Quais bactérias realmente circulam nos rebanhos brasileiros? O que três anos de PCR mostram

Mais de 20 mil amostras analisadas por PCR mostram um perfil de agentes de mastite bem diferente do norte-americano. A seguir, os números e o que eles significam na rotina da fazenda.

Publicado em: - 12 minutos de leitura

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A mastite é a principal causa de perdas econômicas na pecuária leiteira, com danos estimados em 13 bilhões de dólares anuais. O controle começa pela identificação das bactérias responsáveis, sendo crucial para direcionar ações de manejo. Um estudo da Clínica do Leite analisou 20.093 amostras e revelou que Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae ainda são desafios no Brasil, enquanto patógenos ambientais, como Escherichia coli, indicam problemas na ordenha. O monitoramento contínuo é essencial para um manejo eficiente.
A mastite continua sendo a doença de maior peso econômico na pecuária leiteira, com perdas globais estimadas em cerca de 13 bilhões de dólares por ano (Rasmussen et al., 2024). A maior parte desse prejuízo não vem do tratamento em si, mas da queda de produção, da perda de qualidade do leite e do descarte de animais — perdas que se acumulam mês a mês, muitas vezes sem que o rebanho saiba qual bactéria está por trás delas.

Todo programa de controle de mastite começa pela mesma pergunta: quais bactérias estão infectando essas vacas? A resposta orienta o que vem depois. Se o desafio é contagioso, a ação está na ordenha — separação de lotes, linha de ordenha, ajuste de equipamento, procedimento. Se é ambiental, a ação está na cama, na lotação e, principalmente, na secagem dos tetos antes da colocação das teteiras. Errar esse diagnóstico custa tempo e dinheiro corrigindo algo que não é o problema real.

Faltava, até agora, um retrato mais amplo. Já se conhece o perfil de agentes de fazendas isoladas, mas há poucos levantamentos brasileiros que mostrem, com um número grande de rebanhos, o que de fato está circulando. Dois trabalhos internacionais recentes ajudam a preencher essa lacuna em seus respectivos países: Fonseca e colaboradores (2026) estimaram a prevalência de patógenos em 340 rebanhos canadenses por PCR de tanque, e Fuenzalida e colaboradores (2026) caracterizaram os agentes da mastite subclínica em 14 rebanhos de Wisconsin com CCS de tanque baixa. São essas as referências naturais para a comparação que fazemos aqui.

A Clínica do Leite analisa amostras de leite por PCR há três anos, de forma semelhante ao que fazem laboratórios dos Estados Unidos, do Canadá e da Suíça. Entre maio de 2023 e agosto de 2026 foram 20.093 amostras, de até 201 fazendas por mês, sempre com o leite dos quatro quartos em conjunto ou do tanque. A maior parte foi analisada no painel que investiga quinze patógenos associados à mastite; rebanhos com histórico definido de agentes contagiosos usam um painel reduzido de quatro. O resultado de cada agente é um valor de Ct (cycle threshold, ou limiar de ciclo), que a Clínica converte em níveis de carga segundo seus próprios limites de referência.

O texto a seguir mostra o que essas amostras revelam, compara os números com Canadá e Estados Unidos e discute o que isso significa na rotina da fazenda.

Antes dos números: o que exatamente se está contando

Prevalência parece um conceito simples, mas o número muda conforme o denominador, e essa é a principal armadilha ao comparar levantamentos. Contando por amostra, uma fazenda que envia 40 amostras pesa quarenta vezes mais que uma que envia apenas uma — o resultado passa a descrever o movimento do laboratório, não as fazendas.

Os levantamentos publicados seguem outro desenho: uma coleta por rebanho, valendo cada rebanho igualmente. Para comparar com eles, recalculamos os nossos números por fazenda, considerando apenas a coleta mais recente de cada uma dentro do período. É essa a base dos números a seguir: últimos doze meses, de setembro de 2025 a agosto de 2026, com 663 fazendas no tanque e 325 em amostras de vaca. Foi considerada positiva a amostra com carga acima do limite de corte adotado pela Clínica.

