Esse movimento foi apresentado nesta terça-feira (1º), durante o 2º Summit de Nutrição Verde Campo, realizado na Casa Petra, em Moema, São Paulo. O evento reuniu nutricionistas, profissionais de educação física e outros especialistas da área da saúde para discutir temas relacionados à nutrição, comportamento e às transformações na prática profissional. A equipe do MilkPoint participou do encontro. Na abertura, Jéssica Alves, Supervisora de Qualidade da Verde Campo, destacou a proposta de reunir diferentes profissionais e convidados em torno de discussões relacionadas à alimentação e à saúde.
De pioneira no zero lactose à aposta em proteína
A história da Verde Campo começou em 1999, mas alguns dos principais movimentos da marca ajudam a explicar o posicionamento atual. Segundo Larissa Souza, Coordenadora de Marketing da empresa, a Verde Campo foi pioneira no Brasil em iogurtes zero lactose e proteicos.
Em 2011, a empresa chegou ao mercado sem lactose e, em 2018, retirou os conservantes de seus produtos, passando a trabalhar também com aromas e corantes naturais. A companhia afirma ainda que o termo LacFree foi criado pela própria Verde Campo.
A trajetória também inclui a aquisição pela Coca-Cola e, posteriormente, em 2024, pela Emmi. Atualmente, a Verde Campo integra o grupo global ao lado da Porto Alegre. Em 2025, a empresa lançou shakes 100% whey protein e uma sobremesa proteica, além de ter conquistado, no Minas Láctea, o reconhecimento de melhor cottage.
Hoje, a empresa conta com uma fábrica em Lavras (MG), com 10 mil metros quadrados de área fabril, 640 colaboradores, 84 produtos, presença em mais de 10 mil lojas e parceria com mais de 130 produtores de leite, todos de Minas Gerais. A marca também destaca sua força nas redes sociais e afirma ser a marca de lácteos mais seguida do Brasil no Instagram. A base dessa operação, porém, continua sendo o leite.
“Nosso produto é incrível porque nosso leite também é.”
A frase resume uma das mensagens apresentadas no encontro. No desenvolvimento dos produtos, a empresa afirma utilizar leite fresco em suas formulações e investir em processos de captação, padronização e controle, além de práticas relacionadas ao bem-estar animal. A companhia também destacou a relação com os produtores e a bonificação como parte da estratégia para estimular matérias-primas de qualidade.
Um novo rosto para uma mesma essência
A mudança de posicionamento da Verde Campo também passa pela identidade da marca. Lorena Andrade, Gerente de Marketing da empresa, apresentou o processo de rebranding, que acompanhou a expansão do portfólio. A comunicação passou por diferentes fases: de “nada além da natureza”, entre 2017 e 2020, para “sua escolha natural”, entre 2020 e 2023, e depois “felizmente saudável”, de 2023 a 2024.
Agora, a empresa chega a uma nova identidade visual, com mudanças de fonte e aplicação, mas mantendo sua essência. Uma das prioridades é destacar nas embalagens a quantidade de proteínas e colocar no topo dos produtos a principal promessa da marca: ingredientes de origem natural. As novas embalagens já começaram a chegar aos pontos de venda, em um processo gradual de transição.
O selo que coloca os nutricionistas no centro
Mas talvez uma das novidades mais simbólicas apresentadas no Summit esteja justamente nas embalagens: o selo “a marca mais recomendada por nutricionistas”. De acordo com a Verde Campo, a afirmação é resultado de uma pesquisa realizada com profissionais que avaliaram a marca entre outras sete ou oito opções. A Verde Campo teria aparecido como a marca mais prescrita pelos nutricionistas entrevistados. O selo é consequência de uma estratégia que vem sendo construída há quase uma década.
Lorena Andrade, em entrevista exclusiva à MilkPoint, reforça a importância do reconhecimento e como isso foi transportada para a nova identidade visual: "vencemos a pesquisa da agência E4 há três anos consecutivos. Então, como somos a marca de lácteos mais recomendada por nutricionistas, por que não contar isso nas nossas embalagens? A nossa embalagem é a vitrine da nossa marca, é onde o consumidor vai olhar e vai querer conhecer mais sobre o produto, sobre a marca, sobre os benefícios. Por que não reforçar que a gente é a marca mais recomendada? Eu garanto que se você for hoje em uma consulta de nutricionista, seu plano alimentar vai ter um produto Verde Campo."
A aproximação com os nutricionistas começou em 2017, quando a empresa passou a questionar como poderia deixar de ser apenas uma fornecedora de produtos para se tornar uma verdadeira parceira desses profissionais. Inicialmente, a Verde Campo enviava produtos para nutricionistas e observava a receptividade. Depois, percebeu que precisava ouvir mais diretamente esses profissionais.
