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Como reduzir a dieta líquida para desaleitar bezerros mamando altos volumes?

POR CARLA MARIS MACHADO BITTAR

E GERCINO FERREIRA VIRGINIO JUNIOR

CARLA BITTAR

EM 31/07/2020

11 MIN DE LEITURA

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Muitos produtores de leite enxergam a fase de cria de bezerras leiteiras como uma fase de altos custos e não de investimentos. Por isso, tradicionalmente tentam reduzir esses custos, restringindo o fornecimento de leite para estimular a ingestão de concentrado e reduzir o período de aleitamento e o volume total fornecido. No entanto, nos últimos anos a pesquisa mostrou de forma clara que aumentar as taxas de ganho de animais em aleitamento tem influência positiva no potencial de produção de leite no futuro. A maneira mais fácil de se aumentar estes ganhos é sem dúvida aumentar o fornecimento de dieta líquida.

Assim, temos visto nos últimos anos o aumento nos volumes de dieta líquida fornecidos aos bezerros. No entanto, a maior oferta de leite atrasa o consumo de concentrado inicial, o que dificulta muito o desaleitamento e a manutenção das taxas de ganho observadas. As estratégias atuais de desaleitamento compreendem o desaleitamento abrupto ou gradual, em uma redução linear ou gradual do volume de leite, com 5 a 12 semanas de idade ou com base no consumo de concentrado inicial. Outras abordagens de desaleitamento incluem a redução do número de porções diárias de leite fornecidas aos bezerros ou a diluição do leite com água.

O fornecimento de leite deve ser gradualmente reduzido antes do desaleitamento para garantir que quantidades suficientes de alimento sólido sejam consumidas pelos bezerros. Dessa forma, é possível manter o consumo de energia e proteína e, portanto, o crescimento após o desaleitamento. Diferentes estratégias de manejo e de alimentação são propostas para estimular a ingestão de alimentos sólidos e, consequentemente, o crescimento em torno do desaleitamento em bezerros alimentados com diferentes volumes de leite. No entanto, existe pouca informação sobre desaleitamento de bezerros alimentados com leite à vontade.

Métodos de desaleitamento que promovem a ingestão de alimentos sólidos são difíceis de implementar na fazenda, especialmente quando há um grande número de bezerros individualizados e alimentados manualmente. A variação diária no volume a ser fornecido exige grande habilidade de manejo para marcação e colocação de sinais nas instalações de forma que não ocorram erros. No entanto, os alimentadores automáticos permitem métodos de desaleitamento em bezerros com estratégias de retirada de leite que imitam o processo natural de desaleitamento, ou seja, redução gradual ao longo de vários dias. Os aleitadores permitem também que dados individuais de consumo de dieta líquida sejam utilizados nas estratégias.

Pensando nisso, Welboren e seu colaboradores (2020), avaliaram o efeito de diferentes métodos de desaleitamento graduais na ingestão de alimentos sólidos e crescimento em bezerros leiteiros. A hipótese dos autores era que os bezerros alimentados à vontade teriam um desempenho melhor durante o período de aleitamento e durante o período seguinte quando fossem desaleitados usando um método step-down em comparação com um método linear. Além disso, um programa de desaleitamento baseado na ingestão individual de leite levaria a uma transição mais suave para a ingestão de alimentos sólidos durante o desaleitamento, em comparação com um programa de desaleitamento fixo.

Para o desenvolvimento do estudo, trinta e seis bezerros holandeses (n = 30) ou mestiços (n = 6) foram adquiridos em fazendas leiteiras locais com 1 a 3 dias de vida. Todos os bezerros incluídos no experimento tinham adequada transferência de imunidade passiva.

Na fazenda de origem, os bezerros receberam pelo menos 3,0 L de colostro dentro de 2 h após o nascimento e 4,0 L de duas a 24 h após o nascimento. Até os bezerros serem transportados das fazendas, eles recebiam 3,0 L de sucedâneo (SCD) (150 g/L; Tabela 1) duas vezes ao dia. Após a chegada às instalações de pesquisa, os bezerros foram alojados em baias individuais (1,22 × 2,13 m) com cama de palha até ± 14 dias de idade.

Sucedâneo semi-acidificado (0,2% de ácido cítrico; pH 6,2) foi preparado duas vezes ao dia e oferecido à vontade usando baldes com bico. O SCD foi fornecido por volta das 0700 e 1500 h e as recusas foram registradas. Para evitar sedimentação, o SCD foi agitado pelo menos duas vezes entre as refeições usando um batedor. A água foi oferecida ad libitum usando baldes de plástico. Os bezerros foram excluídos do estudo se o consumo de SCD fosse inferior a 4 L / dia por 3 dias consecutivos.

No dia 15 ± 2, os bezerros foram transferidos em grupos de 6 bezerros para piquetes de 5,0 × 5,9 m (29,5 m2) com uma área de descanso com cama de palha (5,0 × 2,8 m) e pisos de ripas na frente dos alimentadores. Os bezerros continuaram recebendo SCD semi-acidificado e concentrado à vontade (Tabela 1), agora via alimentadores automáticos. O tamanho máximo da refeição foi fixado em 2 L com um intervalo de tempo mínimo de 30 min. A palha de trigo (Tabela 1) como fonte de fibra estava disponível à vontade em um alimentador automático. E a água também estava disponível à vontade de um alimentador automático.

