Leite de descarte: prevenir a geração e reduzir os riscos da resistência antimicrobiana

Essa prática levanta questões, pois o leite de descarte possui composição nutricional variável, elevada carga bacteriana e pode conter resíduos de antibióticos.

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O leite de descarte é o produzido por vacas com problemas de saúde, como mastite ou uso de antibióticos, e não é adequado para consumo humano. Embora seja utilizado na alimentação de bezerras para reduzir custos, apresenta riscos sanitários, como a presença de bactérias resistentes a antibióticos. Um estudo mostrou que bezerras alimentadas com esse leite tiveram maior resistência bacteriana e menor desenvolvimento digestivo. A pasteurização reduz microrganismos, mas não elimina resíduos de antibióticos. Estratégias para minimizar o descarte e manejar o leite de forma segura são essenciais para a saúde animal e pública.
O leite de descarte consiste no leite produzido pela vaca que, por questões sanitárias, não é próprio para o consumo humano. Esse leite não comercializável carrega micro-organismos e resíduos em sua composição, uma vez que diz respeito ao leite de animais com mastite, de animais sob uso de antibióticos, leite de transição e também ao excesso de colostro que não será usado.

Apesar disso, ele é, muitas vezes, aproveitado na alimentação das bezerras para reduzir custos, o que pode trazer grandes riscos sanitários e trazer ainda mais prejuízo. O uso de leite de descarte na alimentação de bezerros é uma prática difundida globalmente. Sua atratividade decorre da redução de custos na fase de criação e da necessidade de destinar o que sobra. Contudo, essa prática levanta questões, pois o leite de descarte possui composição nutricional variável, elevada carga bacteriana e pode conter resíduos de antibióticos. Para mitigar riscos sanitários, muitos produtores optam pela pasteurização antes de fornecer o leite aos animais. Embora isso reduza microrganismos maléficos, a pasteurização não corrige as deficiências nutricionais nem elimina os resíduos de antibióticos.

Um estudo de Hilton de Carmo Diniz Neto, pesquisador e médico veterinário da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comparou bezerros alimentados com:

  • leite de tanque comercial;
  • leite de descarte não tratado e;
  • leite de descarte pasteurizado.

A pesquisa avaliou o desenvolvimento do sistema digestório e a presença de bactérias resistentes a antibióticos.

Os resultados indicaram que os bezerros que receberam leite de descarte, pasteurizado ou não, apresentaram maior frequência de Escherichia coli resistentes a múltiplos antibióticos, o que implica em menores chances de sucesso no tratamento de infecções associadas a essa bactéria. Além disso, observaram-se diferenças no desenvolvimento do rúmen e na capacidade de digerir nutrientes em comparação aos animais alimentados com leite de tanque.

Esses achados sugerem que, embora o leite de descarte possa reduzir custos, seu uso pode trazer consequências sanitárias que devem ser consideradas, especialmente quando há presença de resíduos antimicrobianos. O que ocorre com esses resíduos no organismo?

Quando o leite de descarte é administrado às bezerras, os resíduos antimicrobianos presentes são ingeridos e interagem com o trato gastrointestinal. Mesmo em concentrações inferiores às terapêuticas, a exposição repetida a essas substâncias pode ser um fator de risco, principalmente por exercer pressão de seleção sobre as bactérias intestinais.  A pressão de seleção ocorre quando as bactérias mais sensíveis são eliminadas, permitindo que aquelas capazes de resistir ao antimicrobiano prevaleçam e se multipliquem. Assim, a exposição contínua pode favorecer a seleção e a persistência de bactérias resistentes. Isso não implica que toda bezerra alimentada com leite de descarte desenvolverá resistência bacteriana.

O desfecho varia em função do antimicrobiano presente, sua concentração, o tempo de exposição e fatores intrínsecos ao animal e ao ambiente. Ainda assim, a possibilidade de selecionar bactérias resistentes é um ponto de atenção quando esse leite é empregado de forma recorrente na alimentação das bezerras.

E a microbiota intestinal?

