As vacas vão bem, obrigada. E as pessoas? Parte 1

As vacas iam muito bem obrigada. As pessoas, nem sempre. E foi exatamente por essa constatação, que comecei a mudar o rumo da minha própria carreira.

Publicado em: - 4 minutos de leitura

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O autor compartilha sua experiência em agropecuária, destacando que o ambiente e o comportamento afetam o desempenho dos animais e das pessoas. Observou que, apesar da sofisticação das ferramentas de gestão, a capacidade de lidar com o comportamento humano permanece deficiente. As mudanças nas expectativas e comportamentos dos funcionários exigem uma abordagem que una resultados e compreensão humana. O autor enfatiza que o desenvolvimento de pessoas é crucial para melhorar a performance nas empresas e que os desafios enfrentados são universais.
Passei anos da minha vida medindo vento, cama, escore de limpeza, corredores, comportamento, manejo e era especialista em compost barn (leia meus artigos aqui). E aprendi uma lição que o leite assimilou muito bem nas últimas décadas: o ambiente interfere no comportamento, e o comportamento interfere no desempenho. Todos estamos ok com isso.

Estresse térmico, medo, competição, mudanças de lote, dor e mudanças de rotina têm consequências. Por isso aprendemos a olhar não apenas para a vaca, mas para o sistema ao redor dela.

Ao longo dos anos trabalhando em  empresas e tentando gerar valor para clientes, comecei a desconfiar de que talvez estivéssemos olhando para o animal errado. Não me leve a mal, por favor.

As vacas iam muito bem obrigada. As pessoas, nem sempre. E foi exatamente por essa constatação, que comecei a mudar o rumo da minha própria carreira. Quanto mais eu entrava nas fazendas para discutir processos, resultados e desempenho, mais percebia que uma parcela importante dos problemas que encontrava já não era técnica. Era humana.

Em empresas do agro de forma geral, a constatação foi semelhante.

Havia tecnologia, CRM, softwares, indicadores comerciais, metas e profissionais tecnicamente muito bem capacitados. Mas bastavam algumas horas acompanhando um gerente, rodando com vendedores ou observando uma reunião para perceber algo curioso: sofisticamos extraordinariamente nossas ferramentas de gestão sem necessariamente sofisticarmos, nossa capacidade de gerir pessoas!

Talvez esteja aí uma das próximas grandes fronteiras de produtividade do leite e do agronegócio como um todo. Há frases que escuto frequentemente:

“Hoje ninguém mais quer trabalhar” Ou “antigamente não era assim.” Provavelmente não era mesmo. Mas talvez a pergunta não seja “por que as pessoas de hoje não se comportam como as de vinte anos atrás” e sim: “se tudo mudou, por que as pessoas e seus comportamentos não mudariam?. Mudaram as famílias, o acesso à informação, as aspirações profissionais, a relação com a autoridade e aquilo que as pessoas esperam receber em troca das horas que entregam a uma empresa.

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Isso não significa transformar empresas em espaços terapêuticos ou abandonar cobrança por resultados. Uma organização continua existindo para produzir resultados. O equívoco está em dissociar duas coisas: resultado e compreensão do comportamento humano. Na realidade, estão "pro-fun-da-men-te" conectados.

Quando estudamos comportamento animal, dificilmente observamos uma vaca ou um lote sem levar em conta o ambiente como um todo. Se um animal muda seu padrão de comportamento, procuramos entender o que aconteceu, o manejo e com quem essa vaca está no lote.

Quando um funcionário muda seu comportamento, curiosamente, nossa capacidade investigativa desaparece e jogamos tudo para o alto.

  • “É desmotivado.”
  • “Não tá nem aí.”
  • “Não tem atitude.”
  • “Essa geração é complicada demais.”

Colocamos um adjetivo e pronto, diagnóstico dado.  É confortável para a nossa mente. Porém frequentemente errado.

Grandes fazendas já são organizações complexas. Algumas possuem centenas ou milhares de animais, dezenas de funcionários, gestores especializados, indicadores, gráficos e estruturas operacionais altamente sofisticadas.

Mas crescer operacionalmente não significa necessariamente amadurecer como organização. O dono ainda pode centralizar as decisões. O gerente pode acreditar que liderar significa resolver tudo e ficar correndo o dia inteiro. E o melhor operador pode virar líder simplesmente porque era... o melhor operador.

Nas empresas de insumos acontece o mesmo. Surpreso? O excelente vendedor torna-se gerente comercial e descobre que aquilo que o fez vender muito, pouco o preparou para produzir resultados através de outras pessoas. Agora ele precisa desenvolver quem pensa diferente dele, conduzir conversas difíceis, dar feedback, administrar conflitos, cobrar resultados sem destruir confiança e criar responsabilidade sem produzir dependência. E, frequentemente, ninguém o ensinou a fazer isso. Então ele recorre ao modelo de liderança que conhece. Geralmente, aquele ao qual foi submetido. E é assim que culturas organizacionais atravessam gerações sem nunca terem sido formalmente escolhidas.

Foi observando essas questões que comecei a perceber que minha trajetória profissional estava tomando outro rumo. Ou talvez estivesse apenas ampliando o objeto de estudo. Passei muitos anos olhando para comportamento, ambiente e desempenho dentro das fazendas e equipes que liderava. Continuo fazendo exatamente isso. Me especializando em desenvolvimento de pessoas pude ver mudanças reais em equipes e gestores que passaram a ter mais resultado e mais realização pessoal. Negócios que ganharam mais dinheiro e diminuíram drasticamente a rotatividade. 

Um último ponto antes da sua mente te dizer que esse é um problema da sua região ou do Brasil. Pessoas são pessoas em qualquer lugar do mundo! Ou seja, TODAS elas têm as mesmas questões inerentes de nossa natureza humana: “por que faço o que faço?”, “qual a minha importância nesse mundo?”, “quero ser aceito” entre tantas outras. Não se engane, em todo lugar do mundo empresas e fazendas enfrentam problemas muito similares. Te convido a ter esse mesmo olhar 

Há universo extraordinariamente complexo desse lado da cerca. Desafiador, mas apaixonante!

Forte abraço e até a parte 2!

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Material escrito por:

Hayla Fernandes

Hayla Fernandes

Colunista MilkPoint. Falo sobre como o leite deveria estar no século 21. @leiteforadacaixa e @vacafelizoficial.

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Marius Cornélis Bronkhorst
MARIUS CORNÉLIS BRONKHORST

ARAPOTI - PARANÁ - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 12/08/2026

Hayla bom dia
Que ótimo colocação o artigo acima .
Realmente o fator humano é tão o mais importante que o animal em si.
Não tirando o animal do cenário central .
Investir no ser humano é Muito importante e custa tempo e visão humano do dono do negócio.
Qual a sua dúvida hoje?