A diferença não é só formalidade estatística. No nosso caso, Staphylococcus aureus aparece em 17,5% das amostras de tanque, mas em 26,8% das fazendas — o aureus está espalhado por muitas fazendas que enviam poucas amostras, e a contagem por amostra o fazia parecer menos frequente do que realmente é.

O perfil de agentes nos rebanhos brasileiros

A tabela 1 traz a porcentagem de fazendas positivas para cada agente, no tanque e em amostras de vaca, ao lado das estimativas canadense (rebanhos do Québec, tanque) e americana (quartos com mastite subclínica, Wisconsin).

Tabela 1. Porcentagem de fazendas positivas por agente (Clínica do Leite, set/2025 a ago/2026), comparada às estimativas de Fonseca et al. (2026), Québec, e Fuenzalida et al. (2026), Wisconsin. Os denominadores diferem entre os estudos — ver texto.

Agente

Tanque (%)

Vaca (%)

Canadá (%)

Wisconsin (%)

Staphylococcus não aureus

38,5

40,2

—

26,5

Streptococcus uberis

36,5

24,6

41,2

1,1

Streptococcus dysgalactiae

31,8

21,4

13,7

1,1

Streptococcus agalactiae

27,8

19,4

2,1

0,0

Escherichia coli

27,2

35,8

3,9

1,6

Staphylococcus aureus

26,8

21,5

56,4

3,3

Enterococcus spp.

23,8

30,1

—

8,8

Levedura

16,3

22,3

—

4,9

Prototheca spp.

11,3

9,6

3,1

1,3

Klebsiella spp.

8,8

11,8

1,6

—

Mycoplasma spp.

7,7

6,6

1,6

—

Mycoplasma bovis

2,1

4,0

0,3

—

O primeiro ponto de concordância entre os estudos é o Streptococcus uberis: está em 36,5% das nossas fazendas no tanque e em 41,2% das canadenses. São dois países, populações diferentes, e um número muito próximo — o que dá alguma confiança de que as metodologias estão comparáveis, e portanto de que as divergências a seguir são reais.

A divergência mais evidente está no Streptococcus agalactiae: 27,8% das nossas fazendas no tanque, contra 2,1% no Québec e nenhum isolado nos 453 quartos de Wisconsin. A explicação mais provável é que os rebanhos norte-americanos já erradicaram o agente, enquanto os brasileiros ainda convivem com ele. Algo parecido, em grau menor, acontece com Mycoplasma spp. e Prototheca: a América do Norte parece descrever um cenário pós-controle dos contagiosos, e nós ainda estamos na fase de controle.

O Staphylococcus aureus inverte essa lógica. Nossos 26,8% no tanque são bem menores que os 56,4% estimados para o Québec; já em amostras de vaca, o quadro se aproxima do inverso — 21,5% das fazendas positivas contra 3,3% dos quartos de Wisconsin. As populações comparadas não são exatamente as mesmas em cada caso, então o que os dados permitem afirmar é que o aureus circula menos nos tanques dos nossos clientes que nos tanques canadenses, e mais nas vacas dos nossos clientes que nas vacas dos rebanhos americanos de CCS baixa.

Ambientais em excesso: o que o número está realmente medindo

Escherichia coli aparece em 27,2% das fazendas no tanque e em 35,8% nas amostras de vaca. No Canadá a estimativa é de 3,9%; em Wisconsin, todos os Gram-negativos somados deram 1,6%. A diferença é grande demais para ser explicada só pela técnica de detecção, mesmo levando em conta que o PCR detecta DNA de bactéria morta e a cultura não, e que o leite de vaca com mastite clínica costuma ser descartado antes de chegar ao tanque.

A explicação mais provável é a que o próprio trabalho canadense sugere: microrganismos de reservatório ambiental — E. coli, Klebsiella, Prototheca, Streptococcus uberis, Streptococcus dysgalactiae — podem aparecer no leite por contaminação durante a ordenha, incluindo limpeza inadequada do teto, sem que haja infecção intramamária instalada. Já os agentes adaptados ao hospedeiro, como o aureus, o agalactiae e o Mycoplasma, quando detectados, têm maior chance de refletir uma infecção verdadeira.