O intestino das bezerras hospeda uma comunidade microbiana que desempenha funções cruciais no desenvolvimento e funcionamento do organismo. Nas primeiras semanas de vida, essa comunidade ainda está em formação e é suscetível à influência da dieta. Nesse período, a presença de resíduos antimicrobianos pode alterar a composição e algumas funções da microbiota.

Essas alterações merecem atenção porque a microbiota intestinal participa de funções importantes para o desenvolvimento e o equilíbrio do organismo, especialmente no que diz respeito a animais que ainda estão compondo a microbiota de seu sistema digestório.

Saúde Única

A reflexão acerca do uso de leite de descarte contendo resíduos antimicrobianos deve ir além de suas consequências diretas para o rebanho, sendo imprescindível também analisar essa questão sob a perspectiva da Saúde Única. Bactérias resistentes podem se espalhar na propriedade, transportadas pelas fezes dos animais e pelo ambiente.

A questão, portanto, vai além: ela impacta o ambiente e, de forma indireta, a saúde humana. Essa interconexão entre animais, pessoas e ambiente define o conceito de Saúde Única. Embora uma bactéria resistente em um bezerro não seja obrigatoriamente transmitida a humanos, a contenção da sua disseminação e persistência na propriedade é crucial. Da mesma forma, a pasteurização pode reduzir a carga de microrganismos potencialmente maléficos no leite, mas não elimina os riscos associados aos resíduos de antimicrobianos.

Conclusão

Diante disso, uma estratégia mais eficaz do que simplesmente otimizar o uso do leite de descarte é reduzir a quantidade de leite que se torna descarte.

Como a mastite é uma das principais causas de descarte de leite em propriedades leiteiras, medidas de prevenção e controle (como higiene adequada da ordenha, rotina de pré e pós-dipping, manutenção de equipamentos, monitoramento da saúde do úbere e identificação precoce de casos) atuam diretamente na origem do problema. Além disso, a decisão pelo tratamento antimicrobiano deve considerar a gravidade do quadro, o histórico do animal e, quando pertinente, os resultados de cultura microbiológica.

Estratégias de tratamento seletivo podem reduzir o uso de antimicrobianos sem comprometer os resultados clínicos, diminuindo também o volume de leite submetido ao período de carência. Em outras palavras, uma das estratégias mais eficientes para lidar com o leite de descarte reside na redução de sua produção. Porém, quando o descarte for inevitável, o próximo passo é garantir que esse leite seja manejado de forma mais segura possível.

Se o leite for utilizado na alimentação das bezerras, é importante separá-lo de acordo com o motivo do descarte, principalmente o que vem de animais em tratamento com antimicrobianos, evitando que todo o leite seja tratado da mesma forma. A pasteurização antes do fornecimento também pode ser utilizada para reduzir a carga de microrganismos potencialmente maléficos, mas não elimina resíduos de antimicrobianos e, portanto, não substitui o controle dos tratamentos nem o respeito aos períodos de carência.

Dessa forma, quando o leite de descarte precisar ser utilizado, identificar sua origem, realizar a separação adequada e adotar uma rotina segura de tratamento, armazenamento e fornecimento são medidas importantes para reduzir os riscos na propriedade.

Agradecimentos: agradecemos à Universidade Federal de Lavras (UFLA) pelo suporte acadêmico, à residente Beatriz Egito e ao Núcleo de Estudos em Clínica e Cirurgia de Grandes Animais (NECCIGA) pelo apoio e incentivo à realização deste trabalho. Agradecemos também ao MilkPoint pela oportunidade de divulgação deste estudo, possibilitando a troca de conhecimentos e contribuindo para o acesso a informações relevantes para a saúde e o desenvolvimento da pecuária leiteira.

Referências bibliográficas:

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Material escrito por:

Beatriz Monte Egito

Beatriz Monte Egito

Médica-veterinária residente em clínica médica de grandes animais da Universidade Federal de Lavras.

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Gabriel Henrique Silva Santiago

Gabriel Henrique Silva Santiago

Aluno de graduação do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Lavras.

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Maria Eduarda de Assis Oliveira

Maria Eduarda de Assis Oliveira

Aluna de graduação do curso de medicina veterinária da Universidade Federal de Lavras.

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Phelipe de Oliveira Silvano de Paula Santos

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