970 kg a mais de leite na 1ª lactação? O impacto do ganho de peso na fase de cria

A bezerra de hoje é, literalmente, a vaca que a fazenda terá amanhã. Parece uma frase simples, porém, extremamente realista.

Publicado em: - 9 minutos de leitura

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No Interleite Brasil 2026, especialistas discutiram como nutrição, manejo, saúde e gestão podem transformar a criação de bezerras em uma estratégia para acelerar o desenvolvimento, reduzir a idade do primeiro parto e construir vacas mais produtivas.

A bezerra de hoje é, literalmente, a vaca que a fazenda terá amanhã. Parece uma frase simples — e talvez até repetida à exaustão no setor —, mas as palestras realizadas no painel 1 da Sala de Tecnologia do Interleite Brasil 2026, como oferecimento da MSD Saúde Animal, mostraram que transformar essa ideia em resultado exige muito mais do que oferecer leite, construir boas instalações ou seguir um protocolo isolado. Exige olhar para toda a trajetória do animal.

Da qualidade e quantidade do colostro recebido nas primeiras horas de vida ao momento do desaleitamento; do plano nutricional ao controle sanitário; da estrutura do bezerreiro à autonomia dos colaboradores. Cada etapa pode influenciar não apenas a sobrevivência e o crescimento da bezerra, mas também o momento em que ela entrará no rebanho e, potencialmente, seu desempenho produtivo futuro. Foi essa conexão entre ciência, manejo e execução dentro da fazenda que marcou as apresentações de Carla Bittar e Izabela Cortes, da Fazenda Figueireda Riacho.

O futuro da vaca começa muito antes da primeira lactação

Para Carla Bittar, professora da ESALQ/USP, não existe uma fórmula única capaz de resolver todos os desafios dessa fase. “Às vezes temos a impressão de que algumas fazendas são a Disneylândia, mas não são”, brincou durante a apresentação.

A criação de bezerras continua sendo uma das áreas mais desafiadoras das propriedades leiteiras. E justamente por isso, segundo a pesquisadora, é preciso abandonar a ideia de que basta acertar um único ponto do sistema. A nutrição de precisão, nesse caso, não significa apenas formular corretamente uma dieta ou atingir uma determinada meta de ganho de peso. “Nutrição de precisão não é acertar uma fase. É acertar toda a trajetória para transformar uma bezerra em uma vaca de alta produção.” E essa trajetória começa pela colostragem.

Figura 1

Colostragem: um investimento que pode acompanhar o animal por toda a vida

A importância do colostro é conhecida há décadas, mas, segundo Carla, os estudos têm mostrado cada vez mais que seus efeitos podem ir muito além das primeiras semanas de vida. Uma colostragem adequada está associada a benefícios como:

- redução da mortalidade após o desaleitamento;
- maior taxa de crescimento;
- redução da idade ao primeiro parto;
- aumento da produção de leite na primeira e na segunda lactação.

A pesquisadora também apresentou resultados mostrando o impacto de estratégias que vão além de uma única administração de colostro. Bezerras que receberam uma segunda refeição apresentaram melhor desempenho, com diferença de 10,4 kg de peso aos 80 dias, ou cerca de 130 gramas adicionais de ganho diário. Os efeitos também podem aparecer mais tarde, inclusive na produção de leite. A mensagem é clara: o investimento realizado nas primeiras horas de vida não deve ser analisado apenas pelo que acontece no bezerreiro. Ele pode acompanhar aquele animal por anos.

Leite de descarte barato? Nem sempre…

Outro ponto provocativo da apresentação foi o uso do chamado leite de descarte na alimentação das bezerras. A lógica aparentemente é simples: se aquele leite não pode ser comercializado, utilizá-lo no aleitamento reduziria o custo de alimentação. Para Carla, porém, essa conta precisa ser analisada com muito mais cuidado.

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O leite de descarte pode carregar uma série de problemas. Além da grande variação na composição nutricional, dependendo da origem e da mistura utilizada, podem existir desafios relacionados à carga bacteriana e à saúde das vacas que originaram aquele leite. E o custo não desaparece simplesmente porque o leite não foi vendido. A fazenda pode pagar essa decisão de outras formas: maior ocorrência de problemas sanitários, necessidade de tratamentos, desafios dentro do bezerreiro e possíveis consequências futuras para o desempenho das novilhas.