Essa é a leitura que costumamos adotar em campo. Uma detecção alta de ambientais no PCR indica, antes de mais nada, que a teteira está sendo colocada em teto úmido ou sujo, e a correção passa por secar os tetos vigorosamente antes de colocar as teteiras, com um pano ou papel por vaca — não por tratamento. Já a presença de contagiosos costuma apontar para tetos erodidos (hiperqueratose) e para o esfíncter que permanece aberto logo depois da ordenha; os dois problemas vêm de equipamento desregulado e de procedimento inadequado de ordenha, e é aí que a correção precisa acontecer.

Vale lembrar que a divisão entre contagioso e ambiental não é rígida: bactérias classificadas como ambientais às vezes se comportam como contagiosas, transmitindo-se de vaca para vaca durante a ordenha. O exemplo mais comum é o Staphylococcus não aureus, que vive na pele do teto mas também circula entre vacas.

Uma ressalva importante vem do trabalho de Wisconsin: Lactococcus spp. respondeu por 6,8% dos casos de mastite subclínica naquele estudo, mais que os estreptococos ambientais. Esse gênero costumava ficar escondido dentro da categoria “ambientais” nos métodos fenotípicos, e nosso painel atual não o investiga. Se o achado se confirmar em outros trabalhos, trata-se de uma lacuna real no nosso monitoramento.

O que a CCS enxerga e o que ela não enxerga

Usamos as amostras em que havia CCS coletada na mesma data — cerca de 83% das amostras de vaca — para cruzar as duas informações. O resultado está na tabela 2.

Tabela 2. CCS mediana (mil células/mL) das amostras de vaca conforme o agente tenha sido detectado ou não, maio/2023 a agosto/2026.

Agente

CCS não detectado (mil/mL)

CCS detectado (mil/mL)

Trueperella pyogenes

618

1.604

Mycoplasma spp.

608

1.204

Streptococcus uberis

494

980

Staphylococcus aureus

489

878

Streptococcus agalactiae

501

836

Escherichia coli

572

754

Staphylococcus não aureus

626

622

Enterococcus spp.

630

598

Os agentes de maior risco dobram a CCS quando detectados. No Staphylococcus aureus, a CCS mediana sobe conforme a carga: 489 mil quando não detectado, 704 mil na carga média, 1.422 mil na carga alta e 2.806 mil na carga muito alta. Já o Staphylococcus não aureus e o Enterococcus praticamente não movem a CCS — 622 contra 626 mil no primeiro caso, e 598 contra 630 mil no segundo. Isso sugere que boa parte dessas detecções é colonização da pele do teto e contaminação de coleta, não infecção instalada — um achado que coincide com o de Wisconsin, onde as menores CCS de quarto apareciam justamente nas amostras sem crescimento e nas de Staphylococcus não aureus.

Um ponto merece atenção especial de quem usa a CCS do tanque como termômetro do rebanho. Separando as fazendas por faixa de CCS de tanque, o Streptococcus uberis sobe de 18,9% de positividade nos tanques abaixo de 200 mil para 60,3% na faixa de 500 a 1.000 mil. Os contagiosos sobem muito menos: aparecem em tanques de CCS baixa quase na mesma frequência que em tanques de CCS alta, porque ficam concentrados em poucas vacas e não chegam a levantar a média do tanque enquanto não estiverem bem espalhados. Um tanque com CCS controlada, portanto, não é evidência de ausência de contagioso.

Uma coleta não basta

O aureus é eliminado de forma intermitente no leite, e o tanque dilui essa eliminação — uma única análise tende a subestimar o problema. Conseguimos medir esse efeito comparando a última coleta de cada fazenda com o resultado acumulado de doze meses (tabela 3).

Tabela 3. Porcentagem de fazendas positivas no tanque considerando apenas a última coleta e considerando qualquer coleta nos doze meses.

Agente

Uma coleta (%)

12 meses (%)

Diferença (p.p.)

