Dali saiu a Boca da Serra, queijaria instalada no Morro do Cedro, na divisa de Águas Mornas com Rancho Queimado, a cerca de 70 quilômetros de Florianópolis. O negócio tem hoje cinco queijos autorais registrados, coleção de medalhas em concursos estaduais e nacionais e uma prata conquistada na Suíça em 2025. Em novembro de 2026, dois desses queijos vão disputar novamente o World Cheese Awards, agora na Espanha.
Foto: arquivo pessoal
A viagem de 2019 que mudou o plano
A virada não começou com uma decisão de largar a carreira. Começou com uma viagem de estudo. Em 2019, Daiani teve a oportunidade de fazer cursos e participar de vivências sobre produção de queijo artesanal, e o roteiro incluiu visitas a queijarias na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e no interior de São Paulo.
Foi no Caminho dos Queijos Artesanais Paulistas que ela se convenceu. O que a impressionou, segundo o relato dela, foi encontrar pequenas produções desenvolvendo um trabalho genuíno, que valoriza e respeita as características naturais da região onde estão e transfere isso para o produto final, dando a cada queijo uma identidade própria. Ela conta que pensou, ainda na viagem, que queria levar aquele modelo para Santa Catarina.
O interesse já tinha um segundo motor. Daiani afirma que sempre buscou alimentação saudável e sempre valorizou a produção de comida de verdade, minimamente processada e sem uso de aditivos químicos. A formação em farmácia e bioquímica e a atenção à qualidade do que se come acabaram convergindo para o mesmo lugar.
A casa vendida em plena pandemia
A execução do plano aconteceu no pior momento imaginável para começar qualquer negócio. Em 2020, com o país parado pela pandemia de covid-19, o casal vendeu a casa, mudou de cidade e foi morar em um sítio na Serra do Mar. Não foi uma transição gradual com o emprego mantido de reserva. Eles trocaram o patrimônio que tinham por um projeto que ainda não existia, e o fizeram no ano em que a maior parte das pessoas estava adiando decisões financeiras. O destino foi Águas Mornas, município da região da Grande Florianópolis, em área de serra. Seis anos depois, o negócio está estruturado, com produção regular, registro sanitário e presença em concursos internacionais. Mas vale registrar a ordem dos fatos: a venda da casa veio antes de qualquer garantia.
Foto: arquivo pessoal
A divisão de tarefas dentro da queijaria
Ricardo, o marido, não entrou na produção do queijo, mas assumiu funções que sustentam a operação inteira. Engenheiro sanitarista, ele é o responsável pela estação de tratamento de esgoto da propriedade, e o desenho desse sistema é o detalhe mais interessante da estrutura.
A estação reaproveita o soro do leite, subproduto que costuma ser descartado na produção de queijo, para gerar biogás, usado na própria queijaria, e biofertilizante, aplicado na propriedade. O resíduo que seria problema virou energia e adubo dentro do mesmo terreno.
Ele também é quem busca o leite usado na produção, fornecido por um pequeno produtor da região. A divisão funciona assim: Daiani responde pelo queijo, Ricardo pela infraestrutura e pela logística de matéria-prima.
O leite que entra na queijaria
A escolha do fornecedor foi tratada como decisão técnica, não como conveniência. O casal procurou um produtor responsável, atento ao bem-estar animal, às boas práticas de higiene e às questões ambientais. O leite vem de vacas da raça Jersey criadas a pasto, e o processo é rápido por definição. Ele é coletado na hora da ordenha e processado assim que chega à queijaria. Em queijo artesanal, o intervalo entre a ordenha e o processamento é uma das variáveis que mais afetam o resultado final, porque o leite cru começa a mudar de perfil microbiológico rapidamente.
A raça também não é aleatória. O leite de vacas Jersey tem teor mais elevado de gordura e proteína que o das raças mais comuns na produção leiteira brasileira, característica que influencia rendimento e textura na fabricação de queijo.
Foto: arquivo pessoal
Selo Arte e os cinco queijos autorais
Em 2024, a Boca da Serra obteve o Selo Arte para três dos cinco queijos que produz, por meio do Serviço de Inspeção municipal e com apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária. O selo é o que permite a comercialização em todo o território nacional.
