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Aleitamento de bezerras: natural ou artificial? Mamadeira ou balde?

POR LIBOVIS - UFRRJ

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 29/10/2020

11 MIN DE LEITURA

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Na bovinocultura de leite a criação de bezerras tem grande importância para composição do futuro rebanho da propriedade, requerendo empenho e atenção do produtor, pois essa categoria é facilmente afetada por tipo de instalação, manejo e tempo de permanência dos animais nas instalações (MAGALHÃES et al., 2015). Um dos fatores que mais se destaca é o aleitamento na fase em que as bezerras são pré-ruminantes associado à introdução de uma dieta sólida adequada na fase de transição. Caso o manejo alimentar não seja realizado de forma eficiente, implicará negativamente na vida produtiva do animal, motivo de constantes estudados, pois o aleitamento deve ser realizado de forma satisfatória para o animal e o produtor.

Nesse trabalho, destacam-se duas formas principais de aleitamento artificial: mamadeira e balde. Ambos os métodos possuem vantagens e desvantagens, sendo o melhor aquele que se adapta melhor ao manejo da propriedade, mas sem nunca esquecer o real motivo de aleitar corretamente: a nutrição da bezerra lactente, futura vaca do rebanho.

Breve revisão anatômica e da fisiologia digestiva de bezerros

Comparados aos animais monogástricos, os ruminantes têm uma estrutura e função especializadas, o que resulta em grandes diferenças na digestão e fisiologia. Os bovinos passam por diferentes fases do desenvolvimento do trato gastrointestinal ao longo de seu crescimento e o adequado manejo nutricional em todas as fases é imprescindível para a obtenção de um animal adulto saudável (GERBERT et al., 2018).

O sistema digestivo dos jovens ruminantes começa a se desenvolver durante o período embrionário. As câmaras do estômago são visíveis no 56º dia dos embriões bovinos (WARNER, 1958). Ao nascimento, a proporção de rúmen/retículo, omaso e abomaso é em média 38%, 13% e 49% respectivamente. Com o desenvolvimento da morfologia gastrointestinal o ruminante adulto apresentará proporções de 67%, 18% e 15% (COSTA, 2019). Tais diferenças anatômicas determinam importantes particularidades da fisiologia e nutrição de bezerras.

Até três semanas de vida a bezerra é considerada um pré-ruminante. Nessa fase o leite é a principal fonte de nutrientes, sendo o abomaso e o intestino delgado as principais estruturas responsáveis por sua digestão e absorção. Durante esta fase, a goteira esofágica – estrutura tubular de musculatura lisa de rúmen e retículo formada por estímulos da sucção da bezerra a partir da ativação do nervo sensorial glossofaríngeo e a ação motora do nervo vago – forma um canal que conduz o leite do esôfago diretamente ao abomaso sem passagem pelo rúmen (COSTA, 2019). Sabe-se que além do reflexo da sucção, a dieta líquida, estímulos ambientais já conhecidos pelo animal como sons, odor da mãe ou do tratador também podem contribuir como para a formação da goteira esofágica sugerindo envolvimento de mediação corticocerebral nesse processo (RODRIGUES et al., 2002).

Após a fase de pré-ruminante ocorre a fase de transição, quando o animal tem de três a oito semanas de idade. Nesta etapa do desenvolvimento a introdução de alimentos sólidos (concentrado e principalmente volumoso – forragens de boa qualidade) na dieta proporcionam a formação da microbiota ruminal e a produção de ácidos graxos voláteis (AGVs) que induzem o desenvolvimento dos estratos do epitélio do rúmen, o desenvolvimento e a queratinização das papilas ruminais (IMANI et al., 2017).

O rúmen desempenha um papel fundamental no crescimento, desempenho da produção e saúde dos ruminantes. A promoção do desenvolvimento ruminal sempre foi um dos principais objetivos da nutrição de bezerras. Pesquisas atuais revelam que um regime alimentar de introdução de uma dieta variada e precoce têm efeitos benéficos no desenvolvimento ruminal e no estabelecimento da microbiota ruminal. Os efeitos impactam no desempenho produtivo ao longo da vida e na saúde de ruminantes adultos.

Visto que as bezerras apresentam as fases de pré-ruminante, transição e ruminante é preciso ofertar um manejo correto para que o animal se mantenha em condições sanitárias e nutritivas satisfatórias. Aleitar na fase pré-ruminante e introduzir diversos alimentos na fase de transição são estratégias que promovem a estrutura morfológica e a função metabólica do rúmen, acelerando seu desenvolvimento e transformando o animal em um ruminante verdadeiro.

Colostro como o primeiro alimento

O primeiro alimento a ser fornecido é o colostro, que contém substâncias biologicamente ativas, principalmente fatores de crescimento polipeptídicos, hormônios esteroides, incluindo insulina, IGF-1 e imunoglobulinas (anticorpos) como fator indispensável para a defesa imunológica da bezerra. A ingestão de colostro tem sido associada ao desenvolvimento, digestão e capacidade de absorção do trato gastrointestinal em bezerras recém-nascidas.