A pesquisadora criticou também a tentativa de resolver um problema estrutural apenas com ajustes pontuais, como acidificação ou pasteurização, quando a origem do desafio permanece.  Recorrendo a uma frase de um pesquisador, Carla resumiu a ideia: “Se eu passar batom no porco, ele continua sendo porco. É apenas uma maquiagem.” A provocação também se estendeu aos produtos utilizados na alimentação das bezerras. Mais proteína no rótulo, por exemplo, não significa automaticamente melhor desempenho. É preciso entender a origem dos ingredientes, a qualidade nutricional e o que, de fato, aquele alimento entrega ao animal.

Por que oferecer mais dieta líquida?

A palestra também abordou os chamados sistemas de aleitamento intensivo. A lógica por trás dessa estratégia é fornecer mais nutrientes ao animal em um período em que as exigências de manutenção representam uma parcela importante do consumo total de energia. Ao aumentar o fornecimento de uma dieta líquida de qualidade, a bezerra tem maior oportunidade de crescer e expressar seu potencial.

Mas Carla fez questão de destacar que não se trata simplesmente de despejar mais leite no balde. Um programa de aleitamento mais intensivo traz desafios, entre eles o maior custo inicial e, principalmente, a necessidade de realizar uma boa transição no momento do desaleitamento. Por outro lado, os benefícios podem aparecer no futuro.

Entre as relações apresentadas pela pesquisadora, uma delas indica que cada quilograma adicional de ganho de peso na fase de cria pode estar associado a cerca de 970 kg a mais de leite na primeira lactação. Isso não significa, porém, que simplesmente fazer a bezerra ganhar peso garantirá uma vaca mais produtiva já que o ganho de peso é resultado de um conjunto de condições. Para que o animal expresse seu potencial, é necessário fornecer uma dieta líquida de qualidade e, ao mesmo tempo, reduzir os diversos desafios enfrentados durante o desenvolvimento, como doenças e falhas de manejo. Segundo Carla, o objetivo é criar condições para que o desenvolvimento corporal e mamário ocorra da melhor forma possível. Em outras palavras: não basta ganhar peso. É preciso crescer bem.

O desaleitamento continua sendo um dos grandes gargalos

Se o início da vida da bezerra exige atenção, a transição do aleitamento para o consumo de alimentos sólidos é outro momento crítico. Para Carla, o desaleitamento ainda é um dos principais gargalos para uma criação bem-sucedida. A retirada abrupta do leite pode provocar queda no consumo, perda de peso e estresse. Por isso, as estratégias precisam permitir que o animal tenha tempo para se adaptar. A redução gradual do volume de dieta líquida cria uma oportunidade para que a bezerra aumente o consumo de alimentos sólidos antes que o leite seja totalmente retirado.

Mais uma vez, a mensagem da palestra foi de continuidade. Não adianta acertar a colostragem e a fase inicial de aleitamento se o animal encontra um gargalo importante justamente na transição seguinte. O desenvolvimento da bezerra não pode ser pensado como uma sequência de fases independentes.

Da pesquisa para a rotina da fazenda

Se Carla Bittar apresentou a lógica científica por trás dos protocolos, Izabela Cortes levou ao palco a experiência de quem precisa transformar conceitos em rotina, todos os dias. A Fazenda Figueireda Riacho trabalha atualmente com 950 animais na recria e 861 vacas em lactação, apoiada por uma equipe de 41 colaboradores. A produção mensal supera 1,2 milhão de litros de leite.

Figura 2

Mas, para Izabela, os resultados observados hoje são consequência de um processo, colocando em perspectiva um ponto frequentemente discutido quando se visita uma fazenda com bons indicadores. "É fácil olhar para a estrutura pronta e para os números atuais. Mais difícil é enxergar todas as decisões, mudanças, investimentos e ajustes que foram necessários para chegar até ali". 

