Do "modo sobrevivência" à exportação: o leite brasileiro está preparado para competir?

O painel da Sala de Gestão do Interleite 2026 alerta que o resultado econômico não garante liquidez e mostra como o fluxo de caixa, mais do que o volume, dita quem mantém a porteira aberta.

Publicado em: - Atualizado em: - 4 minutos de leitura

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O segundo dia do Interleite 2026 discutiu a viabilidade econômica da produção de leite no Brasil, destacando a competitividade do produtor nacional e desafios estruturais. O Brasil, historicamente importador, enfrenta altos custos operacionais. Propriedades menores no Sul e Sudeste demonstram resiliência, mas a sustentabilidade depende da eficiência operacional. O estudo de caso da Fazenda Ouro Verde ilustra a transformação por meio da gestão orientada por dados. O programa Educampo, do Sebrae, apoia a profissionalização dos negócios rurais.
O segundo dia do Interleite 2026 foi marcado por debates sobre a viabilidade econômica e o futuro da produção de leite no Brasil. Durante um painel na sala de gestão, o grande questionamento que norteou as discussões foi a competitividade do produtor brasileiro e as possibilidades de exportação do leite brasileiro. Esse cenário foi apresentado por Thiago Rodrigues, representante do Educampo e do Sebrae/MG, que evidenciou os desafios estruturais do país.

Com um perfil historicamente importador, que em 2025 chegou a trazer de fora um volume equivalente a 7,8% de sua produção formal, o Brasil esbarra em custos muito elevados. Competir com gigantes como a Argentina, um dos maiores exportadores de leite em pó do mundo e detentor de custos operacionais consideravelmente mais baixos, exige uma mudança radical na forma como as propriedades rurais são administradas.

Figura 1

A régua da competitividade muda de acordo com o tamanho e a eficiência da fazenda. Segundo o levantamento de Rodrigues, enquanto propriedades que produzem a partir de 5.000 litros por dia tentam buscar melhores margens, a grande maioria das fazendas brasileiras encontra-se estagnada, operando com um custo operacional total que varia entre um e três reais por litro.

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Curiosamente, as propriedades menores das regiões Sul e Sudeste, com produção diária na faixa de 2.000 litros, demonstram uma resiliência notável. Elas sofrem menos pressão que as fazendas americanas de mesmo porte e chegam a apresentar margens superiores às de produtores argentinos e uruguaios. Esse fenômeno é impulsionado pelo mercado interno brasileiro, que premia significativamente o volume de sólidos e a qualidade do leite. No entanto, o palestrante fez uma provocação pertinente: caso os prêmios praticados na cadeia caíssem ou não existissem, quantas propriedades ainda conseguiriam se manter competitivas no mercado atual, visto que o valor bruto equivalente do leite despencaria em relação direta?

A resposta para a sobrevivência e o crescimento passa diretamente pela eficiência operacional e pelas escolhas assertivas nos sistemas de produção. O que explica o custo de uma fazenda é a sua eficiência na utilização de ativos, a extração de produtividade por recurso, a gestão de indicadores e uma forte disciplina. Entre 2020 e 2025, muitas fazendas que adotaram o modelo confinado viram sua produtividade saltar 22%, consolidando-se dentro de uma zona de resiliência financeira onde conseguem girar e reter o capital imobilizado.

Em contrapartida, outras propriedades semiconfinadas analisadas estagnaram e hoje flertam com o risco de insustentabilidade. O segredo dos produtores que se destacam está na redução de custos operacionais focando em mão de obra, depreciação, concentração e aumento de volume, além de adotar uma taxa de giro que atua como integradora da estratégia. A lucratividade precisa ser o verdadeiro alvo das decisões.

Como a relação entre a receita e os custos de alimentação tem exercido grande pressão sobre os menores, a adoção de ferramentas de análise do mercado futuro se tornou peça chave para antever flutuações. Afinal, a verdadeira licença para competir exige não apenas alcançar o topo da produtividade, mas sustentar essa relevância no longo prazo, já que o resultado econômico positivo não garante liquidez. Como bem ressaltou Thiago, “é necessário negociar e produzir bem”, lembrando que o fluxo de caixa é o juiz final que determina se uma fazenda fecha ou não as portas.

A transição da teoria para a prática ganhou vida com o estudo de caso da Fazenda Ouro Verde, localizada no município de Prata, em Minas Gerais. Vinícius de Oliveira Rezende, que atua na atividade desde 2006 e usou o leite para custear seus próprios estudos, compartilhou como a gestão orientada por dados transformou a realidade de sua propriedade. Assistida pelo Educampo, a fazenda passou por um ponto de virada quando deixou de arcar com os altos custos de terceirizar a tecnologia reprodutiva e, seguindo uma sugestão do Sebrae, implementou um programa próprio de fertilização in vitro.

Aliada à introdução da silagem para um controle muito mais rigoroso da dieta do rebanho, a estratégia elevou simultaneamente a qualidade genética e a nutrição dos animais, permitindo o aumento do número de vacas em lactação. O impacto da mudança guiada por dados foi expressivo na linha do tempo: a produção, que era de 600 litros diários em 2017, alcançou a marca de 1.719 litros por dia agora em 2025. Embora as inovações tenham gerado um aumento temporário nos gastos, o retorno veio de forma avassaladora com uma expressiva recuperação financeira, culminando em uma receita de 314 mil reais no ano de 2024.

Figura 2

O sucesso de produtores como Vinícius reflete o impacto direto da atuação do Educampo, iniciativa detalhada no painel por Breno Assis Mendonça, também do Sebrae/MG. Criado em 1997 com o objetivo de fomentar a gestão profissional dos negócios rurais, o programa se apoia na premissa de empoderar produtores e consultores por meio da geração de parcerias de alto valor. Hoje, a rede já conta com 65 consultores atuando ativamente no campo, prestando assistência a 842 produtores rurais com o respaldo institucional de 20 empresas parceiras.

Os investimentos contínuos do Sebrae em novas ferramentas de gestão e tecnologias aplicadas mostram que o caminho para uma pecuária de leite lucrativa, resiliente e competitiva não é trilhado no escuro, mas sim iluminado pela integração inteligente entre análise de mercado, conhecimento técnico e aplicação de dados na rotina do campo.

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Material escrito por:

Maria Alice Trevizam

Maria Alice Trevizam

Editora de Conteúdo Jr. no MilkPoint e Jornalista pela PUC Campinas

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