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Terapia antimicrobiana da doença respiratória em bezerras e vacas

VÁRIOS AUTORES

VIVIANI GOMES

EM 07/08/2020

8 MIN DE LEITURA

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A Doença Respiratória Bovina (DRB) acomete diferentes categorias dentro das fazendas de leite, no entanto é mais frequente nas bezerras. A escolha da terapia adequada sempre é um desafio, especialmente em animais adultos, já que muitas vezes requer o uso prolongado de antibióticos, que implica no descarte de leite e perdas econômicas ao produtor.

A DRB é multifatorial provocada por fatores de risco relacionados ao meio-ambiente, hospedeiro e patógeno. Os principais fatores de risco ambientais são alta umidade do ar, poeira, variação de temperatura, ventilação inadequada das instalações e grandes concentrações de gases no ambiente. O principal fator de risco associado ao hospedeiro é o estresse e a imunossupresão detectadas principalmente na fase do desmame e período de transição, o que predispõem às infecções primárias do trato respiratório causadas por agentes virais como o Vírus Respiratório Sincicial Bovino (BRSV), Herpesvírus bovino-1 (BoHV-1), Vírus da Parainfluenza Bovina tipo 3 (BPI-3V), Vírus da Diarreia Viral Bovina (BVDV) e Coronavírus respiratório bovino (BCoV).

Em uma segunda etapa, bactérias como Mannheimia haemolytica, Pasteurella multocida e Histophilus somni se aproveitam das lesões virais e da ruptura das barreiras de proteção do trato respiratório e promovem uma infecção secundária, agravando o quadro respiratório e estabelecendo o padrão clínico clássico de broncopneumonia. Em casos crônicos, a infecção pode evoluir para bactérias oportunistas como Trueperella pyogenes, Fusobacterium spp e Bacteriodes spp e Mycoplama bovis.

Na fase viral inicial da DRB, os animais apresentam-se apáticos, febris, com diminuição do consumo, depressão, queda na produção de leite, baixo escore ruminal, mucosas avermelhadas, leve secreção nasal do tipo serosa e lacrimejamento. Já na fase bacteriana, os animais apresentam secreções nasais e oculares mucopurulentas, tosse, febre e dificuldade respiratória.

Na necropsia, as lesões clássicas da broncopneumonia bacteriana se encontram principalmente nos lobos cranioventrais e são caracterizadas por áreas de consolidação pulmonar, a qual pode ser identificada pela palpação mais rígida do órgão. Na figura 1 pode-se observar um pulmão com áreas de consolidação (hepatização pulmonar) nas regiões cranioventrais, devido à infiltração de células inflamatórias no parênquima pulmonar, com edema gelatinoso, detectadas em quadro de broncopneumonia crônica em vacas adultas.

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Figura 1. Pulmões com áreas de lesão pulmonar crônica, demonstrando áreas de hepatização nas porções cranioventrais do pulmão. Ao corte do parênquima pulmonar foi possível observar secreção purulenta e edema gelatinoso. As lesões se estendem ao pericárdio, resultando em pericardite fibrinosa. Fonte: GOMES (2020).

O diagnóstico precoce da DRB, quando ainda as manifestações clínicas são brandas, é de extrema importância, pois permite antecipar o tratamento e diminuir os prejuízos econômicos, impedindo que os animais cheguem nessa fase crônica de lesões pulmonares, onde há grande colonização por bactérias oportunistas, gerando improvável recuperação do animal.

Embora a incidência de broncopneumonia em vacas adultas seja relativamente baixa (3,3%), sua parcela na mortalidade geral no rebanho leiteiro é de 11,3%. Esses índices podem indicar que a resposta à terapia utilizada nas fazendas é reduzida, pois não há reconhecimento precoce da doença clínica e temos alta ocorrência de casos crônicos recidivantes. Além disso, vale lembrar que os custos associados às doenças respiratórias incluem prevenção, tratamentos, queda do desempenho produtivo do animal e mortalidades, e torna-se cada vez mais caro, quando a terapia não é executada com o medicamento indicado, podendo inclusive, contribuir para o desenvolvimento da resistência aos antibióticos.

