Só quero se for 'protein'!

Alimentos reformulados, rótulos "high protein" e a valorização do soro do leite redesenham o mercado - especialmente o de lácteos. Entenda como a proteína láctea ganhou protagonismo, os avanços tecnológicos por trás desse movimento e os limites nutricionais que precisam ser considerados, lembrando que mais proteína nem sempre significa mais saúde, equilíbrio ou benefício real ao consumidor.

Publicado em: - 3 minutos de leitura

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O consumo de proteínas aumentou significativamente, impulsionado por mudanças de estilo de vida e pela influência das redes sociais, que associam a ingestão de proteína à estética. Produtos alimentícios, incluindo laticínios, estão sendo reformulados para atender à demanda por alimentos "ricos em proteína". O soro de leite se destaca por sua alta digestibilidade e benefícios nutricionais. Contudo, o consumo excessivo de proteína, sem controle, pode ser prejudicial à saúde, e é fundamental promover uma dieta equilibrada.

O consumo de proteína ganhou protagonismo nos últimos anos, observando-se um crescimento explosivo da demanda por produtos proteicos pela população em geral. Mudanças no estilo de vida, valorização de ingredientes associados à saúde, ao bem-estar e ao desempenho físico explicam parte do crescimento do consumo, entretanto, é notório que as redes sociais impulsionaram significativamente o consumo devido à associação direta de ingestão de proteína e estética corporal.  

Nesse contexto, a procura por alimentos rotulados como “ricos em proteína” só aumenta a cada dia. E com isso, até alimentos tradicionalmente baixos em teor de proteína passaram a ser reformulados para atender a essa demanda frenética. Sendo comuns nesses produtos as rotulagens destacando o teor proteico e/ou apelo funcional, como “high protein”, “+ proteína”, “pro”, “power”, “life”, “fit” e outros. 

Entre os lácteos, o “impulso proteico” também impactou significativamente. Leites, iogurtes, queijos e outros derivados já naturalmente ricos em proteínas de alta digestibilidade e valor biológico passaram a integrar o grupo de alimentos de interesse da população, não apenas por seus benefícios nutricionais tradicionais já conhecidos, mas também como estratégia em dietas para performance estética. Além disso, presença de ingredientes funcionais (Figura 1) também surge em resposta à demanda atual, combinando prebióticos, probióticos, antioxidantes e fibras, principalmente, ao elevado teor proteico, visando ampliar os benefícios à saúde, quando incluídos na dieta e consumidos de forma regular.

Figura 1. Principais ingredientes funcionais utilizados na formulação de lácteos

 Principais ingredientes funcionais utilizados na formulação de lácteos
Fonte: Tonoli et al. (2022)

 

O soro de leite como protagonista

As proteínas do soro do leite se destacam pela sua alta digestibilidade e também devido aos benefícios proporcionados pelos aminoácidos, como a elevada concentração de leucina, por exemplo, um aminoácido-chave na síntese proteica muscular, se encaixam perfeitamente às demandas atuais do público. Além disso, as “whey proteins” possuem grande capacidade de absorção de água, permitindo a formação de gel e consequentemente melhorando a viscosidade nos produtos. Logo, são de grande importância e aplicabilidade na indústria alimentícia, pois podem atuar em diversas formulações como uma opção importante para a textura dos produtos quentes e frios como: assados, carnes processadas, sorvetes e outros.

Tabela 2. Concentração de aminoácidos essenciais em proteína de leite comparada a proteína referência.

Aminoácido essencial

Proteína Referência

(FAO/OMS)

Proteína do leite

Triptofano

1,0

1,4

fenilanina + tirosina

6,0

10,5

Leucina

7,0

10,4

Isoleucina

4,0

6,4

treonina

4,0

5,1

metionina+ cistEína

3,5

3,6

lisina

5,5

8,3

valina

255

6,8

total

36,0

52,5

 Fonte: Renner, 1991

Do ponto de vista do setor de laticínios, essa demanda crescente representa oportunidades e desafios. Há estímulo à inovação tecnológica, ao desenvolvimento de novos ingredientes e à valorização do soro do leite, antes considerado um subproduto. Apesar dos lácteos terem sido vistos como uma fonte para o atendimento à crescente demanda por proteínas, é preciso investir constantemente em comunicação clara, educação nutricional e formulações que conciliem teor proteico, qualidade sensorial e equilíbrio nutricional. É extremamente importante reforçar a importância desse nutriente no leite, não só em quantidade (% ou gramas de proteína), mas qualitativamente, destacando a superioridade da proteína láctea. Pois uma alimentação saudável e equilibrada não se baseia apenas no consumo excessivo de um único nutriente e sim de alimentos completos, aos quais o leite se adequa perfeitamente, pois além da excelente composição proteica, é rico em vitaminas e minerais, como cálcio e fósforo, fundamentais para a saúde e manutenção do corpo humano.

Não é incomum encontrar consumos de proteína exagerados, sem qualquer controle, ultrapassando nitidamente as exigências e recomendações nutricionais da dieta. Nesse contexto, surgem indagações como: Qual a real necessidade fisiológica de proteína para um indivíduo? Qual o limite de consumo? Quais prejuízos podem ocorrer com o consumo exacerbado de proteína? Essas e muitas outras perguntas no tema ainda são motivo de pesquisas e muitos debates nas mais diversas áreas.

Em resumo, embora a proteína seja essencial para funções vitais do organismo — como manutenção da massa muscular, síntese de enzimas e hormônios e suporte ao sistema imunológico —, seu consumo excessivo não necessariamente se traduz em benefícios adicionais para a população em geral e precisa ser criteriosamente avaliado. Logo, a ideia de que “quanto mais proteína, melhor” não se justifica nem nutricionalmente nem financeiramente. Além do custo elevado da inclusão proteica, os desequilíbrios nutricionais, ocasionados por substituição inadequada ou falta de nutrientes, podem gerar complicações graves nos indivíduos.

Referências bibliográficas

RENNER, E. Milk and dairy products in human nutrition. London: Elsevier Applied Science, 1991.

TONOLI, F. C. et al. Ingredientes funcionais aplicados em produtos lácteos: tendências, desafios tecnológicos e benefícios à saúde. Revista do Instituto de Laticínios Cândido Tostes, v. 77, n. 2, p. 1–15, 2022.

VIANA, J. et al. Influência do marketing nutricional e das redes sociais no consumo alimentar contemporâneo. Revista de Nutrição, v. 33, e190198, 2020.

VILLANUEVA-LÓPEZ, F. et al. (2024). High-Protein Processed Foods: Impact on Diet, Nutritional Status, and Possible Effects on Health. Nutrients, 16(11), 1697. DOI: 10.3390/nu16111697.

WALSTRA, P.; WOUTERS, J. T. M.; GEURTS, T. J. Dairy science and technology. 2. ed. Boca Raton: CRC Press, 2006.

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Material escrito por:

Bruna Hortolani

Bruna Hortolani

Zootecnista, mestre em Produção Animal. Pós-graduanda em Gestão da Qualidade, Higiene e Tecnologia de Leite e Derivados. P&D na indústria e Consultora.

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