No primeiro trimestre de 2026, a categoria de alimentos com proteína adicionada, que movimenta R$ 2 bilhões ao ano no Brasil, registrou alta de 12% no faturamento, na comparação com o mesmo período de 2025, ritmo duas vezes mais rápido que o das proteínas convencionais, como as de origem animal, aponta a Worldpanel by Numerator.
Produtos historicamente ligados à indulgência, como cerveja e achocolatados, são anunciados com uma narrativa de funcionalidade. Somem-se a estes, os lácteos tradicionais e que aparecem nas prateleiras dos supermercados com adição de whey protein na fórmula. E ainda há espaço para startups como a Mineral Pro, que lançou em fevereiro deste ano a primeira bebida proteica do país, com apenas dois ingredientes: água mineral e whey protein.
Roosevelt Junior, presidente no Brasil da líder mundial em laticínios Lactalis, tem números que ajudam a dimensionar o ritmo da tendência. Os produtos da gigante francesa com whey protein já respondem por 4,8% do faturamento da empresa no país. “Em 2023, esse percentual era de 2,4% e a nossa expectativa é chegar a 7% em 2028”, diz Roosevelt Jr.
Ainda assim, o executivo lembra que o Brasil está longe do patamar americano: 52% do mercado de iogurtes dos Estados Unidos tem alta concentração de proteína. No Brasil, apenas 3%. “O Brasil ainda está engatinhando, temos uma avenida muito grande de oportunidades”, diz. O executivo observa que um dado está ajudando a reforçar o avanço da categoria: as novas diretrizes do Guia Alimentar dos EUA 2025-2030, lançado em janeiro deste ano pelo governo estadunidense.
Proteína está atrelada também a uma questão de beleza física”
Segundo o guia, o indicado é consumir de 1,2 g a 1,6 g de proteína por quilo corporal diariamente - era 0,8 g antes. “Estamos vendo um crescimento de dois dígitos ano a ano no consumo de produtos com proteína nos EUA que deve continuar forte não apenas nos EUA como no mundo todo”, diz Roosevelt Jr.
A disputa pela proteína perdida (seja pela redução de peso ou pelo aumento da idade) entrou em um território que impacta as linhas de produção das indústrias de alimentos e bebidas e discurso do marketing. A narrativa de funcionalidade e saudabilidade ganha força e traz a reboque, não abertamente, a promessa da estética. Poucos assumem isso de forma tão direta quanto Bernardo Melo Bloisi, sócio-fundador da Mineral Pro: “Proteína virou sinônimo de saúde. E, muitas vezes, este consumo não está necessariamente atrelado à saúde, mas a uma questão de beleza física”.
Lançada em fevereiro deste ano, a Mineral Pro se apresenta como a primeira bebida proteica do Brasil com apenas dois ingredientes: água mineral e proteína do soro do leite (desenvolvida na Dinamarca). A proteína usada segue o conceito de “clear whey”, uma formulação mais leve e solúvel, adequada para bebidas transparentes. Com 10 g de proteína a cada 250 ml, a formulação, sem corantes, aromatizantes, açúcar ou carboidratos, é o argumento central da marca.
“O fato de a proteína estar ali pode fazer você consumir um produto que muitas vezes não é saudável, que é cheio de açúcar, extremamente calórico, achando que está consumindo algo saudável porque vai ter PRO e FIT [no rótulo]”, afirma Bloisi. O resultado inicial da Mineral Pro, que pode ser adquirida pelo site oficial da marca ou em grandes plataformas de e-commerce, surpreendeu os próprios fundadores: em pouco mais de seis meses, a empresa vendeu entre 200 e 250 mil unidades e já está no quarto lote de produção, prestes a iniciar o quinto. “A expectativa inicial era terminar o primeiro lote em julho”, diz ele.
Se uma startup com um produto de apenas dois ingredientes já mostra a força dessa demanda, o tamanho do movimento fica ainda mais evidente quando ele chega a um território improvável: a cerveja. A Spaten Pro, lançada pela Ambev em julho deste ano, nasce desse movimento ao oferecer 10 g de proteína a cada lata de 350 ml. É a primeira versão de cerveja sem álcool e com proteína de toda AB InBev e foi desenvolvida pelo centro dei inovação e tecnologia da Ambev, no Rio de Janeiro.
“Quando vemos uma parcela relevante das pessoas mudando seus hábitos e buscando novos atributos, é naturalmente para lá que direcionamos nosso olhar de inovação”, diz Gabriela Gallo, diretora de inovação da Ambev. A Spaten Pro foi a cerveja oficial da Spaten Fight Night 3, evento que reúne boxe, judô e jiu-jitsu e promovido pela marca em gosto.
Na Ambev, o movimento é recente e concentrado em um único lançamento. Na Nestlé, porém, a proteína está se espalhando por boa parte do portfólio. Segundo Gisele Pavin, diretora de nutrição, saúde e bem-estar da Nestlé Brasil, a discussão sobre proteína saiu da bolha dos profissionais de saúde e passou a ocupar as redes sociais, inclusive entre pessoas que usam medicamentos para emagrecer e que buscam opções de fácil digestão e consumo.
A empresa, que até 2024 tinha apenas uma categoria dedicada à proteína, dobrou essa presença no ano seguinte, com lançamentos como o Nescau Protein RTD (15 g de proteína, zero açúcar adicionado e zero lactose), a Nestlé Aveia Farelo com Proteína, o Nescafé Pré-Energy com proteína e novos sabores de whey protein (manga e maracujá) da marca Puravida, adquirida pela companhia há quatro anos. Segundo pesquisa da Nestlé, realizada entre dezembro de 2024 e janeiro de 2025 com 500 pessoas de 18 a 54 anos, 71% já consomem produtos com proteína. O plano da empresa é dobrar o número de categorias proteicas do portfólio até 2028.
A Nestlé também aposta na proteína como parte de uma estratégia de longevidade. Em março de 2026, com investimento de mais de R$ 200 milhões em pesquisa, a Nestlé lançou no Brasil a marca Nestlé Vital, voltada à promoção do envelhecimento saudável a partir dos 40 anos,. O país foi escolhido como o primeiro do mundo para o lançamento, com expansão prevista para Europa e Ásia, com campanha estrelada pela atriz Grazi Massafera.
A proteína, no entanto, não fica restrita a um recorte etário. Segundo Karina Dal Sasso, diretora de marketing da Vigor, o mercado de saudabilidade era marcado por restrição e suplementação pouco palatável, mas o consumidor passou a entender a proteína como parte importante da alimentação diária. A marca acaba de lançar a linha Vigor Grego Protein, um iogurte grego que traz 10 g de proteínas, zero adição de açúcares e zero lactose.
“Estamos acompanhando o caminho percorrido pelo consumidor, que está em busca de mais funcionalidade alimentar”, afirma Dal Sasso. Segundo ela, a proteína atende a esse consumidor intergeracional e “veio para ficar”. Enquanto os 40+ querem manter os músculos em função da sarcopenia (perda da massa muscular em função do envelhecimento), os jovens fazem mais exercícios e estão em busca de uma vida mais saudável.
No ano passado, a Vigor entrou no território da proteína pela indulgência ao lançar o Chips de Parmesão Faixa Azul, marca de queijos do grupo, feito de parmesão desidratado, com 16 g de proteína por pacote.
As informações são do Valor Econômico, adaptadas pela Equipe MilkPoint.
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