Em 2018, começaram as visitas presenciais, nas quais a equipe levava produtos e coletava opiniões sobre proteínas, preferências dos consumidores e necessidades observadas nos consultórios. Com a pandemia, em 2020, a relação migrou também para o ambiente digital, com conteúdos exclusivos. Em 2021, nutricionistas passaram a atuar como influenciadoras da marca e, em 2023, começaram a participar diretamente da inovação, inclusive em desenvolvimento de produtos e claims de embalagem.
Em 2025, veio uma estratégia “phygital”, combinando ações online e presenciais. Em 2026, a empresa ampliou o Espaço Nutri para outros profissionais de saúde, retomou visitações online, promoveu eventos regionais e chegou à segunda edição do Summit de Nutrição.
A ideia, segundo a empresa, é ouvir não apenas nutricionistas, mas também médicos, fisioterapeutas, educadores físicos e outros profissionais. “O Espaço Nutri não é só uma plataforma sobre produtos, é uma plataforma sobre pessoas.”
Proteína deixou de ser nicho
A estratégia ganha ainda mais força diante do crescimento da categoria de proteínas. Lorena apresentou dados de pesquisa realizada no Brasil indicando que os consumidores buscam proteínas principalmente associadas à saúde, equilíbrio e nutrição adequada. Para a Verde Campo, esse movimento representa uma oportunidade que vai muito além da categoria tradicional de produtos proteicos.
A empresa quer ocupar diferentes territórios de consumo, incluindo indulgência, força e vitalidade, controle, energia física e aparência. Ao mesmo tempo, observa o avanço dos espaços dedicados aos alimentos proteicos nos supermercados e atacarejos, com aumento de mix e exposição nas lojas.
É nesse contexto que entram os lançamentos e os produtos em desenvolvimento. “Não queremos desenvolver para as nutricionistas, queremos desenvolver com as nutricionistas”. A frase de Maria Alice Oliveira Silva, analista de Produto da Verde Campo, talvez seja uma das melhores sínteses da estratégia apresentada no evento.
Em sua apresentação “Do consultório ao produto: como a nutrição pode transformar a inovação em alimentos?”, ela mostrou como a indústria tenta transformar necessidades identificadas pelos profissionais em produtos capazes de chegar efetivamente à rotina do consumidor.
É justamente nesse ponto que a cocriação com as nutricionistas ganha força: a indústria não quer simplesmente apresentar um produto pronto para receber aprovação ou recomendação. A proposta é trazer essas profissionais para mais perto do desenvolvimento, usando suas experiências, percepções e contato com os consumidores como parte da construção da inovação.
O desafio está justamente em equilibrar quatro dimensões: um produto precisa ser nutricionalmente relevante, sensorialmente desejável, tecnologicamente possível e acessível ao consumidor.
Para o profissional de saúde, entram critérios como bom perfil nutricional, quantidade e qualidade das proteínas, menor quantidade de açúcar, praticidade e transparência no rótulo. Para a indústria, o desafio é transformar essas demandas em produtos que também funcionem em sabor, textura, estabilidade e produção.
A ciência por trás do sabor
A apresentação também mostrou que escolhas aparentemente simples escondem desafios tecnológicos importantes.
Um deles é o dulçor. A Verde Campo optou pela estévia, citando como um dos motivos a busca por melhor tolerância intestinal. Uma pesquisa realizada pelo Espaço Nutri apontou que 41,1% dos participantes consideravam esse tipo de adoçante em suas prescrições. O desafio, entretanto, foi encontrar uma linhagem de estévia capaz de entregar uma experiência sensorial próxima daquilo que o consumidor espera, já que diferentes moléculas podem produzir residual, amargor e alterações na curva de dulçor.
Outro ponto é a ausência de conservantes. A empresa afirma trabalhar com produtos sem conservantes e ingredientes de origem natural, utilizando equipamentos de alta tecnologia para garantir a segurança dos alimentos.
Na proteína, o desafio é duplo. Do ponto de vista nutricional, entram fatores como perfil de aminoácidos essenciais, disponibilidade, quantidade consumida e contexto da alimentação. No desenvolvimento, é necessário trabalhar textura, viscosidade, sabor e estabilidade.
Em mais uma pesquisa realizada por meio do Espaço Nutri apresentada durante o evento, os atributos mais associados à qualidade da proteína foram boa digestibilidade (84,6%), alto valor biológico (83,1%) e perfil completo de aminoácidos (65,2%).
A2A2, lactose e novas necessidades
A evolução das demandas dos consumidores também vem direcionando o portfólio. A Verde Campo citou necessidades relacionadas à intolerância à lactose, saúde intestinal e sensibilidade à beta-caseína A1. Nesse último caso, a empresa trabalha no desenvolvimento de produtos com leite A2A2 e também com produtos contendo apenas a beta-caseína A2. A linha apresentada inclui versões nos sabores mel, morango e natural.
