Antes de se tornar médico-veterinário, Marcelino Mattiello já conhecia de perto a realidade do campo. Filho de uma família ligada ao setor agropecuário, cursou técnico em agropecuária e, posteriormente, passou a trabalhar como professor em uma escola agrícola, enquanto cursava medicina veterinária. A formação, que combinou prática, ensino e vivência no meio rural, ajudou a construir a maneira como enxerga sua profissão até hoje.
Formado em 2007, Marcelino começou a atuar diretamente no campo e, no ano seguinte, criou a Clinilact Produtos Veterinários e Assessoria Veterinária, empresa que posteriormente passou a atuar também com produção de embriões in vitro e ganhou o nome de Clinilact Embryo.
Desde 2010, quando entrou na área de produção in vitro em parceria com um colega, sua trajetória passou a estar cada vez mais ligada à reprodução e à biotecnologia. Atualmente, sua atuação se divide entre essas duas frentes, com trabalho voltado tanto para a produção de leite quanto para a pecuária de corte no Sul do Brasil. Mais do que uma especialização, porém, Marcelino vê a evolução profissional como parte indissociável da própria evolução das propriedades que acompanha.
Evoluir para fazer o produtor evoluir
Ao longo dos anos, a incorporação de novas tecnologias transformou a rotina das fazendas e também ampliou o campo de atuação dos profissionais que prestam assistência. Para Marcelino, acompanhar esse movimento não é uma escolha, mas uma necessidade.
A entrada na área de biotecnologia da reprodução foi um dos momentos marcantes de sua trajetória justamente por representar essa busca constante por conhecimento e inovação. A produção de embriões in vitro trouxe novos desafios técnicos e exigiu uma atualização permanente, especialmente diante das particularidades dos sistemas de produção da região Sul.
Essa evolução do profissional, segundo ele, acaba chegando também ao produtor. “Um profissional precisa se encaixar na região em que está, precisa estar totalmente atualizado, mas inserido em todas as áreas.”
A especialização, portanto, não deve significar uma visão limitada da propriedade. Mesmo atuando fortemente com reprodução, Marcelino defende que o técnico precisa compreender o sistema como um todo. Nutrição, manejo, produção, gestão e os demais fatores que interferem nos resultados da fazenda fazem parte da realidade que precisa ser conhecida.
A lógica também vale para o relacionamento com o produtor. Para Marcelino, não existe um modelo único de atendimento: cada cliente possui uma história, uma estrutura, objetivos e desafios próprios. “Cada cliente é único e não uma cópia de outro.”
É nesse ponto que entra uma característica que ele considera fundamental para quem trabalha no campo: a empatia. Saber se posicionar como profissional, sem deixar de compreender o ser humano que está do outro lado, faz parte da construção de relações que permanecem ao longo do tempo. Para isso, o técnico precisa mergulhar na realidade da propriedade, conhecer sua rotina e entender antes de propor.
O profissional precisa ir além da própria especialidade
A experiência de Marcelino também mostra como a atuação técnica pode se ampliar conforme a carreira amadurece. O trabalho com reprodução e produção de embriões in vitro abriu espaço para novos conhecimentos, mas também reforçou a importância de enxergar a atividade de forma integrada. Para ele, permanecer por muitos anos em uma região exige mais do que domínio de uma determinada área.
É preciso acompanhar o produtor em suas diferentes necessidades e compreender como as decisões tomadas em um setor podem repercutir nos demais. Essa postura também contribuiu para aproximar seu trabalho de uma nova geração de produtores. Marcelino destaca a chegada de jovens que fizeram cursos técnicos, cursaram medicina veterinária e retornaram para as propriedades da família como uma das mudanças mais importantes observadas nas últimas décadas.
Na sua avaliação, a evolução de profissionais que permaneceram no campo acabou servindo também como referência para esses jovens.
As propriedades mudaram, os sistemas produtivos se profissionalizaram e uma geração passou a encontrar no próprio setor exemplos de que era possível construir uma trajetória ligada à produção de leite. “Quando começamos, em 2008, até a data atual, a evolução foi muito grande.”
Para Marcelino, esse movimento tem relação direta com a capacidade de a atividade se renovar. E a continuidade da produção de leite passa justamente pela disposição das novas gerações em aprender, assumir responsabilidades e encontrar caminhos para permanecer na atividade.
Quando o desafio deixa de estar apenas dentro da fazenda
Nem todos os obstáculos, porém, podem ser resolvidos com uma boa decisão de manejo ou com uma nova tecnologia. Na visão de Marcelino, uma das maiores dificuldades enfrentadas atualmente pelo produtor está relacionada à própria sustentabilidade econômica da atividade. Oscilações no preço do leite e questões relacionadas à importação já fizeram com que propriedades abandonassem a produção.
Foi diante desse cenário que ele passou a participar mais diretamente das discussões relacionadas à organização da cadeia. Marcelino integra a União Catarinense de Produtores de Leite, na qual atua como diretor técnico, buscando contribuir para uma maior articulação entre os diferentes elos do setor.
A proposta, segundo ele, não é criar um conflito entre produtores e indústria, mas aproximar os integrantes da cadeia e buscar maior equilíbrio nas relações entre produção, indústria, distribuição e mercado.
Para Marcelino, políticas públicas também precisam contribuir para garantir condições para quem deseja continuar produzindo e tem capacidade para fazê-lo. Entre as preocupações está o impacto das importações sobre o mercado nacional, além de medidas como mecanismos antidumping.
A discussão, portanto, ultrapassa a realidade individual de cada propriedade. Para que o produtor possa investir, melhorar seus indicadores e planejar o futuro, é necessário também que exista um ambiente minimamente previsível para a atividade.
Quem não evolui coloca a própria continuidade em risco
Se por um lado Marcelino enxerga uma transformação significativa nas propriedades, por outro, chama atenção para quem ainda resiste às mudanças.
Na sua avaliação, a disposição para evoluir será determinante para a permanência de muitas propriedades leiteiras nos próximos anos. A questão não está em incorporar tecnologia simplesmente por acompanhar uma tendência, mas em buscar conhecimento, profissionalização e novas formas de tornar o negócio mais eficiente.
Os produtores que não estiverem dispostos a acompanhar esse processo, segundo ele, estarão diretamente ligados à própria capacidade de continuidade da atividade nos próximos 10 a 20 anos. Isso não significa abandonar aquilo que já funciona. Pelo contrário: significa entender o que precisa ser preservado e o que precisa mudar.
É justamente nesse processo que o técnico pode exercer um papel importante. Ao conhecer profundamente a propriedade, compreender o perfil do produtor e acompanhar as transformações do setor, o profissional deixa de ser apenas alguém chamado para resolver um problema específico e passa a participar da construção de uma trajetória.
A trajetória de Marcelino mostra que ser técnico não significa apenas dominar uma ferramenta ou uma especialidade. Significa continuar aprendendo, compreender as pessoas, reconhecer as particularidades de cada propriedade e acompanhar as mudanças de uma atividade que também precisa se reinventar para permanecer.
No fim, talvez seja justamente essa combinação entre conhecimento técnico, proximidade com o produtor e compromisso com o futuro da cadeia que permita ao profissional não apenas acompanhar a evolução do leite, mas também ajudar a construí-la.
Vale a pena ler também:
Especial Técnicos: antes da recomendação, vem a escuta
Especial Técnicos: "trabalhe na fazenda como se ela fosse sua", orienta Oriali Dalberto