A bezerra pode permanecer junto com a mãe (método bezerro ao pé) por pelo menos 24 horas após seu nascimento. Sabemos que a bezerra junto à vaca mama entre 12 a 15 vezes no dia. A grande vantagem deste método é que estas mamadas proporcionam que o colostro passe diversas vezes pelo sistema digestivo aumentando a superfície de contato com a parede intestinal favorecendo assim a absorção de imunoglobulinas. Por outro lado, podemos fornecer o colostro de forma artificial, oferecendo em torno de 10% do peso da bezerra logo nas primeiras horas após seu nascimento.

Aleitamento natural: quando a bezerra tem contato direto com a vaca

Segundo Carvalho et al. (2002), no método “bezerro ao pé” o animal obtém o leite mamando diretamente no úbere da vaca, podendo ser controlado ou não. A recomendação para adoção deste sistema são para as propriedades cujo plantel é formado por rebanhos puros ou de alto grau de sangue das raças zebuínas, em que as vacas podem “esconderem o leite” na ausência do bezerro, quando ordenhadas. Outros fatores são a produtividade média diária de leite por vaca inferior a 8 kg e mão de obra ineficiente para sustentar uma boa higiene no aleitamento artificial de bezerras.

Ainda segundo os autores, quando o método de aleitamento usado for o natural, há indicações de que a amamentação seja controlada, acontecendo em algumas horas do dia, normalmente após a ordenha, pois oferece maiores benefícios no desempenho das vacas e das bezerras se comparada à amamentação natural sem restrição ou controle.

Aleitamento artificial: vantagens e desvantagens dos diferentes métodos

Após a colostragem, recomenda-se que uma bezerra tenha a oferta média de até 6 litros de leite ao dia, dividido em duas alimentações, pois até três semanas de vida a lactente se alimenta exclusivamente de leite, que pode ser fornecido de diversas maneiras.

Apesar de o método bezerro ao pé ser o mais natural, preservando o comportamento da espécie, as propriedades tem aleitado as bezerras de forma artificial, sendo os principais métodos utilizados o balde aberto, o balde com bicos e a mamadeira (MAGALHÃES et. al., 2015). O aleitamento artificial permite racionalizar o manejo dos animais, ordenhar a vaca com mais higiene e controlar a quantidade de leite ingerida pela bezerra.

A mamadeira e o balde com bicos são considerados os métodos que mais se aproximam do comportamento natural da mamada na vaca. Contribuem para maior salivação e aumento da liberação de enzimas digestivas (MAGALHÃES et al., 2015). Já o balde aberto, técnica que consiste na fixação de balde nas instalações em que a bezerra está alocada para dentro dele ser depositado o leite para que a bezerra possa se alimentar, tem como vantagem a praticidade do método, na rapidez de alimentar um grande número de bezerras, porém sem respeito ao comportamento natural da mamada.

A mamadeira tem como vantagem ainda o maior contato entre tratador e animal e, se torna ainda mais satisfatória se durante o processo a bezerra for escovada ou acariciada, diminuindo o medo pelo seu tratador e tornando o animal mais dócil. A desvantagem está na falta de praticidade, aumentando consideravelmente o uso da mão de obra para este processo, caso o tratador tenha que ficar apoiando a mamadeira durante toda a mamada do animal.

Pesquisadores desde a década de 30 observaram que bezerras aleitadas por mamadeiras têm fechamento quase completo da goteira esofágica, evitando que o leite ou substituto do leite entre no compartimento rumino-reticular. Quarenta por cento dos bezerros que bebiam leite ou sucedâneo do leite em balde aberto não apresentavam bom fechamento da goteira esofágica, com derramamento de até 50% do leite ou sucedâneo do leite no compartimento rumino-reticular (WISE; ANDERSON, 1939).

Porém, logo em seguida, Wise et al. (1942) observaram que a posição da mamadeira pode ser prejudicial. A posição do pescoço durante a mamada não afetava negativamente o fechamento da goteira esofágica, entretanto, a posição da cabeça e do pescoço durante a sucção afetava o potencial do leite ou sucedâneo de entrar acidentalmente na traqueia. Isso pode acontecer quando o nariz se eleva acima dos olhos, e o leite ou substituto do leite será engolido em grandes volumes ou, na excitação da alimentação, muito rapidamente. 

Conclui-se então que se as bezerras forem alimentadas com mamadeira ou balde com bicos, é imperativo que o mamilo seja colocado baixo o suficiente no cercado para que o bezerro mame com a cabeça em uma posição normal, fisiológica, respeitando as características da espécie. Isso ajudará a evitar que o leite fluido ou substituto do leite entre inadvertidamente nos pulmões via traqueia.

