Todo programa de controle de mastite começa pela mesma pergunta: quais bactérias estão infectando essas vacas? A resposta orienta o que vem depois. Se o desafio é contagioso, a ação está na ordenha — separação de lotes, linha de ordenha, ajuste de equipamento, procedimento. Se é ambiental, a ação está na cama, na lotação e, principalmente, na secagem dos tetos antes da colocação das teteiras. Errar esse diagnóstico custa tempo e dinheiro corrigindo algo que não é o problema real.
Faltava, até agora, um retrato mais amplo. Já se conhece o perfil de agentes de fazendas isoladas, mas há poucos levantamentos brasileiros que mostrem, com um número grande de rebanhos, o que de fato está circulando. Dois trabalhos internacionais recentes ajudam a preencher essa lacuna em seus respectivos países: Fonseca e colaboradores (2026) estimaram a prevalência de patógenos em 340 rebanhos canadenses por PCR de tanque, e Fuenzalida e colaboradores (2026) caracterizaram os agentes da mastite subclínica em 14 rebanhos de Wisconsin com CCS de tanque baixa. São essas as referências naturais para a comparação que fazemos aqui.
A Clínica do Leite analisa amostras de leite por PCR há três anos, de forma semelhante ao que fazem laboratórios dos Estados Unidos, do Canadá e da Suíça. Entre maio de 2023 e agosto de 2026 foram 20.093 amostras, de até 201 fazendas por mês, sempre com o leite dos quatro quartos em conjunto ou do tanque. A maior parte foi analisada no painel que investiga quinze patógenos associados à mastite; rebanhos com histórico definido de agentes contagiosos usam um painel reduzido de quatro. O resultado de cada agente é um valor de Ct (cycle threshold, ou limiar de ciclo), que a Clínica converte em níveis de carga segundo seus próprios limites de referência.
O texto a seguir mostra o que essas amostras revelam, compara os números com Canadá e Estados Unidos e discute o que isso significa na rotina da fazenda.
Antes dos números: o que exatamente se está contando
Prevalência parece um conceito simples, mas o número muda conforme o denominador, e essa é a principal armadilha ao comparar levantamentos. Contando por amostra, uma fazenda que envia 40 amostras pesa quarenta vezes mais que uma que envia apenas uma — o resultado passa a descrever o movimento do laboratório, não as fazendas.
Os levantamentos publicados seguem outro desenho: uma coleta por rebanho, valendo cada rebanho igualmente. Para comparar com eles, recalculamos os nossos números por fazenda, considerando apenas a coleta mais recente de cada uma dentro do período. É essa a base dos números a seguir: últimos doze meses, de setembro de 2025 a agosto de 2026, com 663 fazendas no tanque e 325 em amostras de vaca. Foi considerada positiva a amostra com carga acima do limite de corte adotado pela Clínica.
A diferença não é só formalidade estatística. No nosso caso, Staphylococcus aureus aparece em 17,5% das amostras de tanque, mas em 26,8% das fazendas — o aureus está espalhado por muitas fazendas que enviam poucas amostras, e a contagem por amostra o fazia parecer menos frequente do que realmente é.
O perfil de agentes nos rebanhos brasileiros
A tabela 1 traz a porcentagem de fazendas positivas para cada agente, no tanque e em amostras de vaca, ao lado das estimativas canadense (rebanhos do Québec, tanque) e americana (quartos com mastite subclínica, Wisconsin).
Tabela 1. Porcentagem de fazendas positivas por agente (Clínica do Leite, set/2025 a ago/2026), comparada às estimativas de Fonseca et al. (2026), Québec, e Fuenzalida et al. (2026), Wisconsin. Os denominadores diferem entre os estudos — ver texto.
