Aproximadamente 40% das vacas leiteiras desenvolvem algum transtorno uterino no período pós-parto, que varia entre metrite puerperal, endometrite clínica e endometrite subclínica. A metrite puerperal. é caracterizada por sintomas clínicos evidentes, como secreção uterina anormal e fétida, em associação com o aumento do tamanho do útero, como maior incidência entre 3 e 10 dias pós-parto.
Normalmente, o tratamento de desordens uterinas em vacas é realizado com antimicrobianos. Apesar de resultados positivos do tratamento de metrite puerperal aguda em alguns casos, a terapia com antibióticos não restaura totalmente a produção de leite ao longo da lactação, taxa de descarte e risco de prenhez em comparação com vacas que não tiveram metrite.
Além disso, aproximadamente 15 a 20% das vacas tratadas com antibióticos não alcançam a cura clínica, persistindo os sinais clínicos de doença uterina, como presença de secreção vaginal avermelhada ou amarronzada, aquosa e fétida entre seis e oito dias após o término do tratamento. Outras pesquisas que incluíram a avaliação de ausência de febre em conjunto com a análise de secreção vaginal, destacaram que 25 a 35% das vacas tratadas para metrite não alcançam a cura clínica, e são descartadas prematuramente.
A metrite puerperal há muito tempo é reconhecida como uma das doenças mais caras que afetam vacas leiteiras no início da lactação. Estudos estimam que o custo médio de um caso é de cerca de US$ 500, embora os valores publicados variem de US$ 150 a quase US$ 1.000, dependendo da gravidade da doença e das condições do rebanho. Essas estimativas geralmente incluem custos com tratamento, perda de produção de leite, desempenho reprodutivo mais baixo e aumento do descarte.
No entanto, um custo importante muitas vezes é ignorado: as mudanças de longo prazo na estrutura do rebanho que acontecem quando as vacas não se recuperam. Cada descarte prematuro cria a necessidade de outro animal para reposição, forçando os produtores a criar mais novilhas enquanto diminuem o número de vacas adultas de alta produção no rebanho.
Para avaliar esses custos ocultos, foi simuldo um rebanho leiteiro de 1.000 vacas ao longo de um período de 10 anos sob três cenários: sem metrite, todos os casos de metrite curados, e nenhum caso de metrite curado. Em vez de focar apenas na vaca afetada, o modelo acompanhou como a doença alterou a demografia do rebanho, as necessidades de reposição, a produção de leite e a lucratividade ao longo do tempo.
Os resultados mostraram que a metrite não resolvida gradualmente mudou a composição do rebanho. A proporção de novilhas aumentou de 34% no rebanho saudável para 41% quando os casos de metrite não se recuperaram, enquanto as vacas adultas (terceira lactação ou mais) caíram de 30% para 22%. As vacas na primeira lactação passaram de 15% para 18%, criando um rebanho mais jovem com menor potencial produtivo (Figura 1).
Consequentemente, a produção média de leite caiu de 42 quilos por dia por vaca em lactação no rebanho saudável para 40 quilos por dia quando as vacas se recuperaram e apenas 37 quilos por dia quando não se recuperaram, reduzindo a receita anual de leite de US$ 6,62 milhões para US$ 6,03 milhões.
Para manter o tamanho do rebanho, os produtores também tiveram que reter muito mais animais de reposição, aumentando a proporção de bezerras mantidas para reposição de 71% para 87% e elevando os custos de criação de novilhas de $2.633 para $2.737 por novilha. Ao mesmo tempo, o abate de vacas subiu de 13% para 21%. Curiosamente, a receita com animais também aumentou — de $743.000 para $917.000 por ano — não porque o rebanho ficou mais lucrativo, mas porque mais vacas foram abatidas e mais novilhas de reposição excedentes acabaram entrando no mercado.
Essas vendas adicionais simplesmente refletiam um giro maior e uma intensidade maior de reposição, que não foram suficientes para compensar as perdas na produção de leite e o custo mais alto de criação de novilhas. Talvez a descoberta mais importante tenha sido o quão pouco é deferente o desempenho do rebanho saudável onde os casos de metrite foram tratados com sucesso. No geral, o lucro caiu modestamente de US$ 1,30 milhão (US$ 1.225/vaca) para US$ 1,16 milhão (US$ 1.067/vaca), indicando que o tratamento e a resolução clínica bem-sucedida preveniram, em grande parte, as consequências de longo prazo da doença.
Porém a situação era bem diferente quando as vacas não conseguiam se recuperar. O lucro caiu para apenas US$ 920.000, ou US$ 838 por vaca, representando quase uma redução de 30% em comparação com o rebanho saudável. Como resultado, o custo estimado de um caso de metrite curado era de apenas US$ 460, enquanto um caso não curado ultrapassava US$ 1.400 — mais de três vezes mais (Figura 1).
É importante destacar que a maior parte dessa diferença não vinha dos custos de tratamento, mas dos efeitos em cascata de maior descarte, necessidade de reposição aumentada, rebanho mais jovem e menor produção de leite por dia de vida útil das vacas.
A mensagem prática é simples: prevenir a metrite continua sendo essencial, mas garantir que as vacas se recuperem pode ser tão importante quanto. A maior perda econômica associada à metrite muitas vezes não é a própria doença, e sim o rebanho que vai se transformando aos poucos quando muitas vacas nunca voltam totalmente à produtividade normal.
Figura 1. A metrite não curada altera a composição do rebanho, aumentando a proporção de novilhas e vacas na primeira lactação enquanto reduz o número de vacas maduras. Essas mudanças na estrutura reduzem a receita de leite, mesmo com mais vendas de animais, e elevam o custo por caso de US$ 460 para casos tratados para mais de US$ 1.400 quando as vacas não se recuperam.
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