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Na prática: medidas de biosseguridade na bovinocultura leiteira

POR LIBOVIS - UFRRJ

PRODUÇÃO DE LEITE

EM 19/08/2020

8 MIN DE LEITURA

0
6

Andressa Pereira Laredo1
Letícia dos Santos Lima1
Keity Kelly Vianna Benetti1
Ana Paula Lopes Marques2

1 Discentes e 2 Orientadora, Grupo de Estudos Liga de Bovinos - LiBovis

Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, UFRRJ

 

As doenças infecciosas representam um grande impasse para a produção animal, visto que a condição sanitária adequada de um rebanho pode ser perdida de um dia para o outro. Por isso, adotar medidas que buscam prevenir e controlar a ocorrência das enfermidades dentro dos plantéis é de extrema importância. A biosseguridade é definida como um conjunto de procedimentos técnicos com o intuito de prevenir a entrada, disseminação e saída de patógenos em quaisquer sistemas de produção animal. Consiste em medidas que garantem saúde e bem-estar aos animais, além de prevenção de riscos à saúde pública e consequente prejuízos econômicos.

A presença de uma doença infecciosa representa um grande risco para a propriedade, uma vez que pode interferir no desempenho produtivo, afetar a reprodução animal ou ainda, resultar em perda do animal e seus produtos. O descarte do animal ou do leite produzido resultam em prejuízo ainda maior para o produtor. Sendo assim, é necessário sempre estar atento as condições sanitárias da propriedade, principalmente durante o manejo dos animais, para que possa ser possível a prevenção, ou quando presente no rebanho, a identificação precoce com erradicação de diversas doenças.

Dentre as principais afecções com etiologia infecciosa de preocupação para a sanidade animal, pode-se destacar a rinotraqueíte infecciosa bovina, que se caracteriza por ser de difícil controle, devido à sua capacidade de permanecer no organismo do animal e ressurgir em momentos de queda imunológica, provocando principalmente sinais respiratórios e reprodutivos e, a diarreia viral bovina, que acomete animais de qualquer idade e causa diversas sintomatologias clínicas, podendo variar desde diarreia, queda da produção, até anomalias congênitas em fetos e abortos.

Em relação às doenças infecciosas de caráter zoonótico – passíveis de serem transmitidas entre animais e humanos – é importante ressaltar a importância da raiva, uma zoonose importante de notificação compulsória até mesmo de casos suspeitos, caracterizada como aguda e fatal, sem tratamento e, que cursa principalmente com sintomatologia nervosa, agressividade, paralisia progressiva e morte. A febre aftosa, uma doença altamente contagiosa que atinge animais biungulados e homens, caracterizada pelo surgimento de vesículas principalmente em cascos e boca dos animais, também é responsável por grandes prejuízos, embora no Brasil, esta doença esteja em processo de erradicação, sendo o último caso registrado em 2006. Extremamente perigosas para a saúde humana e animal, a tuberculose e a brucelose, ambas de evolução crônica, tem grande importância para a saúde pública, visto que, a ingestão de leite e derivados crus representa uma das principais vias de transmissão para o homem. Entre os bovinos, a tuberculose muitas vezes se apresenta de forma assintomática em animais mais velhos, podendo causar sintomatologias diversas, em destaque a respiratória, já a brucelose, no Brasil, ainda é uma enfermidade endêmica que acarreta problemas reprodutivos, refletindo em grandes prejuízos para as propriedades.

As estratégias de biosseguridade que podem ser adotadas se baseiam fundamentalmente na prevenção e controle da introdução de patógenos ausentes ou não identificados no rebanho (biosseguridade externa) e no controle da disseminação de patógenos que já existam nos animais (biosseguridade interna). Nesse contexto, devem ser observadas características de cada propriedade, dos distintos sistemas de produção de leite, que podem variar do mais intensivo até sistemas extensivos.