Esse é um marco decisivo para qualquer produtor artesanal. Sem registro, o queijo só pode ser vendido dentro do próprio município ou estado, o que limita o negócio a um mercado pequeno. O Selo Arte foi criado justamente para reconhecer produtos de origem animal feitos por métodos tradicionais e abrir o comércio interestadual a eles.
Hoje são cinco queijos autorais registrados, todos com nome próprio e ligação com a região: Floripano, Maciambu, Serramar, Catarina e Parmerino. Os nomes homenageiam a região serrana da Grande Florianópolis, um rio que nasce e deságua dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, e o próprio estado.
O pódio triplo em Blumenau
Em julho de 2026, a queijaria participou do Prêmio Queijo Brasil, realizado em Blumenau, e voltou com três medalhas. O Parmerino ficou com o ouro, o Maciambu levou prata e o Catarina recebeu bronze. O prêmio é apresentado como o maior concurso nacional dedicado a valorizar, desenvolver e premiar queijos e produtos lácteos artesanais brasileiros. Colocar três produtos diferentes no pódio da mesma edição indica consistência de processo, e não acerto isolado em um único queijo.
A avaliação que Daiani faz das premiações é sóbria. Ela diz que participar de eventos assim envolve expectativa e emoção grandes, e que há muita dedicação e comprometimento na produção. E acrescenta o ponto principal: mais do que medalha, o resultado funciona como indicativo de que o caminho escolhido está certo.
A prata na Suíça e a volta ao World Cheese Awards
A conquista internacional veio em 2025, na primeira participação da queijaria no World Cheese Awards. O queijo Serramar recebeu medalha de prata na edição realizada em Bern, na Suíça. O relato dela sobre isso é de surpresa. Daiani conta que não se imaginava disputando um concurso daquele porte tão cedo, competindo com queijos do mundo inteiro, e que o resultado foi inesperado. Um queijo produzido em uma propriedade a 70 quilômetros de Florianópolis ganhou medalha em um evento que reuniu mais de 5,2 mil queijos de 46 países. Agora vem a segunda tentativa. A queijaria pretende enviar dois queijos para a edição de 2026 do concurso, marcada para novembro, na Espanha.
Os cinco queijos da casa
O Floripano é um queijo semiduro, de sabor suave e adocicado, com notas de amêndoa, massa lisa e compacta que pode apresentar pequenas olhaduras, casca natural e maturação mínima de 30 dias. O nome homenageia a região serrana da Grande Florianópolis. Ele acumula bronze e ouro em edições do Prêmio Queijo Brasil e bronze no Concurso de Queijos Artesanais Catarinenses.
O Maciambu é macio, de casca fina e alaranjada coberta por uma camada irregular de mofo branco, com massa cremosa e amanteigada. O nome vem de um rio que nasce e deságua dentro do Parque da Serra do Tabuleiro. É o mais premiado da casa, com bronze, prata e ouro no Prêmio Queijo Brasil e dois ouros no concurso catarinense.
O Serramar tem massa lisa e amanteigada, sabor que lembra creme de leite fresco, com notas de caramelo e um dulçor cítrico, e maturação mínima de 60 dias. Foi ele que levou o super ouro no Mundial do Queijo do Brasil em 2024 e a prata na Suíça em 2025. O Catarina é de coagulação lática, massa untuosa e espalhável, sabor levemente ácido e adocicado, e leva o nome do estado. O Parmerino é de massa cozida prensada, feito com mistura de leite integral de vaca e leite de ovelha, com casca natural rústica e inspiração nos queijos duros italianos.
O que essa história mostra sobre recomeço
A trajetória de Daiani tem um elemento que a diferencia das histórias comuns de troca de carreira. Ela não abandonou a formação técnica, ela a transferiu de área. Bioquímica é exatamente o campo que governa fermentação, maturação e comportamento microbiológico do leite, e o que ela diz sobre a produção reflete isso: acredita que há muita ciência no saber fazer, e que é preciso manter atenção à essência de cada produto para não se perder nessa busca.
O objetivo declarado por ela é desenvolver queijos com identidade própria, que valorizem as características naturais da região, com respeito ao meio ambiente e buscando equilíbrio entre técnica nova e método tradicional. Seis anos depois da venda da casa, essa proposta rendeu registro sanitário, cinco produtos autorais, medalhas em três níveis de concurso e uma segunda ida à Europa.
As informações são do Click Petroleo Gás, adaptadas pela equipe MilkPoint.
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