Essa foi a mensagem principal de um painel de analistas da HighGround Dairy na HighGround Dairy Conference 2026, em Chicago. Betty Berning, economista contributiva de laticínios; Cara Murphy, gerente sênior de inteligência de mercado lácteo; Alyssa Badger, vice-presidente de operações e insights globais; e Stu Davison, gerente sênior de insights de mercado global, discutiram um mercado cada vez mais complexo, altamente interconectado e impulsionado por forças externas sem precedentes. Para os produtores que tentam navegar pelos próximos 18 meses, o consenso foi claro: os modelos históricos estão quebrados, e a sobrevivência exige olhar muito além do curral.
O boom da proteína: por que os sólidos desnatados dispararam
Na primeira metade de 2026, a grande história nas commodities lácteas dos EUA foi o aumento maciço nos preços do leite desnatado em pó, que atingiu US$ 2,29 por libra (aproximadamente US$ 5,05 por kg) em maio antes de uma queda acentuada. Mas, segundo Berning, esse pico não foi impulsionado pela demanda tradicional de leite em pó, e sim por um apetite insaciável por proteína, tanto global quanto doméstico. “A demanda por proteína em outros formatos é a responsável pelo grande aumento”, explica Berning.
Os consumidores estão migrando agressivamente para produtos lácteos de alto teor proteico. A produção de iogurte atingiu um recorde histórico em 2025, e os dados acumulados do ano mostram que o pico ainda não foi alcançado. Além disso, o queijo cottage — há muito considerado um produto estagnado para um público mais envelhecido — está vivendo uma renascença massiva, atingindo níveis de produção não vistos desde a década de 1980.
Isso é reforçado pelo crescimento explosivo do leite ultrafiltrado. “O leite ultrafiltrado representa 3,1% da categoria de leite líquido nos EUA e os volumes cresceram 7,4% ano a ano”, observa Berning. Como esses produtos exigem significativamente mais leite para atingir os altos teores de proteína (frequentemente 13 a 14 gramas por porção), eles estão consumindo uma quantidade massiva de sólidos desnatados direcionados para secagem. Berning estima que apenas o leite ultrafiltrado agora consome aproximadamente 1% de todos os sólidos desnatados dos EUA — uma categoria que quase não existia há alguns anos.
Grande parte desse fenômeno da proteína está ligado ao aumento de medicamentos para perda de peso GLP-1, conhecidos como 'canetas emagrecedoras', que fazem os consumidores priorizarem a retenção muscular e proteínas de alta qualidade. Enquanto os preços do leite em pó esfriaram recentemente devido ao aumento da produção para aproveitar as altas margens, Berning alerta que a demanda subjacente por isolados de proteína e concentrados de proteína do soro (WPC-80) continuará extremamente elevada.
Preços por classe: dois mercados distintos
Nos Estados Unidos, o leite vendido pelas fazendas é classificado em diferentes “classes” para fins de pagamento, de acordo com o uso final do produto. O classe III corresponde ao leite destinado principalmente à produção de queijo, enquanto o classe IV é voltado para produtos como manteiga e leite desnatado em pó. Essa distinção é importante porque os preços pagos ao produtor variam conforme a demanda e o excesso de oferta em cada segmento.
Segundo Cara Murphy, gerente sênior de inteligência de mercado da HighGround Dairy, o panorama para o classe III mostra que os EUA estão “afogados em queijo”. A produção atingiu um recorde histórico em abril, impulsionada pela entrada de nova capacidade nas regiões Oeste e Central do país. Apesar das exportações para México, Japão e Coreia do Sul estarem em níveis recordes, Murphy destaca que 89% do queijo produzido nos EUA é consumido internamente. “Os americanos adoram queijo, mas vimos uma queda nas vendas em março e abril”, observa Murphy. “As grandes redes de pizzarias e fast-food, que consomem muito queijo, estão com vendas mais lentas.”
Esse excesso de oferta, aliado à demanda moderada no serviço de alimentação, manteve o preço do leite classe III em US$ 16 a 17 por cwt (US$ 35 a 37 por 100 kg), uma faixa historicamente baixa e desconfortável para os produtores. Já o classe IV tem funcionado como um “porto seguro”. Impulsionado pelos preços recordes do leite desnatado em pó e pela produção robusta de manteiga, os preços do classe IV dispararam. Mesmo com a leve queda recente nos preços do pó, espera-se que o classe IV se mantenha na faixa superior de US$ 18 por cwt (≈ US$ 40 por 100 kg).
A tábua de salvação do beef-on-dairy
Com os preços do leite classe III pressionados e os custos de ração sempre em destaque, como os produtores de leite dos EUA mantêm a lucratividade? A resposta não está apenas no tanque de leite — está no bezerro cruzado beef-on-dairy. “Os preços da carne importam”, enfatiza Cara Murphy. “Não basta apenas conhecer os mercados de leite. Agora você precisa prestar atenção também ao preço da carne.”
O rebanho de vacas de corte nos EUA está atualmente no menor nível desde 1961. Essa escassez histórica elevou os preços do gado de engorda a níveis altíssimos, tornando o bezerro cruzado beef-on-dairy uma fonte de receita necessária para as fazendas leiteiras. Quando a HighGround mapeou as margens estimadas da produção de leite em 2026, os dados revelaram uma realidade clara: sem a receita proveniente dos bezerros beef-on-dairy, a margem média dos produtores de leite nos EUA seria negativa. “Sem beef-on-dairy, não há margem”, afirma Murphy de forma direta.
