Na prática, as pessoas se transformam quando enfrentam dores, enxergam oportunidades, acreditam na própria capacidade ou observam resultados práticos em seus pares. Nesse contexto, Arantes direcionou a responsabilidade para o topo do organograma, destacando que o "seu problema não está na sua equipe, seu problema está na sua gestão" e advertindo que "se a liderança não mudar, a equipe vai piorar".
A partir desse diagnóstico, torna-se necessário diferenciar a gestão da liderança propriamente dita. A gestão estrutura metas, políticas e procedimentos, enquanto a liderança mobiliza propósito, inovação e sucessão. Segundo Arantes, "o mundo precisa de líderes" capazes de dar o exemplo prático.
Essa postura se torna ainda mais determinante diante da chegada da Geração Z às fazendas. Esses trabalhadores valorizam o diálogo e a transparência, rejeitando ordens sem lógica. Consequentemente, o papel do gestor não é forçar adaptações a modelos antigos, mas integrar o conhecimento das diferentes gerações.
Para sustentar essa integração, a atuação do líder depende de clareza, rotina e acompanhamento constante, além de pleno controle pessoal. Conforme observou Arantes, "o líder precisa evitar desequilíbrios emocionais", pois a falta de controle abala a confiança do time. Além disso, ao instigar a autonomia do operador, o gestor fortalece a rotina diária, lembrando que "pessoas inteligentes fazem perguntas".
Essa visão também redefine a seleção de pessoal, na qual o período de 90 dias de experiência deve funcionar como avaliação rigorosa. Para Arantes, "a maioria dos gestores acham que o problema é ‘falta gente boa’, mas na prática falta liderança que desenvolva ‘gente comum’."
Essa teoria sobre o fator humano encontra validação na prática da Granja São Paulo, em Erechim, Rio Grande do Sul. Gerida por Allan Tormen, a propriedade produz 8 mil litros de leite por dia com 173 vacas em lactação e conta com 16 colaboradores, todos com menos de 38 anos. Tormen sintetizou a relevância do time ao pontuar que "quem coloca o leite no tanque nas fazendas não são as vacas, são as pessoas".
No entanto, alcançar esse modelo exigiu uma mudança estrutural. Após enfrentar crises de faturamento e dificuldades de contratação em 2017, Tormen reestruturou o negócio em 2019 ao buscar a disciplina e as metodologias aplicadas por fazendas prósperas.
Essa virada ocorreu por meio da aproximação com os operadores e do alinhamento constante dos processos, garantindo os meios necessários para a execução das tarefas e a eliminação de dúvidas. Com essa base consolidada, Tormen reforçou que "indicadores de sucesso são consequência da excelência operacional." Ele destacou que a sustentabilidade financeira depende da liquidez no caixa e do foco no propósito do negócio. Essa resiliência foi testada em 2024, quando enfrentou desafios pessoais e manteve a operação encorajado pelo conselho de seu pai: "não podemos parar, está dando certo".
Embora a gestão humana e a disciplina operacional sejam a fundação do negócio, a escala dessas práticas exige eficiência no uso do tempo. Foi esse o elo estabelecido por Cristian Martins, da Rúmina, ao abordar a gestão conversacional via inteligência artificial. Martins questionou a complexidade na tomada de decisão quando os dados já estão disponíveis na fazenda. Por meio de softwares como o Ideagri Pro e o sistema Rúmi, a automação reduz em 74% o tempo gasto na digitação e análise de informações, permitindo que a equipe direcione esforços para o planejamento estratégico e para a gestão do time.
A integração desses três pilares culminou no debate final do painel. Questionado sobre os desafios do recrutamento em cenários de escassez, Tormen comparou a contratação à escolha de produtos no supermercado, enfatizando que a seleção deve ocorrer sem a pressão da urgência. Arantes acrescentou que a avaliação da equipe precisa ser contínua para desligar perfis desalinhados à cultura da empresa, citando o uso ativo de redes sociais para atração de talentos. Por fim, Martins reiterou que a inteligência artificial não substitui a liderança humana, mas elimina o ruído operacional e as planilhas desencontradas, garantindo o tempo necessário para que a liderança exerça seu papel no campo.
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