Tabela 1 - Composição dos ingredientes e composição dos nutrientes analisados do Sucedâneo (SCD), do concentrado e da palha de trigo fornecidos aos bezerros leiteiros durante o período experimental de 12 semanas

desaleitamento de bezerras leiteiras

No dia 35, os bezerros foram blocados por idade e raça e foram aleatoriamente designados para uma das três estratégias de desaleitamento:

(1) Linear fixo (LIN; n = 12): os bezerros tiveram acesso ad libitum ao SCD até 36 dias de idade, depois o volume do SCD foi reduzido para 6 L/dia na sequência reduzido em 2,5% da ingestão individual diária até alcançar uma ingestão de 2 L / dia.

(2) Step-down fixo (STEP; n = 12): os bezerros tiveram acesso ad libitum à SCD até 36 dias de idade, depois o volume foi reduzido para 6 L/dia nos dias 36 a 48, 4 L/dia nos dias 49 a 56 anos e 2 L/dia nos os dias 57 a 63.

(3) Dinâmica (DYN; n = 12): os bezerros tiveram acesso ad libitum à SCD até 36 dias de idade, depois a ingestão média individual dos dias 29 a 35 foi reduzida para 75% e mantida por 9 dias, reduzida para 50% do volume nos próximos 10 dias e depois reduzida para 25% nos próximos 9 dias.

Os bezerros de todos os tratamentos foram totalmente desaleitados aos 64 dias de idade e o desempenho pós-desaleitamento foi monitorado até os 84 dias de idade.

Os bezerros foram monitorados diariamente em relação à saúde geral, incluindo consumo de alimentos, sintomas de doenças e atividade. Pesos corporais foram registados semanalmente. Altura de cernelha e perímetro torácico foram medidos à chegada e uma vez por semana dos dias 35 a 84.

Como esperado, durante os primeiros 35 dias não houve diferenças entre os bezerros no consumo e crescimento. O consumo de sucedâneo foi semelhante e apresentou média de 10,4 ± 0,2 L/dia até uma semana antes do início do processo de desaleitamento. O volume de sucedâneo no tratamento DYN foi reduzido para 7,3, 4,8 e 2,4 L/dia nos dias 36, 45 e 55, respectivamente. Portanto, os bezerros DYN beberam mais SCD durante o desaleitamento do que os LIN (P <0,006), mas não comparado aos STEP (P> 0,05) (Tabela 2). Não foram observadas diferenças na ingestão de concentrado e de água entre os tratamentos durante as fases de desaleitamento e pós-desaleitamento (P> 0,05; Tabela 2). As médias diárias de ingestão de SCD, concentrado e ingestão total de energia metabolizável (EM) e proteína bruta (PB) são mostradas na Figura 1.

Tabela 2 - Sucedâneo (SCD) e consumo de concentrado em pré-desaleitamento (dias 1 a 35), desaleitamento (dias 36 a 63) e fase pós-desaleitamento (dias 64 a 84) para bezerros leiteiros desaleitados de acordo com programa linear fixo (LIN), step-down fixo (STEP) ou dinâmico (DYN) dos dias 36 a 63.

desaleitamento de bezerras leiteiras

No presente estudo, o consumo médio de 10,4 L/dia durante a semana antes do início do processo de desaleitamento é inferior aos ~ 13,0 L/dia encontrados em um estudo anterior com fornecimento de leite a vontade. O menor consumo medido durante este estudo pode estar relacionado à introdução atrasada do esquema de alimentação ad libitum, pois se constatou que uma ingestão reduzida de leite diminui o consumo de leite durante as semanas subsequentes. A ingestão média de EM do SCD no dia 36 foi 59%, 56% e 70% da ingestão média de EM da SCD consumida por bezerros entre os dias 29 e 35 para LIN, STEP e DYN, respectivamente (Figura 1). A ingestão total de EM recuperou-se para o mesmo nível registrado entre os dias 29 e 35 até o dia 74, enquanto a ingestão de PB se recuperou mais cedo, por volta do dia 63; indicando, assim, que a EM, em vez da PB, pode ser o primeiro fator limitante para o crescimento de bezerros em torno do desaleitamento quando os bezerros fazem a transição de dieta líquida ad libitum para dieta sólida. Este é o primeiro trabalho que mostra que a ingestão de EM, e não a ingestão de PB, limita o crescimento de bezerros durante o desaleitamento.


Figura 1 - Médias diárias de Sucedâneo (SCD), concentrado e energia metabolizável total (ME) e consumo de PB em bezerros leiteiros desaleitados de acordo com uma dinâmica linear fixa (LIN), gradual reduzida (STEP) ou dinâmica gradual (DYN ) programada (n = 12) dos dias 36 a 63.