A indústria farmacêutica disponibiliza diversos protocolos de tratamentos da broncopneumonia, no entanto, a escolha deve ser baseada nos agentes etiológicos — isolados ou suspeitos — levando em conta o histórico da propriedade e a cronicidade do quadro. Assim, o sucesso da terapia depende do uso de drogas apropriadas, da precocidade e do período adequado de tratamento.

Em um primeiro momento é necessário o estabelecimento de uma terapia inicial e definições de casos de sucesso e fracasso por meio das manifestações clínicas apresentadas pelo animal. A terapia inicial deve ser realizada em animais com febre e depressão. A febre é a primeira alteração que pode indicar broncopneumonia. Ela pode variar conforme o agente envolvido, mas normalmente está na faixa de 39,7°C a 42°C. As primeiras manifestações clínicas podem ser detectadas entre 12 e 136 horas após o início do quadro febril.

O tratamento inicial com antibióticos deve ser rápido e pode ser realizado antes do resultado do exame microbiológico que evidenciará o agente em questão. Na Figura 2 estão apresentados alguns dos princípios ativos mais utilizados na prática, seu espectro de ação e seu período de carência no leite. Vale lembrar que essas informações podem variar conforme a formulação comercial do medicamento, por isso, é essencial a consulta da bula e do médico veterinário para realizar uma terapia de maneira adequada.

Figura 2. Características dos principais antimicrobianos utilizados no tratamento inicial da broncopneumonia. Fonte: Adaptado de DIVERS (2008).

Em um segundo momento, é importante realizar o isolamento laboratorial dos agentes etiológicos e o teste de sensibilidade aos antimicrobianos (antibiograma). Normalmente as cepas de P. multocida isoladas dos pulmões de bovinos são sensíveis a vários antimicrobianos. Muitos antimicrobianos têm sido utilizados para terapia de broncopneumonias causadas por Pasteurellas, incluindo penicilina, ampicilina, eritromicina, tetraciclina, ceftiofur e sulfas. A tilmicosina e o florfenicol também são eficazes. Já em casos onde temos o envolvimento da M. haemolytica, a resistência antimicrobiana é mais provável.

Para o tratamento de broncopneumonias causadas por H.somni, a ampicilina é a droga de escolha, no período de 3 a 7 dias. As cefalosporinas e a enrofloxacina também possuem uma boa eficácia.

No tratamento das broncopneumonias por Mycoplasma pode-se utilizar oxitetraciclina, eritromicina, tilmicosina, tutatromicina ou florfenicol. Este agente apresenta alto perfil de resistência antimicrobiana nas fazendas, podendo apresentar resultado clínico não esperado. O grupo de antimicrobianos das fluorquinolonas, como danofloxacina e enrofloxacina, possuem maior eficácia contra Mycoplasmas.

Para Trueperella pyogenes, a penicilina é a droga de escolha, em um período de 7 a 30 dias. O tratamento pode ser frustrante e o prognóstico é desfavorável. De acordo com SCOTT (2013), casos crônicos de pneumonia supurativa podem ser tratados com sucesso (cura em 67%) com o uso de penicilina procaínica, durante o período de 42 dias, evidenciando que a terapia de quadros crônicos complicados necessita ser longa.

O estudo de Apley (2006), com bezerros de corte, descreve o período mínimo e máximo para realizar retratamento, após a última aplicação da terapia com antimicrobiano, de acordo com a reavaliação do animal e persistência das manifestações clínicas (Figura 3). A definição de casos de sucesso ou fracasso na terapia das broncopneumonias em bezerras pode ser determinada pelo ganho de peso diário, já que os animais que ganham 0 a 5% de peso ao dia têm 2,7 vezes menos chances de serem selecionados para novo tratamento, evidenciando a importância do fornecimento de dieta adequada para os animais doentes. Além disso, sabe-se que comorbidades como diarreias, tristeza parasitária bovina, que são comuns em bezerros em aleitamento ou já desmamados, prejudicam a ingestão de alimento.

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Figura 3. Tempos sugeridos em dias após a última ou única injeção para considerar um retratamento para broncopneumonia. Fonte: Adaptado de APLEY, 2006.