|
Agente |
Tanque (%) |
Vaca (%) |
Canadá (%) |
Wisconsin (%) |
|---|---|---|---|---|
|
Staphylococcus não aureus |
38,5 |
40,2 |
— |
26,5 |
|
Streptococcus uberis |
36,5 |
24,6 |
41,2 |
1,1 |
|
Streptococcus dysgalactiae |
31,8 |
21,4 |
13,7 |
1,1 |
|
Streptococcus agalactiae |
27,8 |
19,4 |
2,1 |
0,0 |
|
Escherichia coli |
27,2 |
35,8 |
3,9 |
1,6 |
|
Staphylococcus aureus |
26,8 |
21,5 |
56,4 |
3,3 |
|
Enterococcus spp. |
23,8 |
30,1 |
— |
8,8 |
|
Levedura |
16,3 |
22,3 |
— |
4,9 |
|
Prototheca spp. |
11,3 |
9,6 |
3,1 |
1,3 |
|
Klebsiella spp. |
8,8 |
11,8 |
1,6 |
— |
|
Mycoplasma spp. |
7,7 |
6,6 |
1,6 |
— |
|
Mycoplasma bovis |
2,1 |
4,0 |
0,3 |
— |
O primeiro ponto de concordância entre os estudos é o Streptococcus uberis: está em 36,5% das nossas fazendas no tanque e em 41,2% das canadenses. São dois países, populações diferentes, e um número muito próximo — o que dá alguma confiança de que as metodologias estão comparáveis, e portanto de que as divergências a seguir são reais.
A divergência mais evidente está no Streptococcus agalactiae: 27,8% das nossas fazendas no tanque, contra 2,1% no Québec e nenhum isolado nos 453 quartos de Wisconsin. A explicação mais provável é que os rebanhos norte-americanos já erradicaram o agente, enquanto os brasileiros ainda convivem com ele. Algo parecido, em grau menor, acontece com Mycoplasma spp. e Prototheca: a América do Norte parece descrever um cenário pós-controle dos contagiosos, e nós ainda estamos na fase de controle.
O Staphylococcus aureus inverte essa lógica. Nossos 26,8% no tanque são bem menores que os 56,4% estimados para o Québec; já em amostras de vaca, o quadro se aproxima do inverso — 21,5% das fazendas positivas contra 3,3% dos quartos de Wisconsin. As populações comparadas não são exatamente as mesmas em cada caso, então o que os dados permitem afirmar é que o aureus circula menos nos tanques dos nossos clientes que nos tanques canadenses, e mais nas vacas dos nossos clientes que nas vacas dos rebanhos americanos de CCS baixa.
Ambientais em excesso: o que o número está realmente medindo
Escherichia coli aparece em 27,2% das fazendas no tanque e em 35,8% nas amostras de vaca. No Canadá a estimativa é de 3,9%; em Wisconsin, todos os Gram-negativos somados deram 1,6%. A diferença é grande demais para ser explicada só pela técnica de detecção, mesmo levando em conta que o PCR detecta DNA de bactéria morta e a cultura não, e que o leite de vaca com mastite clínica costuma ser descartado antes de chegar ao tanque.
A explicação mais provável é a que o próprio trabalho canadense sugere: microrganismos de reservatório ambiental — E. coli, Klebsiella, Prototheca, Streptococcus uberis, Streptococcus dysgalactiae — podem aparecer no leite por contaminação durante a ordenha, incluindo limpeza inadequada do teto, sem que haja infecção intramamária instalada. Já os agentes adaptados ao hospedeiro, como o aureus, o agalactiae e o Mycoplasma, quando detectados, têm maior chance de refletir uma infecção verdadeira.
Essa é a leitura que costumamos adotar em campo. Uma detecção alta de ambientais no PCR indica, antes de mais nada, que a teteira está sendo colocada em teto úmido ou sujo, e a correção passa por secar os tetos vigorosamente antes de colocar as teteiras, com um pano ou papel por vaca — não por tratamento. Já a presença de contagiosos costuma apontar para tetos erodidos (hiperqueratose) e para o esfíncter que permanece aberto logo depois da ordenha; os dois problemas vêm de equipamento desregulado e de procedimento inadequado de ordenha, e é aí que a correção precisa acontecer.
Vale lembrar que a divisão entre contagioso e ambiental não é rígida: bactérias classificadas como ambientais às vezes se comportam como contagiosas, transmitindo-se de vaca para vaca durante a ordenha. O exemplo mais comum é o Staphylococcus não aureus, que vive na pele do teto mas também circula entre vacas.
