Nos Estados Unidos, a participação do sêmen de touros de corte em rebanhos leiteiros saltou de 25% para 47,6% entre 2013 e 2020, e em países do norte europeu já representa entre 20% e 25% dos acasalamentos. Bezerros cruzados geralmente são mais rentáveis do que os puros leiteiros e apresentam maior aptidão para a produção de carne, tornando essa prática economicamente atraente para produtores sob pressão da volatilidade dos preços do leite.
As diferenças produtivas entre raças leiteiras, de corte e seus cruzamentos refletem adaptações genéticas e metabólicas distintas. O Holandês apresenta maior ingestão e órgãos viscerais proporcionalmente maiores, fígado, intestinos e rúmen, o que eleva o custo de manutenção e reduz a energia disponível para deposição de tecido, resultando em menor rendimento de carcaça.
O Angus, por sua vez, é uma raça de corte especializada, amplamente reconhecida pelo desempenho em confinamento, pela qualidade da carne e pela facilidade de terminação, características que resultaram em maior eficiência de conversão alimentar e melhor deposição de músculo e gordura. O cruzamento Holandês × Angus combina a alta ingestão e o crescimento corporal do Holandês com as características de qualidade de carne e eficiência produtiva do Angus, produzindo animais mais adequados para o abate, com melhor rendimento de carcaça e qualidade de carne superior à dos bezerros leiteiros puros.
Apesar do interesse internacional, o beef-on-dairy ainda é pouco estudado no Brasil. Com isso em vista, em estudo realizado na Fazenda Experimental da Universidade do Estado de Santa Catarina em Guatambú-SC, avaliaram-se 24 bovinos machos não castrados (8 Holandês, 8 Angus e 8 cruzados Holandês × Angus) confinados e alimentados com dieta de alto concentrado (65% concentrado e 35% silagem de milho) por 130 dias (Figura 1). O ganho médio diário, ingestão e eficiência alimentar foram semelhantes entre os grupos, assim como os coeficientes de digestibilidade.
No entanto, Angus e cruzados apresentaram rendimento de carcaça significativamente superior ao do Holandês (Figura 1), confirmando que as diferenças entre biótipos estão na deposição dos tecidos após a absorção dos nutrientes, e não na capacidade de digeri-los. Nos dias 81 e 130, esses grupos também apresentaram maiores concentrações ruminais de AGV totais, acetato e propionato, ainda que a digestibilidade fosse igual, indicando maior eficiência fermentativa.
A análise da microbiota revelou perfis distintos: no Angus, a maior abundância relativa de microorganismos foi de Paraclostridium benzoelyticum (37,2%) e Prevotella ruminicola (26,6%), que, juntas, representaram quase dois terços da abundância relativa total. Outros com maior abundancia foram Aristaeella lactis (9,7%), Parafannyhessea umbonata (6,7%) e Ruminococcus bromii (5,1%). Já os animais cruzados tiveram uma predominância marcante de Lactobacillales spp. (58,1%).
Outros dois com maior abundância foram P. benzoelyticum (10,4%) e P. ruminicola (8,4%). Os bovinos Holandês apresentaram um perfil microbiano mais heterogêneo, sendo o P. ruminicola mais abundante (25,6%), mas outras espécies contribuíram de forma substancial para microbiota, incluindo Terrisporobacter glycolicus (12,9%), Streptococcus parauberis (11,9%), Bacillus toyonensis (9,0%) e Chordicoccus furentiruminis (8,5%).
Na qualidade da carne, cruzados e Angus se destacaram frente ao Holandês em todos os parâmetros: pH final mais baixo, maior luminosidade, vermelhidão e capacidade de retenção de água. O Holandês apresentou carne mais escura e pH mais alto, reflexo de menor glicogênio muscular pré-abate, característica intrínseca ao biótipo, já que todos os animais foram submetidos ao mesmo manejo pré-abate.
Quanto ao perfil lipídico, Angus e cruzados apresentaram maior teor de ácidos graxos saturados e monoinsaturados, consistente com o maior conteúdo de gordura intramuscular e com o maior fornecimento de acetato ruminal observado nesses grupos. Do ponto de vista econômico, os custos de produção não diferiram no cenário analisado, mas os cruzados geraram lucratividade 16,6% superior ao Angus e 44,7% superior ao Holandês, refletindo o maior rendimento de carcaça e o preço diferenciado recebido por quilograma.
Os resultados demonstram que o cruzamento Holandês × Angus mantém desempenho produtivo equivalente ao das raças puras em condições de confinamento, melhorando significativamente o rendimento de carcaça, a eficiência da fermentação ruminal, a qualidade da carne e a rentabilidade econômica.
Os dados gerados em condições brasileiras preenchem uma lacuna importante, já que a maior parte dos estudos sobre beef-on-dairy foi conduzida em diferentes sistemas de produção. Os achados reforçam o potencial dessa estratégia para aumentar a rentabilidade de propriedades leiteiras brasileiras e contribuir para a redução do descarte precoce de bezerros machos.
Figura 1. O fenótipo do cruzamento Angus × Holandês tem similaridade com o angus, assim como a carcaça consegue adquirir padrões de qualidade mais próximo a animais de corte.