As medidas de biosseguridade externas se referem às ações preventivas e requerem que os produtores cumpram os quesitos necessários para diminuir ou mesmo eliminar os riscos de contaminação do rebanho, preservando a saúde humana e animal e, garantindo a segurança durante cada etapa de produção. Dentre diversas ações, as mais importantes incluem:

  • Quarentena, em que o isolamento de animais recém-adquiridos por 40 dias ou, até que se faça a realização de exames ou, até quando ocorra apresentação de sintomatologia clínica, embora seja eficiente, ainda é pouco utilizada;
  • Acesso restrito ao interior da propriedade, evitando a circulação de pessoas e veículos que venham de fora da propriedade até o local onde se encontram os animais, bem como controle de visitas técnicas e divisão adequada entre propriedades vizinhas para não haver contato direto entre os animais;
  • Acesso de funcionários e profissionais com uso de EPIs (equipamentos de proteção individual), higienizados conforme necessidade, além de realização da capacitação dos trabalhadores para melhor entendimento do motivo de se fazer tais ações e garantia da proteção dos mesmos;
  • Utensílios e práticas veterinárias seguindo recomendação de higienização e desinfecção, como uso de luvas, agulhas descartáveis sem reuso e descarte adequado de material;
  • Pedilúvio para lavagem de calçados ou das patas dos animais e rodolúvio para rodas de veículos, ambos seguindo recomendações de instalação, uso, dissolução correta de detergentes e desinfetantes, frequência de troca da solução, tempo de atuação do princípio ativo e retirada da matéria orgânica;
  • Compra de rebanho de locais reconhecidamente certificados, com controle sanitário, e ainda assim, com recomendação de quarentena para os animais recém-adquiridos;
  • Ações preventivas quando os animais precisarem sair para feiras, exposições e eventos;
  • Obtenção de certificação da condição sanitária e realização periódica de exames sorológicos para as principais doenças infectocontagiosas;
  • Registros zootécnicos de identificação e histórico dos animais com as principais ocorrências desde o nascimento ou aquisição;
  • Teste microbiológico em amostras de leite quando há introdução de vacas na lactação, precavendo agentes causadores de mastite.

Já as medidas internas de biosseguridade têm o intuito de se evitar a disseminação dos patógenos já instalados, envolvendo diversas ações básicas e de acordo com a situação do local, citam-se como principais:

  • Manejo correto dos lotes de animais, tendo em vista a categoria e fase de produção, por exemplo, novilhas devem ser criadas separadamente, bezerras não devem ter contato com animais adultos, devido à maior susceptibilidade aos patógenos de ambos os lotes;
  • Piquete ou baia maternidade próximo ao curral, de fácil visualização, com ventilação, limpeza e acesso aos alimentos de forma adequada, podendo usar cal virgem para a desinfecção destes locais, além de não possibilitar a entrada de outros animais domésticos;
  • Fornecimento de colostro de qualidade nas primeiras 6 horas após o nascimento advindo de vacas saudáveis ou de banco de colostro corretamente manejados, além de ‘cura’ do umbigo com produtos adequados;
  • Bezerreiros limpos e secos para reduzir a chance de enfermidades neonatais infectocontagiosas (recomenda-se “casinhas” individuais);
  • Higienização adequada de utensílios, cochos, bebedouros, cordas e todos os equipamentos, materiais e instalações, como currais, troncos e bretes, exposição dos locais à luz solar ou uso de produtos químicos adequados a cada ambiente;
  • Pasto ou piquete enfermaria para animais doentes que devem ser tratados isoladamente e em ambiente apropriado;
  • Uso de EPIs por funcionários, que devem manter as unhas curtas, cabelo preso com touca ou boné e mãos limpas durante a ordenha e manipulação de animais;
  • Higienização constante das mãos antes e após as tarefas;
  • Água de qualidade na propriedade com limpeza de caixas d’água, reservatórios e bebedouros, além de análise dessas fontes de água periodicamente;
  • Pré e pós-dipping durante a ordenha, além dos testes da caneca de fundo preto e CMT com definição da linha de ordenha baseada nesses critérios;
  • Limpeza e desinfecção da sala de ordenha após cada ordenha com água sob pressão, sanitização das dependências, desinfetantes adequados como cloro, amônia quaternária e iodo;
  • Limpeza da ordenhadeira após a saída do leite com água morna a 30-50ºc, detergente alcalino clorado com água quente (70-75ºc), detergente ácido com água morna e sanitização com cloro a temperatura ambiente;
  • Armazenamento de produtos veterinários em locais apropriados com observação da data de validade, descarte correto e anotação por animal das administrações, dias e via utilizada, respeitando-se o período de carência de cada produto;
  • Alimentos armazenados em condições apropriadas para evitar sua deterioração, contaminação e proliferação de pragas;
  • Controle de pragas e insetos, como ratos e moscas (principalmente a “dos estábulos” e a “dos chifres”),  que podem transmitir patógenos;
  • Gestão de resíduos de acordo com a legislação específica para cada tipo (líquido/sólido, orgânico/inorgânico);
  • - Manejo correto de esterco, como esterqueiras e compostagem, evitando contaminação do ambiente e utilização dos equipamentos dessa atividade para a oferta de alimento;
  • Destino correto de carcaças, além de vestimenta adequada ao indivíduo que manusear animais mortos;
  • Realização de necropsia com colheita de material quando a causa da morte for desconhecida ou suspeita, visando prevenir novos casos.