Uma ressalva importante vem do trabalho de Wisconsin: Lactococcus spp. respondeu por 6,8% dos casos de mastite subclínica naquele estudo, mais que os estreptococos ambientais. Esse gênero costumava ficar escondido dentro da categoria “ambientais” nos métodos fenotípicos, e nosso painel atual não o investiga. Se o achado se confirmar em outros trabalhos, trata-se de uma lacuna real no nosso monitoramento.
O que a CCS enxerga e o que ela não enxerga
Usamos as amostras em que havia CCS coletada na mesma data — cerca de 83% das amostras de vaca — para cruzar as duas informações. O resultado está na tabela 2.
Tabela 2. CCS mediana (mil células/mL) das amostras de vaca conforme o agente tenha sido detectado ou não, maio/2023 a agosto/2026.
|
Agente |
CCS não detectado (mil/mL) |
CCS detectado (mil/mL) |
|---|---|---|
|
Trueperella pyogenes |
618 |
1.604 |
|
Mycoplasma spp. |
608 |
1.204 |
|
Streptococcus uberis |
494 |
980 |
|
Staphylococcus aureus |
489 |
878 |
|
Streptococcus agalactiae |
501 |
836 |
|
Escherichia coli |
572 |
754 |
|
Staphylococcus não aureus |
626 |
622 |
|
Enterococcus spp. |
630 |
598 |
Os agentes de maior risco dobram a CCS quando detectados. No Staphylococcus aureus, a CCS mediana sobe conforme a carga: 489 mil quando não detectado, 704 mil na carga média, 1.422 mil na carga alta e 2.806 mil na carga muito alta. Já o Staphylococcus não aureus e o Enterococcus praticamente não movem a CCS — 622 contra 626 mil no primeiro caso, e 598 contra 630 mil no segundo. Isso sugere que boa parte dessas detecções é colonização da pele do teto e contaminação de coleta, não infecção instalada — um achado que coincide com o de Wisconsin, onde as menores CCS de quarto apareciam justamente nas amostras sem crescimento e nas de Staphylococcus não aureus.
Um ponto merece atenção especial de quem usa a CCS do tanque como termômetro do rebanho. Separando as fazendas por faixa de CCS de tanque, o Streptococcus uberis sobe de 18,9% de positividade nos tanques abaixo de 200 mil para 60,3% na faixa de 500 a 1.000 mil. Os contagiosos sobem muito menos: aparecem em tanques de CCS baixa quase na mesma frequência que em tanques de CCS alta, porque ficam concentrados em poucas vacas e não chegam a levantar a média do tanque enquanto não estiverem bem espalhados. Um tanque com CCS controlada, portanto, não é evidência de ausência de contagioso.
Uma coleta não basta
O aureus é eliminado de forma intermitente no leite, e o tanque dilui essa eliminação — uma única análise tende a subestimar o problema. Conseguimos medir esse efeito comparando a última coleta de cada fazenda com o resultado acumulado de doze meses (tabela 3).
Tabela 3. Porcentagem de fazendas positivas no tanque considerando apenas a última coleta e considerando qualquer coleta nos doze meses.
|
Agente |
Uma coleta (%) |
12 meses (%) |
Diferença (p.p.) |
|---|---|---|---|
|
Staphylococcus aureus |
26,8 |
44,6 |
+17,8 |
|
Streptococcus uberis |
36,5 |
59,0 |
+22,5 |
|
Streptococcus agalactiae |
27,8 |
37,7 |
+9,9 |
|
Mycoplasma bovis |
2,1 |
5,3 |
+3,2 |
Uma coleta única deixa passar quase metade das fazendas que têm Staphylococcus aureus. É por isso que, no protocolo da Clínica do Leite, a ausência de aureus no rebanho só é declarada depois de três análises de PCR do leite do tanque dentro do mesmo mês. O mesmo vale para o Mycoplasma bovis, cuja prevalência mais que dobra entre uma coleta e várias.
