O consumo per capita de queijo natural nos Estados Unidos recuou em 2024, mas a categoria vem passando por uma transformação que vai além do volume consumido. Enquanto o consumo chegou a 39,9 libras por pessoa no ano, abaixo do recorde de 40,2 libras registrado em 2023, consumidores têm demonstrado maior interesse por queijos de qualidade, sabores diferenciados, proteína e formatos mais convenientes.
Os dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que, apesar da queda, o consumo per capita de queijo natural continua em um patamar elevado. Em 2024, foram 39,9 libras por pessoa — mais de 10 libras acima das 29,8 libras registradas em 2000. O resultado também foi o menor desde 2021, quando o consumo chegou a 39,6 libras.
Uma das possíveis explicações para a redução é o impacto da inflação sobre o consumo de refeições fora de casa. Pizza, hambúrgueres e nachos, por exemplo, são produtos tradicionalmente associados ao uso de grandes volumes de queijo. Por outro lado, especialistas e empresas do setor identificam um movimento em outra direção: o consumidor parece estar disposto a comprar menos queijo básico e investir mais em produtos diferenciados no varejo.
Queijos naturais, em geral, têm preço por quilo superior ao dos processados. A diferença é ainda maior no caso de variedades importadas e de maior valor agregado, em comparação com opções mais tradicionais, como cheddar e mussarela.
Mesmo diante de um cenário econômico desafiador, Nycole Rezutek, gerente de marketing da Saputo USA, em Lincolnshire, Illinois, afirma que os queijos premium vêm apresentando bom desempenho tanto no food service quanto no varejo. Segundo ela, o interesse crescente dos consumidores por culinárias de diferentes partes do mundo ajuda a impulsionar essa demanda. “À medida que o global se torna local, haverá uma demanda crescente por produtos autênticos”, afirmou Rezutek. “A demanda provavelmente será por queijos italianos e mexicanos.”
O feta é outro exemplo. A variedade vem ganhando espaço impulsionada pelo interesse crescente pela culinária mediterrânea, especialmente no food service.
Nesse movimento, os queijos étnicos e de perfil mais autêntico também mudam a forma como o produto é utilizado. Em muitas receitas, a proposta é justamente usar menos queijo, mas explorar melhor suas características de sabor e textura. É uma lógica diferente daquela observada em preparações como nachos carregados de cheddar ou pizzas com grandes quantidades de mussarela.
Rezutek também aponta outra possível fronteira de crescimento para a categoria: a expansão das opções sem lactose. “Há uma oportunidade em oferecer versões sem lactose de mais tipos de queijo, tornando o produto realmente acessível a todos os consumidores, especialmente aqueles com restrições alimentares”, afirmou.
Queijo também vira snack
Além dos queijos premium, os formatos voltados para o consumo entre refeições continuam ganhando espaço. Os snacks de queijo avançam, enquanto as tábuas de charcutaria permanecem presentes em ocasiões de confraternização dentro de casa. O movimento indica que os norte americanos continuam consumindo queijo, mas nem sempre nas variedades mais básicas e de menor preço que historicamente dominaram o fast food e os restaurantes de serviço rápido.
Para Erin Price, gerente geral de produtos de consumo da Sargento, a percepção sobre o queijo também mudou. “Durante décadas, o queijo [em casa] era frequentemente visto como uma guloseima ‘indulgente’ ou ‘gordurosa’, para ser consumida com moderação”, afirmou. “O queijo natural agora foi reconhecido e é celebrado como um lanche e ingrediente proteico de alta qualidade e com rótulo limpo.”
Segundo Price, os consumidores estão cada vez mais interessados em alimentos integrais e naturais e passaram a perceber que qualidade e sabor não precisam ser escolhas excludentes. “Um simples lanche de queijo natural pode fornecer a proteína de alta qualidade que desejam”, disse.
Na avaliação da executiva, duas prioridades estão moldando atualmente a categoria: sabores mais ousados e formatos convenientes para o consumo fora de casa. “As nossas inovações deste ano refletem essas duas tendências”, afirmou Price. Entre os lançamentos citados estão os novos queijos fatiados picantes da Sargento, desenvolvidos para atender à procura por sabores mais intensos e diferentes níveis de picância.
A empresa também aposta em formatos que combinam praticidade e variedade. Os Sargento Balanced Breaks Cheese+Crunch reúnem queijo natural e mixes de snacks, enquanto os kits Mighty Bites combinam carnes e queijos naturais com biscoitos e outros produtos da Mondelez.
A estratégia é atender consumidores — e especialmente famílias — que procuram opções práticas para lancheiras, mochilas e consumo fora de casa. “As maiores oportunidades estão na interseção entre sabores marcantes de qualidade culinária e formatos extremamente convenientes, sem comprometer a qualidade”, afirmou Price. “Os consumidores não deveriam ter que escolher entre um lanche divertido e delicioso e um feito com ingredientes de qualidade nos quais possam confiar.”
Proteína e conveniência ganham força
A Organic Valley também identificou espaço para crescer no segmento de queijos premium para snacks. A empresa passou a oferecer palitos de queijo orgânico embalados individualmente, com 5 gramas de proteína por porção.
Segundo Laurie Drake, vice-presidente de marketing da empresa, a proposta acompanha a busca por formas práticas de incorporar proteínas de alta qualidade à rotina. “Com nossos novos Snack Sticks, estamos trazendo a qualidade comprovada dos laticínios orgânicos da Organic Valley, produzidos com leite a pasto, em um formato saboroso e prático para saborear em qualquer lugar”, afirmou.
A Dairy Farmers of America (DFA) também vê o sabor como um dos principais motores de inovação na categoria. Para Jenny Mehlman, diretora sênior de marketing de marcas de laticínios da empresa, as ocasiões de consumo também estão determinando quais produtos chegam ao mercado. “Variedades ousadas e modernas continuam a fazer sucesso, juntamente com produtos adaptados à forma como os consumidores usam o queijo, desde formatos para toda a família e snacks ricos em proteínas até opções mais indulgentes, como molhos para mergulhar”, afirmou.
Entre os destaques da DFA está a expansão da marca Borden para a categoria de molhos. Segundo Mehlman, o lançamento buscou atender à demanda por lanches práticos e mais saudáveis e, ao mesmo tempo, levou uma categoria tradicionalmente associada a produtos de longa duração para a seção refrigerada. Outro movimento observado pela empresa é a combinação entre proteína e ingredientes percebidos como “reais”.
Para Mehlman, o queijo se encaixa bem nessa tendência por permitir adicionar proteína às refeições de maneira simples e acessível, sem exigir grandes mudanças nos hábitos alimentares. Produtos feitos com leite também continuam encontrando boa receptividade entre os consumidores. “Olhando para o futuro, a categoria de queijos continuará focada em agregar valor diferenciado em todas as ocasiões”, afirmou Mehlman. “Seja aprimorando as refeições do dia a dia, elevando o nível dos lanches ou criando experiências mais indulgentes para os consumidores.”
O que muda na categoria
O cenário descrito pelas empresas aponta para uma categoria de queijos cada vez mais segmentada. De um lado, permanecem os produtos tradicionais e de maior volume; de outro, crescem oportunidades relacionadas a premiumização, sabores diferenciados, proteína, produtos sem lactose e formatos convenientes. Mais do que simplesmente consumir mais queijo, o consumidor parece estar buscando novas maneiras de consumir o produto, com maior valor agregado e adequação a diferentes momentos do dia.
O material foi publicado no Dairy Processing, escrito por Donna Berry, traduzida e adaptada pela Equipe MilkPoint.
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