Estudos da eficácia dos antimicrobianos em vacas adultas ainda são escassos. Já em bezerras, existe a disponibilidade de maiores informações na literatura. Entre eles, os estudos de meta-análise são úteis para avaliação da eficácia do tratamento para DRB, pois a meta-análise, é uma técnica estatística que combina resultados de vários estudos independentes sobre uma mesma questão de pesquisa, permitindo a interpretação de dados diferentes sobre um mesmo aspecto.

Em estudo de meta-análise mista elaborado por O’Connor et al. (2013) fez a comparação entre diferentes tratamentos antimicrobianos para doença respiratória com o objetivo de facilitar a escolha do melhor tratamento disponível no mercado. Nesse estudo, foram considerados trabalhos envolvendo bezerros com menos de nove meses de idade ou menos de 200 kg com doença respiratória bovina indiferenciada. A figura 4 apresenta os resultados obtidos para o risco do retratamento de algumas drogas utilizadas para terapia da DRB.

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Figura 4. Risco de retratamento com antimicrobianos para DRB. Fonte: Adaptado de O’Connor et al. (2013)

Outro estudo de meta-análise realizado por Wellman & O’Connor (2007) em bezerros de corte, pesando menos que 400 kg, compara a eficácia de tratamentos para DRB com Tulatromicina (2,5 mg/kg SC em dose única) e Tilmicosina (10 mg/kg SC em dose única), com base no risco de retratamento com o antimicrobiano. Os autores obtiveram o resultado da redução de aproximadamente 50% no risco de retratamento com Tulatromicina para BRD em comparação com o tratamento com Tilmicosina.

A Tulatromicina é um macrolídeo que possui concentração máxima no plasma de 0,5μg/ml, em 30 minutos depois da sua administração. Sua concentração pulmonar é consideravelmente superior às existentes no plasma, mas ainda não é conhecida em estudos in vivo. Existem evidências que essa droga pode acumular-se em neutrófilos e macrófagos alveolares. A bula do medicamento contraindica a administração em vacas gestantes cujo leite é destinado ao consumo humano nos 2 meses anteriores à data prevista para o parto e durante a lactação.

A seleção do antimicrobiano deve ser baseada na sua eficácia contra determinados agentes envolvidos na DRB, por isso, muitas vezes, é necessário priorizar o uso de uma droga eficaz para terapia de vacas adultas, ainda que apresente resíduos no leite, visto que, tratamentos ineficazes permitem uma recidiva muito alta da doença, inclusive mortalidades, e acabam desfavorecendo o custo benefício de não realizar o descartar o leite.

Vale ressaltar que a transmissão da DRB se dá por via aerógena, e por isso, é de difícil controle. Uma vez instalada no rebanho, sua transmissão é contínua e crescente, podendo acarretar em problemas sanitários irreversíveis, não só respiratórios, mas em diversas outras condições clínicas preocupantes. Um exemplo é a disseminação do Mycoplasma bovis no rebanho, o qual está envolvido na etiologia de diversas doenças, entre elas mastite, artrite, pneumonia, otite média e distúrbios reprodutivos. A mastite causada por Mycoplasma bovis é uma doença severa, altamente contagiosa e que normalmente, afeta mais de um quarto mamário, provocando perda significativa na produção de leite. Essas situações implicam no descarte de muitos animais para controle da enfermidade.

Portanto, como muitos casos de DRB em vacas adultas são crônicos e recidivas dos casos agudos, assim é necessário que os produtores priorizem o diagnóstico precoce da doença e tratamentos eficazes, mesmo que abdiquem do aproveitamento do leite durante a terapia.

As vacinas comerciais para DRB geralmente diminuem a probabilidade de infecção ou reduzem a gravidade da doença. Além disso, é importante investir em medidas de prevenção como quarentena para a introdução de novos animais no rebanho, evitar o estresse de vacas, principalmente no período de transição, prevenindo as doenças metabólicas e o balanço energético negativo pós-parto, adotar medidas de biosseguridade, assim como, garantir o conforto e bem estar dos animais.

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NATÁLIA HETTWER PEDROSO

VIVIANI GOMES

Professora Clínica Médica de Ruminantes da FMVZ-USP. Coordenadora GeCria - Grupo Especializado em Medicina da Produção aplicada ao período de transição e criação de bezerras. Tel: (11) 3091-1331

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