Estresse térmico, medo, competição, mudanças de lote, dor e mudanças de rotina têm consequências. Por isso aprendemos a olhar não apenas para a vaca, mas para o sistema ao redor dela.
Ao longo dos anos trabalhando em empresas e tentando gerar valor para clientes, comecei a desconfiar de que talvez estivéssemos olhando para o animal errado. Não me leve a mal, por favor.
As vacas iam muito bem obrigada. As pessoas, nem sempre. E foi exatamente por essa constatação, que comecei a mudar o rumo da minha própria carreira. Quanto mais eu entrava nas fazendas para discutir processos, resultados e desempenho, mais percebia que uma parcela importante dos problemas que encontrava já não era técnica. Era humana.
Em empresas do agro de forma geral, a constatação foi semelhante.
Havia tecnologia, CRM, softwares, indicadores comerciais, metas e profissionais tecnicamente muito bem capacitados. Mas bastavam algumas horas acompanhando um gerente, rodando com vendedores ou observando uma reunião para perceber algo curioso: sofisticamos extraordinariamente nossas ferramentas de gestão sem necessariamente sofisticarmos, nossa capacidade de gerir pessoas!
Talvez esteja aí uma das próximas grandes fronteiras de produtividade do leite e do agronegócio como um todo. Há frases que escuto frequentemente:
“Hoje ninguém mais quer trabalhar” Ou “antigamente não era assim.” Provavelmente não era mesmo. Mas talvez a pergunta não seja “por que as pessoas de hoje não se comportam como as de vinte anos atrás” e sim: “se tudo mudou, por que as pessoas e seus comportamentos não mudariam?”. Mudaram as famílias, o acesso à informação, as aspirações profissionais, a relação com a autoridade e aquilo que as pessoas esperam receber em troca das horas que entregam a uma empresa.
Isso não significa transformar empresas em espaços terapêuticos ou abandonar cobrança por resultados. Uma organização continua existindo para produzir resultados. O equívoco está em dissociar duas coisas: resultado e compreensão do comportamento humano. Na realidade, estão "pro-fun-da-men-te" conectados.
Quando estudamos comportamento animal, dificilmente observamos uma vaca ou um lote sem levar em conta o ambiente como um todo. Se um animal muda seu padrão de comportamento, procuramos entender o que aconteceu, o manejo e com quem essa vaca está no lote.
Quando um funcionário muda seu comportamento, curiosamente, nossa capacidade investigativa desaparece e jogamos tudo para o alto.
- “É desmotivado.”
- “Não tá nem aí.”
- “Não tem atitude.”
- “Essa geração é complicada demais.”
Colocamos um adjetivo e pronto, diagnóstico dado. É confortável para a nossa mente. Porém frequentemente errado.
Grandes fazendas já são organizações complexas. Algumas possuem centenas ou milhares de animais, dezenas de funcionários, gestores especializados, indicadores, gráficos e estruturas operacionais altamente sofisticadas.
Mas crescer operacionalmente não significa necessariamente amadurecer como organização. O dono ainda pode centralizar as decisões. O gerente pode acreditar que liderar significa resolver tudo e ficar correndo o dia inteiro. E o melhor operador pode virar líder simplesmente porque era... o melhor operador.
Nas empresas de insumos acontece o mesmo. Surpreso? O excelente vendedor torna-se gerente comercial e descobre que aquilo que o fez vender muito, pouco o preparou para produzir resultados através de outras pessoas. Agora ele precisa desenvolver quem pensa diferente dele, conduzir conversas difíceis, dar feedback, administrar conflitos, cobrar resultados sem destruir confiança e criar responsabilidade sem produzir dependência. E, frequentemente, ninguém o ensinou a fazer isso. Então ele recorre ao modelo de liderança que conhece. Geralmente, aquele ao qual foi submetido. E é assim que culturas organizacionais atravessam gerações sem nunca terem sido formalmente escolhidas.
Foi observando essas questões que comecei a perceber que minha trajetória profissional estava tomando outro rumo. Ou talvez estivesse apenas ampliando o objeto de estudo. Passei muitos anos olhando para comportamento, ambiente e desempenho dentro das fazendas e equipes que liderava. Continuo fazendo exatamente isso. Me especializando em desenvolvimento de pessoas pude ver mudanças reais em equipes e gestores que passaram a ter mais resultado e mais realização pessoal. Negócios que ganharam mais dinheiro e diminuíram drasticamente a rotatividade.
Um último ponto antes da sua mente te dizer que esse é um problema da sua região ou do Brasil. Pessoas são pessoas em qualquer lugar do mundo! Ou seja, TODAS elas têm as mesmas questões inerentes de nossa natureza humana: “por que faço o que faço?”, “qual a minha importância nesse mundo?”, “quero ser aceito” entre tantas outras. Não se engane, em todo lugar do mundo empresas e fazendas enfrentam problemas muito similares. Te convido a ter esse mesmo olhar
Há universo extraordinariamente complexo desse lado da cerca. Desafiador, mas apaixonante!
Forte abraço e até a parte 2!
