Especial Nordeste: ela provou que 30 hectares eram suficientes para produzir mais leite

Convencer o pai não foi simples. Cada sugestão encontrava resistência. Em vez de desistir, Sinara transformou essa barreira em motivação.

Publicado em: - 6 minutos de leitura

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Esta reportagem dá sequência ao Especial Nordeste do MilkPoint, uma série que percorre propriedades leiteiras da região para mostrar como produtores e produtoras vêm transformando desafios históricos em oportunidades de crescimento. Em cada edição, conhecemos fazendas, famílias e histórias que ajudam a construir o presente e o futuro da pecuária leiteira nordestina, revelando a força de um setor que se moderniza sem perder suas raízes.

Há histórias que começam muito antes de quem hoje está à frente da propriedade. No Sítio Nova Esperança, em Medeiros Neto (BA), a produção de leite atravessa gerações desde 1964, quando o avô de Sinara Silva Romeiro iniciou a atividade. Naquela época, o leite era apenas uma forma de ajudar a manter os custos da fazenda. Não havia preocupação em especializar a produção ou buscar ganhos de eficiência.

Anos depois, o pai de Sinara seguiu o mesmo caminho. Continuou produzindo leite, mas sem grandes investimentos ou mudanças no sistema. Quando a propriedade foi dividida entre os herdeiros após a morte do avô, ele assumiu sua parte — cerca de 30 hectares — convencido de que uma área daquele tamanho jamais permitiria construir uma atividade leiteira realmente rentável.

Figura 1
Fonte da imagem: Sinara Silva Romeiro

Foi justamente essa certeza que a filha decidiu desafiar…

No final de 2018, após concluir o mestrado, Sinara voltou para o sítio enquanto estudava para ingressar no doutorado. Aos poucos, começou a acompanhar o trabalho do pai no curral e passou a observar um rebanho de baixa produtividade. A curiosidade científica falou mais alto. "Comecei a pesquisar sobre produção de leite para tentar ajudar meu pai a aumentar o volume produzido. Mas ele era um pouquinho cabeça dura", conta, entre risos.

Figura 2
Fonte da imagem: Sinara Silva Romeiro

Convencer o pai não foi simples. Cada sugestão encontrava resistência. Em vez de desistir, Sinara transformou essa barreira em motivação.

Ela estudava casos de sucesso, buscava informações técnicas e conhecia histórias de pequenos produtores de leite que conseguiam produzir bem em áreas reduzidas. Quanto mais aprendia, mais argumentos reunia para mostrar que era possível fazer diferente. A grande virada veio em 2020, quando a família conheceu o trabalho do Senar. "Meu mundo mudou completamente. Meu pai aceitou receber assistência técnica e ali começou nossa jornada de transformação."

A decisão seguinte foi estratégica. Em vez de investir na compra de vacas, a família optou por construir seu próprio rebanho. Passaram a participar de um programa de transferência de embriões do Sebrae, e as primeiras bezerras nasceram em 2021.

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Com os primeiros resultados aparecendo, o pai passou a confiar cada vez mais na participação da filha na gestão da propriedade. "Quando ele viu que eu estava ali para melhorar a fazenda e que às cinco horas da manhã eu já estava junto com ele no curral, percebeu que eu não estava só de passagem."

A partir daí, o Sítio Nova Esperança entrou em uma nova fase. Foi preciso praticamente reestruturar a propriedade: melhorar o curral, implantar pastagens, formar áreas de capineira para reserva de alimento, selecionar animais, investir em reprodução e buscar conhecimento técnico continuamente. "Meu Deus, como é complexo o negócio leite. Mas a cada aprendizado novo eu me apaixonava ainda mais."

Hoje, o rebanho é formado por animais Girolando e a propriedade alcança uma média de 12 litros por vaca por dia — um salto expressivo quando comparado ao início da transformação. "Saímos de uma média de apenas 2 a 3 litros por vaca por dia para 12 litros. Sei que ainda é pouco quando comparado a muitas propriedades do país, mas, para mim, é uma vitória. É a prova de que dá certo."