Quando se usa o balde aberto, as bezerras ainda se mantêm naturalmente propensas a encontrar e sugar o teto da vaca. A sucção é um comportamento natural da espécie, se tornando mentalmente satisfatório para lactentes de todas as idades. Muitas bezerras aleitadas em baldes abertos vão procurar ativamente algo para sugar após consumirem o leite ou substituto, para satisfazer esse desejo de mamar. O método então deixa de ser benéfico quando criamos bezerras em alojamentos coletivos, pois esse desejo de sucção será exercido no úbere, orelha ou umbigo de outra bezerra, podendo causar feridas e outra alteração clínicas nocivas. Ao se optar pelo aleitamento em balde aberto, o ideal é que os bezerreiros sejam individuais.

Outro fator negativo para o balde aberto é que o mecanismo de sucção no úbere da vaca envolve uma postura diferente da observada quando a bezerra mama no balde. A cabeça da bezerra voltada para cima, o teto da vaca pressionado entre a língua e o céu da boca da bezerra com a descida do leite pelo esôfago. No balde aberto, a bezerra deve aprender a forçar o leite ou sucedâneo através da boca para a cavidade oral e depois para o esôfago, fazendo com que sua boca e língua atuem como um grande canudo. Este é um processo que deve ser ensinado à bezerra, processo desafiador que pode levar dias até que haja domínio pelos animais e, ainda sim, algumas recusarão o treinamento.

Criadores experientes relatam que, uma vez que uma bezerra é alimentada com uma mamadeira ou balde de bico, o desafio de transferi-la para o balde é maior, sendo aconselhável aclimatar as bezerras ao balde desde o início.

Considerando os três métodos de aleitamento artificial apresentados, pesquisadores não observaram diferença no ganho do peso dos animais. O produtor deve ter em mente que a escolha do método está diretamente relacionada ao que a propriedade pode oferecer de manejo e mão de obra, bem como fatores relacionados à higiene da ordenha e dos objetos utilizados, realizando sempre a lavagem dos equipamentos com detergentes e buchas adequados após cada alimentação, evitando assim a proliferação de patógenos.

Independente do método escolhido se as bezerras permanecerem mugindo constantemente pode ser um sinal indicativo de que os animais estão com fome. No caso de bezerras mal alimentadas observamos depressões muito acentuadas dos vazios dos flancos e pouca gordura entre as costelas. Nesses casos deve-se rever a quantidade de leite ou sucedâneo fornecido, para que o animal tenha energia e nutrientes suficientes para seu desenvolvimento, ou em alguns casos, readequar os métodos de fornecimento.

 

Autores

Anna Carla Silva Cunha1, Caio Nunes Christoffe Simões1, Samara Rosa Ferreira Silva1, Ana Paula Lopes Marques2

1 Discentes e 2 Orientadora, Grupo de Estudos Liga de Bovinos - LiBovis, UFRRJ

 

Referências

CARVALHO, L. A. et al. Sistema de Alimentação - Embrapa Gado de Leite, Sistema de Produção, 2. 2002. Disponível em: <https://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Leite/LeiteCerrado/alimentacao/02.html>. Acesso em 27 set. 2020.

COSTA, N. A. Manipulações alimentares em diferentes fases do desenvolvimento de bovinos. 2019. 120 f. Tese (Doutorado em Ciências Fisiológicas) - Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 2019.

GERBERT, C. et al. Effects of ad libitum milk replacer feeding and butyrate supplementation on behavior, immune status, and health of Holstein calves in the postnatal period. J. Dairy Sci., v.101, n.8, p. 7348-7360, 2018.

IMANI M. et al. Effects of forage provision to dairy calves on growth performance and rumen fermentation: A meta-analysis and meta-regression. J Dairy Sci., v.100, n.2, p. 1136-1150, 2017.

MAGALHÃES, C.B. et al. Desempenho de bezerros leiteiros submetidos a dois métodos de aleitamento artificial. Congresso Internacional do Leite, 2015. Disponível em:<https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1029303/1/MagalhaesetalCIL.pdf>. Acesso em: 27 set. 2020.

RODRIGUES, R.R. et al. Alimentação de bezerros ruminantes com dieta sólida ou líquida, via goteira esofagiana: formação da goteira e escape ruminal. R. Bras. Zootec.,  v. 31, n. 6, p. 2364-2372,  2002.

WARNER, E.D. The organogenesis and early histogenesis of the bovine stomach. Am. J. Anat., 1958.

WISE, G.H. et al. Factors affecting the passage of liquids into the rumen of the dairy calf. II. Elevation of the head as milk is consumed. J. Dairy Sci., v. 25, p.529, 1942.

WISE, G.H.; ANDERSON, G.W. Factors affecting the passage of liquids into the rumen of the dairy calf. I. Method of administering liquids: Drinking from open pail versus sucking through a rubber nipple. J. Dairy Sci., v. 22, p. 697, 1939.

LIBOVIS - UFRRJ

A Liga de Bovinos, LiBovis, é um grupo de estudos constituído por alunos de graduação em Medicina Veterinária e áreas afins da UFRRJ. Tem como objetivos estudar, compreender e defender os interesses da bovinocultura contribuindo para sua valorização.

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