No artigo anterior, citamos alguns motivos importantes para considerar a mudança da dieta do rebanho – se você não viu o material ainda, clique aqui e acesse. Agora nós vamos “dar um passo atras” e discutir o que avaliar antes de pensar em mudar, de fato, a dieta dos animais.
Um questionamento muito importante antes de querer propor mudanças para a dieta do rebanho é “entender como a fazenda funciona”. Algumas perguntas importantes:
- Quantos funcionários a fazenda tem?
- A fazenda está dividida em setores?
- As tarefas a serem realizadas em cada setor são claras e dominadas por todos os funcionários?
- Existem protocolos (ou procedimentos) operacionais e responsáveis por cada setor?
- Quem executa as tarefas sabe o “por quê”, está realizando o seu trabalho e a importância do mesmo para o sistema?
- O trabalho é padronizado? É sempre realizado com disciplina, da mesma forma, todo dia e, no mesmo horário?
- Quem é o responsável pela alimentação dos animais? Existe folguista ou equipes diferentes (turnos) para a realização das tarefas?
- Qual é equipamento e infraestrutura da fazenda para alimentação dos animais?
- A fazenda trabalha com vagão misturador? Com ou sem balança? Como é feito o carregamento do trato? Como é feita a distribuição?
- Quem é o responsável por controlar a oferta ou redução de alimento para cada lote e como isso é realizado? Manualmente, por meio de software de gestão da alimentação (não software de formulação de dietas/são coisas distintas)
- Como foi a produção de alimentos na última safra?
- Quais foram os alimentos volumosos produzidos?
- Como é a qualidade da forragem da fazenda?
- A quantidade de volumoso é suficiente para a alimentar todos animais, o ano todo e todas as categorias do rebanho?
Fico impressionado com a quantidade de profissionais em atuação, realizando trabalho e se “posicionando” tecnicamente ou mesmo orientando produtores e quando vou conversar ou interagir com alguns deles e realizo os questionamentos, acima, não tenho as respostas desejadas (ou há, absoluta, falta de conhecimento sobre algumas ou muitos dos itens, acima).
Entendemos que, o começo e princípios da nutrição começam com os questionamentos corretos e estão muito mais além do que o domínio técnico sobre o funcionamento ou cinética ruminal, uma determinada linha de produtos ou um dado ingrediente utilizado.
Já participei de debates e discussões técnicas sobre “balanceamento de aminoácidos” ou “nutrição de precisão” em diferentes ocasiões e confesso que adoro o tema. É impressionante quanta saliva é gasta para depois realizarmos uma pergunta simples, como: “qual é a margem de precisão do carregamento das suas dietas” ou qual é a precisão de carregamento do seu operador? Outra pergunta, igualmente, importante é: como está a distribuição da sua dieta no cocho? Há precisão? Há erro? O proposto no papel está próximo da realidade no campo?
Hoje temos ferramentas para isso.
Tabela 1. Relatório de Precisão de Carga do Operador
Quantas fazendas trabalham com ferramentas, acima? Quanto de capital é investido em núcleos, suplementos, aditivos ou similares para nos depararmos com erros brutais no momento do carregamento dos ingredientes? O que esperar em termos de resultados, na prática?
Tabela 2. Relatório de Carga
Acima, relatório de carga, demonstrando quando (horário) e como (planejado x carregado) foi realizado um trato de um determinado lote, numa fazenda.
Tabela 3. Desvio de Ingrediente e Pré-Mistura
Acima, fechamento de carregamentos de 1 mês de trabalho (agosto 2025) de cliente COWTECH.
Formule dietas, mas tenha em mente conceitos claros:
Ingestão ou consumo de matéria seca (MS):
Mais importante do que a concentração de uma dieta ou a formulação como um todo é ter em mente o conceito, claro, de que nossos animais precisam ingerir o alimento que nos propomos a fornecer.
Para que um animal tenha condições de se alimentar é necessário que ele esteja alojado numa instalação que ofereça condições adequadas para seu descanso e consumo.
Instalações:
Nem entraremos no mérito de qual instalação é a melhor. Há muitos anos em diferentes artigos publicados aqui, no MilkPoint, sempre colocamos que “o melhor sistema” ou a “melhor instalação” é aquela em que o produtor conseguiu ou reuniu recursos de forma correta para construir e alojar seus animais de forma adequada.
