O morango do amor, que tomou conta das redes sociais em 2025, mostrou isso de forma bastante clara. A combinação de fruta, brigadeiro e caramelo transformou uma preparação de confeitaria em fenômeno de consumo, movimentando desde pequenas doceiras até grandes redes. A Sodiê Doces, por exemplo, incorporou sua própria versão ao portfólio, feita com morango fresco, brigadeiro de leite condensado e caramelo crocante. No primeiro dia de vendas, a rede comercializou 8 mil unidades.
Agora, pouco mais de um ano depois, o morango voltou ao centro das atenções — mas cravejado. A nova versão mantém a lógica que conquistou o consumidor anteriormente, mas adiciona uma camada de chocolate branco e pedaços de caramelo crocante sobre o brigadeiro branco. E a velocidade com que a tendência ganhou escala chama atenção: segundo dados divulgados pelo iFood, os pedidos do morango cravejado cresceram 1.053 vezes entre 20 e 30 de agosto.
Mais do que uma curiosidade gastronômica, o movimento oferece uma provocação importante para a indústria de lácteos. E se o setor começasse a olhar para esses fenômenos como gatilhos de consumo?
Leite condensado, creme de leite, leite em pó e ingredientes lácteos para confeitaria têm uma característica particularmente interessante nesse cenário: eles não precisam necessariamente criar a tendência para capturar valor dela. Muitas vezes, a oportunidade está em identificar rapidamente quais ingredientes estão no centro de uma receita que ganhou relevância e ajudar o consumidor — profissional ou doméstico — a reproduzi-la.
É uma mudança de perspectiva...
Em vez de trabalhar apenas com o calendário tradicional de consumo — Páscoa, Dia das Mães, festas juninas, Natal —, a indústria pode acompanhar o calendário cultural e digital da alimentação, no qual uma receita pode surgir, viralizar e gerar demanda em questão de dias.
O morango cravejado é quase um estudo de caso perfeito. O doce combina morango, brigadeiro branco, chocolate branco e caramelo, colocando ingredientes lácteos e derivados de leite justamente no centro de uma preparação que nasceu e ganhou escala a partir das redes sociais. E existe ainda uma segunda oportunidade: o efeito porta de entrada.
Quando uma tendência leva o consumidor até uma confeitaria, doceria, cafeteria ou supermercado em busca de determinado produto, aquela visita pode gerar compras adicionais. O cliente chega atrás do doce viral, mas pode sair com outros produtos, experimentar novos sabores, conhecer uma marca ou aumentar seu ticket. Para a indústria, isso significa que o potencial da tendência não necessariamente termina na venda do ingrediente utilizado naquela receita.
Da venda de ingrediente à construção de categoria
Esse é talvez o ponto mais interessante para as empresas de lácteos.
Uma tendência pode ser monitorada como oportunidade de ativação de marca, desenvolvimento de receita, conteúdo, parceria comercial, sampling (distribuição de amostras para o consumidor experimentar um produto), exposição no ponto de venda e até inovação de produto.
E algumas marcas de confeitaria já entenderam que existe valor em se associar diretamente aos fabricantes de ingredientes. O próprio movimento do morango do amor mostrou grandes redes incorporando ingredientes e marcas reconhecidas às suas receitas e criando produtos a partir dessa conversa entre ingrediente + tendência + marca. Para a indústria, isso abre espaço para uma atuação mais próxima do ecossistema da confeitaria.
Quem são os confeiteiros que detectam tendências primeiro? Quais receitas estão crescendo nas plataformas? Quais ingredientes aparecem repetidamente nos vídeos? Que produtos as confeitarias estão procurando para conseguir reproduzir determinado doce em escala? Essas perguntas podem virar inteligência comercial.
A velocidade passa a ser um diferencial
Há, porém, uma questão fundamental: trend não espera ciclo longo de desenvolvimento.
O morango cravejado começou a ganhar força em agosto e, em poucos dias, já estava presente em confeitarias e plataformas de delivery. O interesse pelo termo atingiu o pico no Google em 28 de agosto, enquanto a hashtag já acumulava milhares de vídeos no TikTok e publicações no Instagram. Nesse ambiente, talvez a vantagem competitiva não esteja apenas em ter o melhor produto, mas em ter capacidade de resposta.
Isso pode significar equipes de marketing acompanhando tendências diariamente, áreas de P&D preparadas para testar rapidamente aplicações, estruturas comerciais capazes de ativar clientes e parceiros e, principalmente, uma cultura interna que permita transformar um sinal aparentemente pequeno em oportunidade de negócio.
E qual será o próximo morango?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante. O setor lácteo não precisa tentar adivinhar qual será o próximo doce viral. Precisa estar preparado para reconhecê-lo quando ele aparecer. Porque o morango do amor mostrou que uma tendência de confeitaria pode movimentar ingredientes lácteos em uma escala que vai muito além da ocasião para a qual eles tradicionalmente são associados. O morango cravejado reforça a tese.
E o próximo hype pode estar em uma sobremesa completamente diferente — mas talvez também leve leite condensado, creme de leite, leite em pó, chocolate branco ou algum outro ingrediente que a indústria já produz. A oportunidade, portanto, não é apenas vender mais ingrediente quando o hype acontece. É fazer com que o setor lácteo esteja entre os primeiros a perceber que o hype aconteceu.
O que a indústria pode fazer para capturar a próxima trend?
- Monitorar redes sociais como fonte de inteligência de mercado, e não apenas como canal de comunicação.
- Criar um “radar de tendências” com marketing, P&D, comercial e trade.
- Mapear quais ingredientes aparecem nas receitas que estão crescendo.
- Desenvolver rapidamente receitas, conteúdos e materiais de aplicação para confeiteiros e consumidores.
- Aproximar-se de grandes redes de confeitaria e creators, que muitas vezes funcionam como laboratório de tendências.
- Estruturar collabs com marcas de confeitaria, transformando o ingrediente em parte visível da experiência do consumidor.
- Pensar além do produto viral: como levar o consumidor que entrou pela tendência para outras categorias da marca?
- Medir não só venda incremental do ingrediente, mas também ticket, frequência, experimentação e aquisição de novos consumidores.
O próximo grande momento de consumo de lácteos talvez não esteja no calendário da indústria. Pode estar no feed do consumidor.
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