Estrutura importa. Mas não trabalha sozinha

Izabela apresentou os resultados obtidos pela fazenda após investimentos na estrutura do bezerreiro. Mas fez questão de deixar claro que a infraestrutura, por si só, não garante sucesso. Um bom bezerreiro é resultado de um conjunto de fatores. Na Fazenda Figueireda Riacho, a rotina envolve protocolos definidos para colostragem, cura de umbigo, descorna, tosa higiênica, pesagens em momentos estratégicos, aleitamento e acompanhamento sanitário.

Na colostragem, o protocolo apresentado prevê 4 litros na primeira administração e mais 2 litros posteriormente, além do acompanhamento da qualidade do colostro, com referência de Brix acima de 25. A cura do umbigo é realizada com iodo a 10%, e os animais também passam por procedimentos como descorna, tosa higiênica e pesagens em diferentes momentos do desenvolvimento.

No aleitamento, a estratégia é escalonada:

  • 1 a 60 dias de vida: 8 litros de leite corrigido para 15% de sólidos, divididos em duas mamadas;

  • 61 a 82 dias de vida: 4 litros de leite em duas mamadas, já em baias coletivas;

  • 83 a 90 dias de vida: 2 litros de leite em uma mamada.

Além disso, a fazenda trabalha com um calendário sanitário estruturado e acompanhamento contínuo dos animais.

Três pilares para tomar decisões

Outro ponto destacado por Izabela foi o processo de tomada de decisão dentro da propriedade. Segundo ela, a fazenda procura avaliar três pilares antes de avançar em uma mudança: o zootécnico, o econômico e as crenças. A fala mostra uma realidade comum em muitas propriedades.

Nem toda decisão tecnicamente possível será economicamente viável naquele momento. E, por outro lado, práticas que fazem parte da cultura da fazenda também precisam ser questionadas à luz de novos dados e resultados. O desafio da gestão está justamente em equilibrar esses fatores e, principalmente, evitar que a tomada de decisão demore tanto que o problema cresça antes que uma solução seja colocada em prática.

A tecnologia mais importante pode estar na equipe

Talvez uma das mensagens mais interessantes tenha sido justamente a importância das pessoas. Izabela reforçou o papel de uma equipe comprometida com a excelência, combinando melhoria contínua, gestão e dedicação diária. Protocolos podem estar escritos na parede. A estrutura pode ser moderna. Os equipamentos podem ser os melhores disponíveis. Mas, no fim, alguém precisa garantir que o colostro seja fornecido corretamente, que o umbigo seja curado, que a bezerra seja observada, que os dados sejam registrados e que um problema seja percebido antes de se transformar em prejuízo.

Por isso, a autonomia dos colaboradores foi um dos pontos destacados pela produtora. Dar autonomia não significa abandonar processos. Significa construir uma equipe capaz de entender o que está fazendo, tomar decisões e participar ativamente da busca por melhores resultados.

A bezerra precisa de uma trajetória, não de soluções isoladas

As duas palestras apresentadas no painel 1 do Interleite Brasil 2026 partiram de perspectivas diferentes, mas chegaram a uma conclusão muito semelhante.

Não existe um único investimento capaz de transformar a criação de bezerras; Não é apenas o colostro; Não é apenas oferecer mais leite; Não é apenas construir um novo bezerreiro; Não é apenas comprar um produto diferente; Não é apenas pesar mais. E também não é apenas seguir um protocolo. O resultado está na conexão entre todas essas etapas.

A pesquisa ajuda a entender por que determinadas práticas funcionam e quais oportunidades existem para acelerar o desenvolvimento das futuras vacas. A experiência de fazendas como a Figueireda Riacho mostra o outro lado da equação: transformar conhecimento em uma rotina que funcione todos os dias, com pessoas, recursos e desafios reais.

No fim, talvez essa seja a principal reflexão deixada pelo painel. A criação de bezerras não deve ser vista apenas como um centro de custo ou como uma etapa necessária até que o animal entre em produção. É uma das primeiras — e possivelmente mais importantes — decisões sobre a produtividade que aquela vaca poderá entregar no futuro. E construir uma vaca de alta produção não começa quando ela entra na sala de ordenha. Começa no primeiro colostro e depende da qualidade de toda a trajetória que vem depois.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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