Nesse sentido temos excelentes projetos de compost barn (com lotação e camas bem manejadas) e excelentes galpões free-stall. Com camas bem dimensionadas, larguras de corredores adequadas e, em ambos os casos, climatização adequada. Além disso, pensando em NUTRIÇÃO, dirigimos cuidado especial para espaçamento de cocho, tipo de piso, declividade de piso, largura de corredores, disposição, distribuição e números de bebedouros. Idem para ventiladores. Esse recursos, somados, são capazes de otimizar o consumo de MS.
Conforto, ambiência e bem estar animal:
Conforto é o que oferecemos aos nossos animais, ambiência é “onde nosso animal está inserido” e bem estar o conjunto de práticas que otimizam ou maximizam as duas primeiras. Eu ofereço conforto montando um bom projeto de climatização, eu ofereço uma boa ambiência com dimensionamento adequado de uma dada instalação (pé-direito, largura de corredores de alimentação ou circulação, etc) e garanto bem estar com distribuição de cow-brushes, selecionando lotes adequadamente (exemplo primíparas permenencendo juntas durante toda uma lactação), projetando corredores não muito extensos e com largura adequada até ordenha, mantenho meus animais sempre climatizados, bem alimentados, tenho um equipamento de ordenha bem regulado (vácuo) e bem mantido de modo que a extração de leite seja prazerosa e tranquila para nossas vacas porque eu entendo o que elas precisam e respeito suas necessidades (não corro, não bato, não grito, não acelero, etc). Isso tudo é bem-estar animal. Quanto mais ofereço, mais leite eu produzo.
Genética:
Leite é manejo e todo esse conjunto de práticas e detalhes que mencionamos durante todo o artigo. No entanto, não podemos desprezar o mérito genético de nossas vacas e trabalhar de forma correta com aquilo de melhor que o mercado nos oferece. Hoje temos a possiblidade de selecionar via genoma, acelerando ganhos e obtendo resultados de forma muito mais rápida e assertiva do que no passado. Manter ou trabalhar com animais “negativos” dentro do rebanho é um problema sério (e pode ser silencioso). Logo, eu preciso selecionar bem e da melhor forma para que a genética nos ofereça: mais fertilidade, mais leite, mais sólidos e saúde, à cada geração.
DEL:
Entender o DEL e conceito deste vs curva de produção, dietas fornecidas e estruturação de lotes é algo muito importante. Não adianta eu fornecer a melhor dieta do mundo se eu não associá-la com DEL e lotes adequados. Temos perdas diretas (as evidentes) e indiretas (as não evidentes), com o mal direcionamento de dietas e formulações.
Qualidade e disponibilidade de alimentos:
Quando pensamos em produção pensamos em boas formulações e dietas adequadas, porém elas não podem ser “sonhos” ou estarem perfeitas, no papel. A padronização da qualidade de ingredientes concentrados, protéicos e minerais é muito mais fácil do que a de alimentos volumosos. Como trabalhamos com ruminantes, para obtemos produção e saúde, temos de fornecer forragens de qualidade não apenas por um período mas durante todo ano. Logo, ter um bom planejamento da produção recursos forrageiros numa fazenda é imprescindível para o sucesso da empreitada.
Já tivemos oportunidade de acompanhar fazendas “flex”, ou seja, aceitam tudo (ou fazem tudo). Em outras palavras, existe pasto, capineira, silagem de milho, silagem de capim, cana e até falta de alimento em algumas épocas do ano. Entender como as plantas se desenvolvem ter um bom trabalho em agricultura e suporte agronômico para a produção é tarefa árdua e imprescindível para o sucesso da atividade.
Eu preciso ter oferta e disponibilidade de forragem durante o ano todo. Posteriormente precisamos focar em bom planto para fornecer não só quantidade, mas principalmente, QUALIDADE de forragem. A qualidade da forragem fornecida tem impacto direto no padrão de consumo das nossas vacas em produção, secas ou no desempenho da nossa recria. Somado à isso temos o impacto financeiro do uso de bons volumosos x volumosos ruins x desempenho e custo de produção. Tudo converge para uma mesma direção.