Staphylococcus aureus

26,8

44,6

+17,8

Streptococcus uberis

36,5

59,0

+22,5

Streptococcus agalactiae

27,8

37,7

+9,9

Mycoplasma bovis

2,1

5,3

+3,2

Uma coleta única deixa passar quase metade das fazendas que têm Staphylococcus aureus. É por isso que, no protocolo da Clínica do Leite, a ausência de aureus no rebanho só é declarada depois de três análises de PCR do leite do tanque dentro do mesmo mês. O mesmo vale para o Mycoplasma bovis, cuja prevalência mais que dobra entre uma coleta e várias.

Isso também sugere algo sobre os dados canadenses: a prevalência real nos rebanhos daquele país provavelmente é maior do que a estimada, já que o levantamento usou apenas uma coleta por rebanho — limitação que os próprios autores reconhecem.

O que fazer com esses números

O retrato geral é de fazendas em que os contagiosos continuam sendo o desafio central — agalactiae e aureus em patamares que a América do Norte já superou — somado a uma pressão ambiental relevante que, em boa parte, tem origem na própria rotina de ordenha.

Daí decorrem duas frentes de trabalho, que precisam andar juntas: conter a transmissão durante a ordenha (identificar as vacas infectadas, separá-las em lotes, ordenhá-las por último, e corrigir o que produz hiperqueratose e esfíncter aberto; regulagem do equipamento, tempo entre estímulo e colocação das teteiras e sobreordenha) e reduzir a exposição ambiental, que começa na secagem vigorosa dos tetos e passa pela qualidade da cama, lotação e ventilação.

Na prática, o caminho que seguimos começa pelo leite do tanque, que a um custo baixo já indica se o desafio é contagioso ou ambiental. Confirmado o desafio contagioso, a triagem do rebanho pode ser feita em amostras agrupadas de vacas, com o tamanho do grupo definido pela prevalência esperada — o que reduz bastante o número de análises necessárias. As vacas dos grupos positivos são então investigadas individualmente, para que a separação em lotes e as decisões sobre cada animal sejam tomadas com nome e número. O monitoramento segue depois pelo tanque e pelas vacas recém-paridas e de novas infecções.

Acima de tudo, os números reforçam a necessidade de medir antes de agir. Um rebanho não é a média do país, e o valor de um levantamento como este está menos em dizer ao produtor de leite qual é o seu problema e mais em mostrar que o problema varia de fazenda para fazenda — e que investir em diagnóstico custa bem menos do que corrigir o processo errado durante meses.

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Referências bibliográficas

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Fuenzalida, M.J.; Simone, R.; Pinzón-Sánchez, C.; Hanneman, A.; Schlesser, H. (2026) Distribution of mastitis-causing pathogens isolated from subclinical mastitis cases in Wisconsin dairy herds with low bulk tank somatic cell counts. JDS Communications, no prelo. Disponível em:

Keefe, G. (2012) Update on control of Staphylococcus aureus and Streptococcus agalactiae for management of mastitis. Veterinary Clinics of North America: Food Animal Practice, 28:203-216. Disponível em:

Rasmussen, P.; Barkema, H.W.; Osei, P.P.; Taylor, J.; Shaw, A.P.; Conrady, B.; Chaters, G.; Muñoz, V.; Hall, D.C.; Apenteng, O.O.; Rushton, J.; Torgerson, P.R. (2024) Global losses due to dairy cattle diseases: A comorbidity-adjusted economic analysis. Journal of Dairy Science, 107:6945-6970. Disponível em:

Ruegg, P.L. (2017) A 100-Year Review: Mastitis detection, management, and prevention. Journal of Dairy Science, 100:10381-10397. Disponível em:

Soltau, J.B.; Einax, E.; Klengel, K.; Katholm, J.; Failing, K.; Wehrend, A.; Donat, K. (2017) Within-herd prevalence thresholds for herd-level detection of mastitis pathogens using multiplex real-time PCR in bulk tank milk samples. Journal of Dairy Science, 100:8287-8295. Disponível em:

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Material escrito por:

Paulo Fernando Machado

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