O peso vivo ao nascer dos bezerros foi de 45,3 ± 2,4 kg e eles cresceram em média até 76,6 ± 2,4 kg no dia 36 do experimento (Tabela 3). No dia 84 de idade, os bezerros DYN estavam mais pesados que os STEP (P = 0,015). O ganho médio diário não diferiu entre os tratamentos durante o desaleitamento (Tabela 3). No entanto, o crescimento pós-desaleitamento dos bezerros foi maior (P = 0,038) nos bezerros DYN em comparação aos STEP, mas não nos LIN. Em geral, as medidas corporais não foram diferentes entre os tratamentos (Tabela 4)

Tabela 3 - Peso corporal, ganho médio diário (GMD) e medidas corporais na fase pré-desaleitamento, desaleitamento e pós-desaleitamento para bezerros leiteiros desaleitados de acordo com uma dinâmica linear fixa (LIN), gradual reduzida (STEP) ou dinâmica gradual (DYN ) programa dos dias 36 a 63.

desaleitamento de bezerras leiteiras

Os resultados desse trabalho sugerem que um método de desaleitamento dinâmico (DYN), que leva em consideração o consumo médio do animal, resultou em melhor desempenho de crescimento de bezerros alimentados com dieta líquida a vontade após o desaleitamento. O estudo mostrou também que o método linear pode trazer mais benefícios que o step-down. O método linear utilizou menos SCD e resultou em melhora da função ruminal, conforme indicado por parâmetros sanguíneos (dados não apresentados aqui), e não diferiu no ganho médio diário pós-desaleitamento em comparação aos bezerros desmamados pelo método DYN.

É importante notar que os métodos atuais de desaleitamento mostraram uma forte redução no consumo de sucedâneo nos bezerros LIN e STEP no dia 36, que muitas vezes refletem em menor consumo de energia e podem levar ao aumento de mobilização de tecido adiposo pelos animais. Os métodos de desaleitamento foram projetados com base nas recomendações comerciais aos produtores de leite. No entanto, medidas de desaleitamento mais abruptas podem reduzir o crescimento em bezerros em torno do desaleitamento, devido ao menor consumo de EM pela redução no consumo de dieta líquida e pelo ainda não suficiente consumo de dieta sólida. Assim, os resultados sugerem que os bezerros alimentados com dieta líquida à vontade podem lidar melhor com pequenas e contínuas mudanças em direção à alimentação sólida do que as mudanças abruptas ou drásticas usadas no desaleitamento.

Neste estudo, demonstrou-se os benefícios de um método de desaleitamento baseado em informações individuais por bezerro registradas por alimentadores automáticos. A diminuição na ingestão de EM durante o processo de desaleitamento e o aumento do desempenho do LIN em comparação aos bezerros STEP sugerem que a transição de uma dieta líquida para uma sólida deve ser o mais gradual possível. Além disso, a recuperação mais precoce da ingestão de PB em comparação à ingestão de EM indica a importância do suprimento de energia em comparação com as proteínas da dieta de desaleitamento e pós-desaleitamento precoce. Esses resultados reforçam a importância de uma transição suave da alimentação líquida para a sólida ao alimentar os bezerros com planos nutricionais elevados e podem levar a estratégias de desaleitamento aprimoradas para melhorar o crescimento, a saúde e o bem-estar pós-desaleitamento.

Comentários

O desaleitamento de bezerros aleitados com altos volumes de dieta líquida é sempre um desafio. Quanto maior o consumo de dieta líquida, menor o consumo de concentrado, o que coloca em risco o desempenho de animais dependendo da estratégia de desaleitamento. Estimular o consumo é sempre o ponto central neste processo, mas nem sempre ocorre à contento, principalmente por que depende de diferentes fatores, além do volume fornecido. O estudo de Welboren e colaboradores, avaliou diferentes estratégias de desaleitamento para animais com consumo médio de mais de 10 L/d e consumo de concentrado bem baixo (30 g ). As estratégias se basearam em reduções lineares fixas, ou seja, um pouquinho por dia; step-down fixa, com reduções maiores em termos de volume, mantidas por alguns dias; e uma estratégica dinâmica, baseada no consumo média individual, com reduções mantidas por alguns dias. A estratégia dinâmica se mostrou mais interessante do ponto de vista de desempenho animal, pois considera o consumo voluntário do animal, que deve estar relacionado às suas exigências. O desaleitamento do tipo step-down, hoje o mais utilizado por produtores, se mostrou inferior ao linear. No entanto, como já descrito, é muito difícil conseguir implementar este processo de desaleitamento quando se tem um grande número de animais alimentados de forma manual. Embora os resultados sejam referentes a bezerros alimentados à vontade e em aleitadores automáticos, uma coisa é certa: quando mais gradual for o processo, melhor para os animais.

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Referências

Welboren, A. C., Leal L. N., Steele, M. A. Khan, M.A., Martín-Tereso, J. Performance of ad libitum fed dairy calves weaned using fixed and individual methods.  Animal, page 1 of 8. 2019. doi:10.1017/S1751731119000181

CARLA MARIS MACHADO BITTAR

Prof. Do Depto. de Zootecnia, ESALQ/USP

GERCINO FERREIRA VIRGINIO JUNIOR

Doutorando na Esalq

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