Qualidade da mistura:
Eu preciso ter ingredientes e preciso saber e formular bem uma dieta, combinando com tudo que escrevemos. Porém, para que tudo isso aconteça de forma digna e equilibrada é necessário investir e ter um bom MIXER ou VAGÃO. Isso implica em controle de carregamento (uso de balança e cargas pesadas, corretamente, a cada trato). A produção de leite profissional reúne requisitos básicos. Dentre estes requisitos destacamos as TMR´s (total mix rations), carregadas (pesadas), misturadas e fornecidas de forma correta. Em outras palavras, não adianta eu ter bons ingredientes, sem bom agricultor, produzir volumosos em quantidade correta e com boa qualidade se eu não sou capaz de fornecer o alimento das nossas vacas de forma adequada.
Número de tratos e constância:
Devemos estudar fazendas e sistemas de produção de leite analisando como, onde e quando cada categoria é alimentada. Existem lotes que podem ser alimentados 2x/dia, enquanto outros merecem 3x/dia. Em alguns casos e, por necessidade operacional, realizamos, apenas 1 trato/dia. Tecnicamente e conceitualmente pode não ser a melhor opção, porém, às vezes, somos obrigados a “enquadrar” um determinado lote nesse regime.
Tão importante quanto a quantidade de tratos é a padronização do fornecimento. Eu preciso (e devo), fornecer, sempre, a mesma quantidade, da mesma forma, no mesmo local, regularmente. Vacas respondem à disciplina e rotina. Se eu tenho isso comigo, eu ganho. Se não tenho, perco.
Qualidade do carregamento e da distribuição:
O que é um “carregamento ou carga de qualidade”? Eu diria que é um carregamento realizado em local, limpo, sem impurezas, com alimentos armazenados em locais adequados e sem contaminação. Os ingredientes concentrados devem ter origem e controle de qualidade enquanto os volumosos produzidos na fazenda, também.
Para eu ter uma boa dieta eu preciso saber o quanto estou carregando e fazer isso, corretamente. Logo, o OPERADOR é o protagonista dessa história e deve ser, sempre, muito capacitado para exercer essa função e responsabilidade.
De que adianta formularmos uma dieta, perfeitamente, se o carregamento, mistura e distribuição são falhos e/ou não controlados. Podemos trazer os maiores nutricionistas do MUNDO para formularmos dietas e SEMPRE, teremos problemas.
Palavra-chave: padronização de processos
Oferta de água e consumo de água:
Por fim, não podemos esquecer nunca que o leite é composto, basicamente, por água e poucos sólidos. Uma vaca consome de 3 a 4L de água por litro de leite produzido e, sob stress essa demanda pode aumentar em 20, 30% dependendo das adversidades e manejo.
Se eu quero produzir bem eu preciso oferecer água em quantidade e qualidade. Para eu saber se estou indo bem vai a dica da instalação de hidrômetros na entrada de água das nossas instalações para monitoramento do consumo médio de água semanal de um determinado lote e entendermos se nosso projeto está adequado. Além disso o registro semanal (ou na frequência que desejarmos) serve como alerta e para garantir que estamos fornecendo, de fato, o que nossos animais precisam.
Por mais rudimentar que seja e, por incrível que pareça, a questão da água em fazendas é um problema recorrente. Seja no aspecto quantitativo ou qualitativo. Seja para consumo, para lavagem de equipamentos e/ou instalações ou projetos de climatização.
Avaliar e dimensionar o uso de água é muito importante e interessante e temos avaliado cada vez mais quantos litros de água (como um todo) temos consumido para cada litro de leite produzido.
Considerações Finais
A formulação de dietas adequadas e compatíveis com a realidade e momento de cada sistema de produção tem impacto direto na resposta e produção de leite. Mudar dietas é a forma mais rápida (e convidativa) para mudanças e respostas na produção. Para isso é necessário termos consciência e conhecimento do que está acontecendo dentro da nossa fazenda, de fato. Mudar “porque esse é o caminho para aumentar a produção” nem sempre é um bom negócio e, em muitos casos, sem resultados, efetivos.
É importante desenvolver o conceito de que a boa dieta não é aquela que dá mais leite, somente, mas também aquela em que não temos de alterá-la. Se uma formulação é boa e está adequada, ela faz bom volume de leite e tende a perdurar dentro de um sistema de produção.
Antes de alimentar uma nova esperança, avalie todas as variáveis ao seu redor. Equacione todas as variáveis. Faça mapeamento de processos e reduza a variação. Procure trabalhar de forma limpa e organizada. Com rotina e com disciplina. Elimine o desperdício. Entenda quais são os agentes que estão interferindo e afetando a sua produção. Depois de equalizar todas estas variáveis, ajuste a sua formulação.