Como a carne se tornou tão crítica, a indústria leiteira agora precisa monitorar ativamente as ameaças à cadeia de fornecimento de carne, incluindo a seca nas Grandes Planícies e o alarmante ressurgimento da bicheira do novo mundo.
O palco global: “californicação” da dieta chinesa e o crescimento do volume de leite
Enquanto os produtores domésticos gerenciam os bezerros cruzados beef-on-dairy e os estoques de queijo, o comércio global de laticínios está passando por uma mudança estrutural significativa. Segundo Alyssa Badger, é hora de esquecer a narrativa antiga de que a China seria apenas um destino de exportação de leite em pó a granel. Hoje, o consumidor chinês evolui rapidamente, impulsionado por políticas governamentais de incentivo a proteínas de alta qualidade e por um ecossistema crescente de esportes e fitness. “O The Economist publicou recentemente um artigo sobre a ‘californicação’ da dieta chinesa”, explica Badger. “Se olharmos para a escala dessa mudança, o queijo é o mais impressionante. Crescemos 21% em volume nos últimos 12 meses.”
A China está ativamente se afastando do leite em pó integral a granel e investindo em produtos de maior valor agregado, como queijo, proteínas do soro e nutrição especializada. Surpreendentemente, essa transição ocorre mesmo com a produção doméstica de leite em queda. Ao alocar seletivamente os sólidos do leite limitados e investir fortemente em infraestrutura de processamento, eles estão produzindo grandes volumes de leite em pó desnatado e outros produtos lácteos especializados.
E a China não é a única mudando o mercado global. Stu Davison destaca que a produção global de leite tem se mostrado surpreendentemente robusta, liderada pela União Europeia e pela Nova Zelândia. “Há cinco anos se dizia que a Nova Zelândia não cresceria mais na produção de leite. Isso já foi definitivamente superado nesta temporada”, afirma Davison, destacando que o país produziu mais de 2 bilhões de quilos de sólidos de leite neste ano.
Impulsionados por preços fortes do leite e redução de dívidas, os produtores neozelandeses estão investindo fortemente em tecnologia, como coleiras sem cercas e métricas de reprodução aprimoradas, sinalizando uma produção sustentada no futuro. Esse aumento de volume significa que mais produtos estão entrando no mercado global. Enquanto a China continua sendo o maior cliente da Nova Zelândia, os processadores neozelandeses estão se afastando do leite em pó integral e investindo em produtos de maior valor, como creme UHT, queijo, manteiga e concentrados de proteína do leite, competindo diretamente com exportações dos EUA.
De forma similar, a Europa também registrou crescimento expressivo da produção, especialmente na Alemanha e França. Esse aumento no leite europeu se traduz em maiores exportações de manteiga e em um estoque crescente de leite em pó desnatado prestes a entrar no mercado global, o que inevitavelmente pressionará os preços para baixo. Mesmo a Austrália, embora com produção geral mais estável, tem visto aumento nas importações de queijo e manteiga dos EUA, aproveitando as vantagens de preço dos produtos americanos.
Geopolítica e o “El Niño Godzilla ”
O painel da HighGround Dairy concluiu destacando os riscos macroeconômicos que ameaçam o fornecimento global de alimentos. Embora os recentes cessar-fogos no Oriente Médio tenham estabilizado parcialmente as rotas de energia, o mapa do comércio de laticínios já foi reescrito, com países como a Índia contornando os tradicionais hubs de trânsito.
Mais preocupante é a ameaça climática iminente. Meteorologistas estão acompanhando o que está sendo chamado de “Super El Niño Godzilla”, comparando-o ao devastador evento de 2015-2016, que provocou secas históricas na África e Ásia e elevou os preços do óleo de palma, café e cacau.
Embora a correlação direta com a produção global de leite seja complexa, a ameaça à produção de ração e grãos é severa. “Não há dúvida de que os sistemas alimentares estarão sob pressão”, alerta Alyssa Badger. Se governos asiáticos e africanos forem forçados a gastar bilhões subsidiando alimentos básicos e energia para suas populações, o poder de compra de produtos lácteos importados se deteriorará rapidamente.
Uma nova era na gestão da pecuária leiteira
Como deixou claro o painel, os dias de olhar exclusivamente para o preço do leite local e os custos de ração chegaram ao fim. Para administrar uma fazenda leiteira lucrativa em 2026, o produtor precisa ser estudioso de macroeconomia global. Ele deve entender como uma prescrição de GLP-1 em Nova York impacta isolados de soro, como o rebanho de corte em retração no Texas muda sua estratégia de descarte, como tendências de fitness em Pequim alteram a viabilidade de exportação de seu queijo e como um aumento repentino de leite na Nova Zelândia afeta sua competitividade global. O mercado nunca foi tão complexo, mas os dados mostram que aqueles que compreendem essas alavancas globais interconectadas são os que encontram as margens para prosperar.
As informações são do Dairy Herd Management, adaptados pela equipe MilkPoint.
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