E quando o consumidor quer um doce depois do almoço?
A resposta veio em forma de sobremesa sem açúcar, com baixa caloria e maior participação de proteína. Uma nova versão sabor doce de leite foi apresentada para degustação durante o próprio Summit e está prevista para chegar ao mercado em setembro. Mais do que apresentar o produto pronto, a empresa aproveitou o evento para captar feedback dos profissionais e do time de P&D (pesquisa e desenvolvimento).
Segundo a Gerente de Marketing Lorena Andrade, o lançamento da versão da Sobremesa Láctea Cremosa Sabor no sabor doce de leite acompanha o sucesso do sabor de chocolate, que buscam suprir o desejo por uma sobremesa que combine saudabilidade e indulgência. "É um produto maravilhoso, com um dulçor, aquele docinho do dia que você precisa e que, agora, é um docinho saudável. Estamos muito ansiosos para lançarmos esse produto no mercado."
O consumidor ajudando a escolher o próximo lançamento
A lógica de cocriação foi além da sobremesa.
Antônio Maciel, do time de P&D da Verde Campo, apresentou produtos que ainda não chegaram ao mercado e convidou os participantes a ajudar na escolha dos próximos lançamentos. Entre as possibilidades estão kefir nos sabores mel ou manga e iogurte de café, com versões de 21 g ou 15 g de proteína. A avaliação foi realizada por meio de QR Code, permitindo que os participantes fizessem uma análise sensorial dos produtos. A proposta é identificar os “campeões” a partir das avaliações e levar os produtos vencedores ao mercado.
Ou seja: a inovação não terminou no palco. Ela aconteceu dentro do próprio evento — com os profissionais ajudando a construir o que pode chegar à gôndola.
Da prescrição à aderência
A discussão sobre alimentação, porém, não ficou restrita aos produtos. Ricardo Lapa, profissional de educação física, empresário, especialista em performance e treinamento físico, fundador da Boom Fit Club e criador do método Lapa Team, falou sobre o papel do profissional diante de um consumidor cada vez mais exposto à desinformação. Para ele, a formação profissional importa mais do que nunca, mas conhecimento técnico isolado não garante resultado. O melhor protocolo no papel não funciona se não houver aderência.
Nesse cenário, o profissional precisa conhecer seu aluno ou paciente e combinar conhecimento técnico, comportamento, comunicação, experiência, tecnologia e visão de negócio. A proposta é transformar a recomendação em algo aplicável à vida real, considerando conveniência, personalização, flexibilidade, experiência, comunidade e resultado. A discussão dialoga diretamente com a estratégia da Verde Campo: não basta desenvolver um alimento nutricionalmente adequado se ele não conseguir entrar na rotina do consumidor.
De produtos saudáveis para uma rotina mais saudável
A ideia também aparece no discurso do CEO da Verde Campo, Fábio Ferreira. Segundo ele, o elemento mais importante da empresa são as pessoas. Mais do que construir narrativas de marca, a proposta precisa começar em quem vive a Verde Campo no dia a dia.
Ferreira contou que uma experiência pessoal de saúde o levou a rever hábitos e adotar acompanhamento nutricional, atividade física, maior consumo de água e melhora do sono. A mudança, segundo ele, alterou sua própria percepção sobre alimentação e reforçou sua identificação com o propósito da empresa.
Esse posicionamento aparece também em iniciativas como o selo de suporte nutricional GLP-1, criado pela empresa para estabelecer uma conversa sobre praticidade e a combinação de proteínas, fibras e vitaminas em produtos voltados a esse contexto. A comunicação, segundo Ferreira, busca apresentar o alimento e aquilo que ele pode oferecer dentro de uma rotina alimentar. A mensagem central é clara: a Verde Campo não quer desenvolver apenas produtos mais saudáveis, mas ajudar a construir uma rotina mais saudável.
É daí que nasce o movimento Viver Verde Campo, baseado em três pilares: atividade física regular, bem-estar mental e hábitos alimentares saudáveis. A empresa também relaciona o movimento ao ambiente interno, incentivando colaboradores a se movimentarem mais e cuidarem da saúde emocional.
No fim, a estratégia apresentada no Summit parece apontar para uma mudança importante na forma de pensar a indústria de alimentos: o produto deixa de ser o ponto final da inovação e passa a ser parte de uma conversa maior sobre comportamento, saúde e adesão.
E, nessa conversa, a Verde Campo quer que o nutricionista esteja não apenas diante da gôndola, escolhendo o que recomendar, mas também dentro da sala onde o próximo produto começa a ser pensado — em um processo de cocriação cada vez mais próximo entre indústria e profissionais de saúde.