Isso também sugere algo sobre os dados canadenses: a prevalência real nos rebanhos daquele país provavelmente é maior do que a estimada, já que o levantamento usou apenas uma coleta por rebanho — limitação que os próprios autores reconhecem.
O que fazer com esses números
O retrato geral é de fazendas em que os contagiosos continuam sendo o desafio central — agalactiae e aureus em patamares que a América do Norte já superou — somado a uma pressão ambiental relevante que, em boa parte, tem origem na própria rotina de ordenha.
Daí decorrem duas frentes de trabalho, que precisam andar juntas: conter a transmissão durante a ordenha (identificar as vacas infectadas, separá-las em lotes, ordenhá-las por último, e corrigir o que produz hiperqueratose e esfíncter aberto; regulagem do equipamento, tempo entre estímulo e colocação das teteiras e sobreordenha) e reduzir a exposição ambiental, que começa na secagem vigorosa dos tetos e passa pela qualidade da cama, lotação e ventilação.
Na prática, o caminho que seguimos começa pelo leite do tanque, que a um custo baixo já indica se o desafio é contagioso ou ambiental. Confirmado o desafio contagioso, a triagem do rebanho pode ser feita em amostras agrupadas de vacas, com o tamanho do grupo definido pela prevalência esperada — o que reduz bastante o número de análises necessárias. As vacas dos grupos positivos são então investigadas individualmente, para que a separação em lotes e as decisões sobre cada animal sejam tomadas com nome e número. O monitoramento segue depois pelo tanque e pelas vacas recém-paridas e de novas infecções.
Acima de tudo, os números reforçam a necessidade de medir antes de agir. Um rebanho não é a média do país, e o valor de um levantamento como este está menos em dizer ao produtor de leite qual é o seu problema e mais em mostrar que o problema varia de fazenda para fazenda — e que investir em diagnóstico custa bem menos do que corrigir o processo errado durante meses.
Gostou do conteúdo? Deixe seu like e seu comentário, isso nos ajuda a saber que conteúdos são mais interessantes para você.
Referências bibliográficas
Fonseca, M.; Roy, J.-P.; Albaaj, A.; Renaud, D.L.; Barkema, H.W.; de Lagarde, M.; Arango-Sabogal, J.C.; Dufour, S. (2026) Estimating herd prevalence of major mastitis pathogens in Canadian dairy herds using Bayesian latent class models. Journal of Dairy Science, no prelo. Disponível em:
Fuenzalida, M.J.; Simone, R.; Pinzón-Sánchez, C.; Hanneman, A.; Schlesser, H. (2026) Distribution of mastitis-causing pathogens isolated from subclinical mastitis cases in Wisconsin dairy herds with low bulk tank somatic cell counts. JDS Communications, no prelo. Disponível em:
Keefe, G. (2012) Update on control of Staphylococcus aureus and Streptococcus agalactiae for management of mastitis. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, 28:203-216. Disponível em:
Rasmussen, P.; Barkema, H.W.; Osei, P.P.; Taylor, J.; Shaw, A.P.; Conrady, B.; Chaters, G.; Muñoz, V.; Hall, D.C.; Apenteng, O.O.; Rushton, J.; Torgerson, P.R. (2024) Global losses due to dairy cattle diseases: A comorbidity-adjusted economic analysis. Journal of Dairy Science, 107:6945-6970. Disponível em:
Ruegg, P.L. (2017) A 100-Year Review: Mastitis detection, management, and prevention. Journal of Dairy Science, 100:10381-10397. Disponível em:
Soltau, J.B.; Einax, E.; Klengel, K.; Katholm, J.; Failing, K.; Wehrend, A.; Donat, K. (2017) Within-herd prevalence thresholds for herd-level detection of mastitis pathogens using multiplex real-time PCR in bulk tank milk samples. Journal of Dairy Science, 100:8287-8295. Disponível em:
Vale a pena ler também:
Leite de descarte: prevenir a geração e reduzir os riscos da resistência antimicrobiana
Streptococcus uberis: será que o maior risco de mastite está mesmo durante a lactação?