O movimento em direção ao varejo virou uma das principais frentes de crescimento da companhia. Cerca de 70% do mercado de queijos está concentrado nesse canal, segundo a empresa, uma fatia da qual a Scala historicamente participou pouco. A mudança vem acompanhada de investimentos industriais, aquisição de fábricas e de uma meta ambiciosa: faturar mais de R$ 2 bilhões em 2026, um crescimento de dois dígitos, e dobrar de tamanho até 2030.
A companhia hoje possui sete fábricas, entre Minas Gerais e Rio Grande do Sul, capacidade para processar mais de 1 milhão de litros de leite por dia e cerca de 1.700 funcionários diretos, considerando também a força exclusiva de merchandising. “É uma marca que está nos bastidores. Então muita gente não conhece”, diz Maria Eugenia Soares Cerchi, diretora administrativa e membro do conselho de administração da Scala.
Para onde a Scala quer ir
A origem desse relativo anonimato ajuda a explicar a estratégia atual. A Scala cresceu principalmente atendendo outras empresas, o chamado B2B (business to business). Sua mussarela, um dos primeiros produtos da casa ao lado da manteiga e do parmesão, foi desenvolvida ao longo dos anos em diálogo com pizzarias tradicionais de São Paulo.
Segundo Cerchi, clientes como as pizzarias Camelo e Esperanza testavam o produto e apontavam características importantes para a operação: o queijo não poderia, por exemplo, ficar borrachudo depois de esfriar ou soltar óleo dentro da embalagem durante uma entrega. A equipe voltava à fábrica, ajustava o produto e enviava novamente. “Muita gente come pizza com mussarela Scala sem saber que está comendo Scala”, afirma Cerchi.
Nos últimos anos, a empresa passou a olhar com mais atenção para o outro lado do balcão. Em 2025, os produtos vendidos ao consumidor final representavam 25% das vendas e estabelecia como objetivo elevar essa participação a 30% até o fim de 2027. Naquele momento, também buscava ampliar sua presença em atacarejos.
A estratégia exigiu mais do que colocar produtos em novas prateleiras. A empresa fez um rebranding, pesquisou consumidores e clientes B2B e criou um projeto interno que analisou a jornada de compra nos diferentes canais. O trabalho levou cerca de três anos e envolveu diversas áreas da companhia.
O resultado já aparece nas vendas. Segundo Cerchi, os canais de atacado e varejo cresceram dois dígitos nos últimos três anos.
Qual é a estrutura da Scala hoje
A expansão comercial acontece ao mesmo tempo em que a Scala aumenta a estrutura de produção. No ano passado, a companhia comprou o Laticínio Deale, no Rio Grande do Sul, acrescentando duas unidades fabris à operação. Com a aquisição, passou a contar com sete fábricas: quatro em Sacramento, sendo três de laticínios e uma de nutrição animal; uma unidade de laticínios em Salitre de Minas, também em Minas Gerais; e as duas fábricas gaúchas.
A marca adquirida será mantida. Segundo Cerchi, a força regional da Deale justifica a convivência com a Scala no mercado do Sul. A compra também ajuda a aproximar a empresa da meta definida para o fim da década. Com a nova estrutura, a capacidade instalada supera 1 milhão de litros de leite por dia. “Com isso, a gente avança bastante rumo a esse objetivo de dobrar de tamanho até 2030”, afirma Cerchi.
O salto é relevante diante do tamanho que a companhia tinha pouco tempo atrás. Em 2024, a Scala registrou receita de R$ 1,4 bilhão. No ano seguinte, trabalhava com a meta de ultrapassar R$ 1,5 bilhão e já estruturava sua operação para chegar a um processamento diário de 1,4 milhão de litros até 2030. Agora, a previsão para 2026 já é superar a marca de R$ 2 bilhões.
Como a Scala nasceu e cresceu
A história começou longe das gôndolas dos grandes supermercados. A Scala foi fundada em 1963, em Sacramento, município mineiro próximo à Serra da Canastra. O fundador, conhecido como Nino, era um imigrante italiano que chegou ao Brasil com a mãe viúva e quatro irmãos, depois de fugir da guerra. Antes de entrar no setor de laticínios, trabalhou em diferentes atividades, entre elas padaria e restaurante. Depois de juntar dinheiro, comprou uma pequena fábrica de manteiga. O negócio se transformaria na Scala.
Hoje, a terceira geração da família participa da empresa. Cerchi é neta do fundador, enquanto a gestão executiva continua nas mãos da família. Ao mesmo tempo, a companhia vem profissionalizando sua estrutura de governança.
Os fóruns de governança começaram a ser organizados há mais de 20 anos. O conselho de administração, inicialmente consultivo, tornou-se deliberativo; também foi criado um conselho de sócios. Mais recentemente, a empresa incorporou conselheiros independentes — atualmente são três.
A orientação, segundo Cerchi, sempre foi impedir que o negócio crescesse mais rápido do que sua capacidade de gestão. É uma filosofia que ela resume a partir da ideia da “marcha das 20 milhas”, popularizada pelo autor Jim Collins: crescer de maneira constante, sem acelerar de forma desordenada nos períodos favoráveis e preservando estrutura para atravessar momentos difíceis.
Investimentos fora da linha de produção
Parte dos recursos empregados na expansão não vai diretamente para produzir mais queijo. A Scala investiu R$ 50 milhões em uma estação de tratamento de efluentes capaz de produzir biometano.
Em 2025, o BNDES havia aprovado R$ 64,7 milhões em financiamento do Fundo Clima para a implantação da nova estrutura em Sacramento. O projeto foi dimensionado para tratar 2.500 metros cúbicos de efluentes por dia e sustentar a expansão prevista até 2030.
A companhia também diz manter aproximadamente 350 hectares de florestas plantadas e compensar, por meio de reciclagem, volume equivalente a 110% das embalagens que coloca no mercado. São investimentos que correm em paralelo à expansão da capacidade e à ofensiva comercial.
As informações são da Exame, adaptadas pela Equipe MilkPoint.
E tem mais: Maria Eugenia Soares Cerchi estará no Dairy Vision 2026! A executiva será uma das palestrantes do evento e vai compartilhar o case “Collabs: +Mu e Scala”, mostrando como parcerias podem gerar valor e abrir novos caminhos para os lácteos. O evento ocorrerá nos dias 27 e 28 de outubro, no Bourbon Resort Atibaia/SP. Saiba mais aqui: https://www.dairyvision.com.br/