Figura 3
Fonte da imagem: Sinara Silva Romeiro

Produção planejada para enfrentar o clima

A evolução da fazenda também passa pelo planejamento alimentar, fator considerado decisivo para produzir leite em uma região marcada pela forte sazonalidade das chuvas.

Durante o período chuvoso, entre outubro e março, as vacas permanecem em piquetes de braquiária e mombaça, estratégia que ajuda a reduzir custos de alimentação. Já na estação seca, de abril a setembro, o sistema passa para o semiconfinamento. Cerca de 90% do volumoso destinado às vacas em lactação é composto por silagem de milho, enquanto as vacas secas e os animais em recria recebem silagem de BRR Capiaçu.

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Nos últimos anos, porém, as estiagens têm se tornado mais severas. Por isso, a principal estratégia da família é ampliar os estoques de silagem para garantir alimento durante todo o ano. O próximo passo será fechar o rebanho em lactação e implantar um projeto de irrigação, permitindo produzir silagem de milho continuamente e reduzir ainda mais os riscos climáticos.

Produzir leite com qualidade ainda não gera reconhecimento

Todo o leite produzido na propriedade é comercializado com um laticínio da região. Apesar disso, Sinara acredita que ainda faltam incentivos para estimular a melhoria contínua da qualidade do leite. "O que mais me entristece é que não existe nenhum programa de bonificação pela qualidade. Nossa região é uma das maiores produtoras de leite da Bahia, mas a falta de incentivos acaba afastando muitos produtores da atividade."

Segundo ela, os laticínios incentivam programas de melhoramento genético, como a transferência de embriões, mas ainda não remuneram atributos ligados à qualidade do leite produzido. Outro desafio está na baixa concorrência entre compradores. "A região possui poucos laticínios, e isso limita muito o produtor."

Figura 4
Fonte da imagem: Sinara Silva Romeiro

Custos elevados e falta de mão de obra desafiam o crescimento

Além da comercialização, outros fatores preocupam quem produz leite no extremo sul baiano. Os custos com alimentação seguem elevados, principalmente porque a região está distante dos grandes polos produtores de milho e soja, o que encarece os insumos.

A mão de obra também representa um desafio. Atualmente, toda a rotina da propriedade é conduzida apenas por Sinara e seu pai. "Estamos conseguindo dar conta, mas é uma preocupação importante quando pensamos no futuro da atividade." O clima é outro ponto central no planejamento da fazenda. "Produzir de forma sustentável não é mais um diferencial. É uma urgência."

O futuro passa por conhecimento e paixão pela atividade

Mesmo diante dos desafios, Sinara enxerga um cenário positivo para a pecuária leiteira nordestina. Para ela, o crescimento registrado pela região nos últimos anos mostra que ainda existe muito espaço para evolução. Os planos incluem aumentar os estoques de volumosos, aperfeiçoar a dieta dos animais, melhorar os índices reprodutivos, elevar a produtividade por vaca e seguir investindo em assistência técnica. "O primeiro degrau da escada já foi construído. Agora queremos continuar subindo, um passo de cada vez."

Ao final da conversa, ela resume em poucas palavras o sentimento que move toda essa trajetória. "Eu sou apaixonada pelo leite. Vejo o leite como um alimento rico e democrático, porque na produção de leite existe espaço para propriedades de todos os tamanhos. E sou muito grata ao meu pai pela oportunidade de trabalhar ao lado dele, pelos ensinamentos e pela paciência."

Conhece uma fazenda que pode estar no Especial Nordeste?

O Nordeste é feito de milhares de histórias de dedicação, inovação, superação e amor pela atividade leiteira. O Especial Nordeste do MilkPoint quer dar voz a esses produtores e mostrar a força de uma região que segue transformando desafios em oportunidades.

Se você conhece uma fazenda, uma família ou um produtor que tenha uma trajetória inspiradora para compartilhar, envie sua indicação para nossa equipe por meio do e-mail contato@milkpoint.com.br

Queremos percorrer o Nordeste através das histórias de quem faz o leite acontecer todos os dias. As próximas histórias podem começar com a sua indicação.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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