Quando medidas preventivas de biosseguridade são adotadas, podem impedir ou controlar surtos e epidemias como casos de Influenza Aviária (H5N1), Encefalite Espongiforme Bovina, a “gripe suína” (H1N1) e, agora mais do que nunca, a Covid-19. Embora não haja evidências que o novo coronavírus seja transmitido dos animais de produção ou domésticos para os humanos, a cadeia do leite tem muitos pontos críticos capazes de disseminar o vírus entre humanos. Um foco importante na biosseguridade na cadeia da bovinocultura de leite é a rotina do transporte, uma das mais sensíveis do processo, uma vez que o caminhão de coleta passa por diversas propriedades. As atividades nas fazendas ou mesmo nas indústrias de processamento de matéria-prima animal precisam continuar a manter o mesmo cuidado, principalmente no que diz respeito às medidas de biosseguridade externa, evitando que o novo coronavírus circule entre as propriedades.

Vários critérios de biosseguridade na produção animal devem ser seguidos, assim como o cumprimento das necessidades da criação visando o bem-estar, suprindo todas as necessidades dos animais. Animais saudáveis significam mais sucesso para as propriedades.

Referências bibliográficas:

HOLLOWAY, L. COVID-19 and a shifted perspective on infectious farm animal disease research. Agriculture and Human Values, p. 1, 2020.

PEGORARO, L. M. C. Biosseguridade na bovinocultura leiteira.  Embrapa, 2018. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/1104225/1/BiosseguridadePropriedadeLeiteira.pdf .Acesso em 02 de julho de 2020.

PEGORARO, L. M. C. et al. Covid-19: o que o produtor de leite precisa saber. Embrapa Clima Temperado-Fôlder/Folheto/Cartilha (INFOTECA-E), 2020. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/213945/1/Guia-Covid-e-pecuaria-leiteira.pdf Acesso em 27 de Julho de 2020.

SCHEIS, G. M.; MENDES, J. P. G.; SANTOS, F. C. R.; BERTINI, M. C.; GOMES, V. Programa de biosseguridade em fazenda leiteira: como implantar e qual sua importância? Disponível em: https://www.milkpoint.com.br/colunas/educapoint/programa-de-biosseguridade-em-fazenda-leiteira-como-implantar-e-qual-sua-importancia-218397/ .Acesso em 02 de julho de 2020.

LIBOVIS - UFRRJ

A Liga de Bovinos, LiBovis, é um grupo de estudos constituído por alunos de graduação em Medicina Veterinária e áreas afins da UFRRJ. Tem como objetivos estudar, compreender e defender os interesses da bovinocultura contribuindo para sua valorização.

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