível estresse térmico nas vacas.
Vacas submetidas a estresse térmico secretam baixos níveis de LH (Bridges; Brusie; Fortune, 2005), prejudicando as demais etapas que promovem o crescimento folicular, a ovulação e formação de um corpo lúteo funcional. Além disso, nesses animais há diminuição da produção esteroidogênica dos folículos, reduzindo a produção de estradiol, o que pode diminuir a duração e intensidade do estro, além de afetar negativamente os eventos associados à ovulação e atividade do corpo lúteo (redução da produção de progesterona) (Wolfenson et al., 1997; Wolfenson; Roth; Meidan, 2000). São necessários mais estudos para identificar se há efeito do estresse térmico na manifestação do estro e na taxa de concepção nas vacas leiteiras da Fazenda do Glória.
Também pode ter ocorrido ovulações sem manifestação de estros silenciosos, quando ocorre a ovulação sem a manifestação do estro. Um estudo realizado por Law et al. (2009), utilizando como parâmetro de detecção de estro a observação visual e registros de atividades comportamentais no sistema de pontuação desenvolvido por Van Eerdenburg et al. (1966), constatou que 19,6% (72/367) dos estros analisados foram considerados silenciosos, e que 59% dos animais do experimento apresentaram no mínimo um ciclo estral silencioso antes de emprenhar.
Ranasinghe et al. (2010) analisaram a ovulação silenciosa baseada na atividade monitorada por pedômetro e em perfis de progesterona do leite de vacas alojadas em sistema de free-stall. Os autores concluíram que a incidência de ovulação silenciosa diminui conforme aumento do número de ciclos ovulatórios no pós-parto, atingindo 55,2% na primeira ovulação, tendo o risco aumentado de ocorrer entre a segunda e a quarta ovulação em vacas com moderada e alta produção de leite.
Além disso, a efetividade do protocolo de IATF pode influenciar no número de vacas que não manifestaram estro. Um estudo realizado por Monteiro Jr et al. (2015) avaliou a sincronização do início da onda de crescimento folicular em protocolo IATF baseado em E2 e P4. Além disso, avaliou a influência do aumento da dose de BE no dia 0 e aplicação de GnRH para promover uma pré-sincronização antes do protocolo. O autor conclui que 77,8% das vacas ovularam ao final do protocolo, e apenas 59,5% das vacas apresentaram tanto a sincronização do início da onda de crescimento folicular quanto a ovulação ao final do protocolo.
Estudos realizados por Pereira et al. (2017) demonstraram taxa de ovulação entre 71,8 e 83,6% ao fim do protocolo de IATF à base de E2 e P4. Diante desses dados, a eficiência do protocolo de IATF utilizado no presente estudo pode ter contribuído para a o alto número de vacas que não expressaram atividade de estro, deixando evidente a necessidade de mais pesquisas para entender e melhorar essa variável.
Foi detectado efeito (P = 0,001) da intensidade do estro ao final do protocolo na taxa de concepção à IATF. Vacas que não manifestaram estros apresentaram taxa de concepção na IATF de 16,24%, àquelas que manifestaram estros fracos tiveram 26,70% de taxa de concepção, vacas com estros moderados apresentaram 35,38% de taxa de concepção, e fêmeas bovinas que apresentaram estros fortes obtiveram 40,35% de taxa de concepção na IATF (Tabela 1).
Tabela 1 - Taxa de concepção à IATF de acordo com a categoria do estro monitorado pelo SAMA.
Um estudo realizado por Madureira et al. (2019) também apresentou como resultado um aumento da taxa de concepção de acordo com o aumento relativo na atividade física da vaca. Vacas com atividade física forte apresentaram taxas de concepção mais altas em comparação àquelas que apresentaram atividade física moderada, enquanto as vacas que não manifestaram estro apresentaram as menores taxas de conceção (35,1% vs. 27,3% vs 6,2%). Tippenhauer et al. (2023) encontraram resultados semelhantes em dois experimentos realizados envolvendo vacas sob protocolo de IATF e sistemas automáticos de monitoramento de atividade.
Ainda no estudo de Madureira et al. (2019), foram analisadas variáveis que explicam a relação entre intensidade do estro e taxa de concepção na IATF. Vacas com forte e moderado aumento na atividade física apresentam maiores taxas de ovulação (94,9% vs 88,2%) comparadas àquelas que não manifestaram estros (49,5%), além de vacas que apresentavam corpo lúteo no início do protocolo de IATF tenderam a apresentar maior atividade física na IA e maior concentração de P4 após 7 dias da IA.
No estudo realizado por Burnett et al. (2018), foi demonstrado que vacas com curto intervalo do alerta à ovulação manifestaram estros menos intensos comparados com àquelas que apresentaram intervalo médio e longo do alerta de atividade à ovulação. A partir dessa análise, os autores constataram que vacas com estros de maior pico de atividade e duração apresentaram menor falhas de ovulação. Os autores também concluíram que vacas com maior intensidade de manifestação do estro apresentam maior prenhez por IA.
Conclui-se que a maior intensidade de manifestação do estro aumenta a taxa de concepção de vacas leiteiras mestiças.
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