Como as canetas emagrecedoras e o beef-on-dairy estão reescrevendo a economia leiteira dos EUA

Segundo Phil Plourd, presidente da Ever.Ag, a indústria leiteira dos Estados Unidos está atravessando um período único, em que fontes alternativas de receita e tendências de saúde do consumidor, como as canetas emagrecedoras, não apenas complementam a receita do leite, mas também determinam toda a direção estratégica das fazendas.

Publicado por: MilkPoint

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A pecuária leiteira nos EUA enfrenta uma transformação até 2026, onde a receita proveniente do leite é superada por novas fontes, como proteínas de soro e beef-on-dairy. Medicamentos para emagrecimento aumentaram a demanda por proteínas, enquanto o mercado de queijo se estabilizou. A produção de vacas está sendo ajustada para priorizar proteína em vez de gordura. Apesar de desafios, como infraestrutura envelhecida, o mercado internacional e a combinação de laticínios com carne sustentam a lucratividade. A indústria se adapta para atender a uma demanda global crescente por proteína.
No modelo tradicional da pecuária leiteira, o carro-chefe era o pagamento pelo leite, enquanto os subprodutos eram secundários, como o soro de leite ou os bezerros machos. Mas, à medida que avançamos por 2026, os papéis se inverteram. Segundo Phil Plourd, presidente da Ever.Ag, a indústria leiteira dos Estados Unidos está atravessando um período único, em que fontes alternativas de receita e tendências de saúde do consumidor não apenas complementam a receita do leite — elas estão determinando toda a direção estratégica das fazendas.

Em uma análise aprofundada do relatório Farm Journal State of the Dairy Industry Report, Plourd participou do programa “AgriTalk”, apresentado por Chip Flory, para discutir por que o setor se sente simultaneamente limitado e cheio de oportunidades. Da febre dos alimentos ricos em proteína ao enorme colchão financeiro proporcionado pelo beef-on-dairy, o cenário de 2026 é definido por um fenômeno em que os papéis se inverteram.

O efeito dos GLP-1 e a revolução do soro de leite

Talvez o fator mais surpreendente por trás da economia leiteira de 2026 esteja no armário dos medicamentos. O crescimento dos remédios para perda de peso da classe GLP-1, conhecidos como as canetas emagrecedoras, alterou profundamente as necessidades nutricionais dos americanos. Com uma estimativa de 10% a 15% da população utilizando esses medicamentos, houve um aumento massivo na demanda por proteínas de alta qualidade para evitar a perda muscular durante o rápido emagrecimento. “As proteínas do soro estão em alta por vários motivos”, observa Plourd. “Estamos muito animados em produzir soro, mas menos animados em produzir o queijo necessário para chegar até ele.”

Isso criou um paradoxo curioso para os processadores. Enquanto a demanda por queijo permaneceu relativamente estável ou apenas razoável, a procura por isolado proteico de soro (WPI) e concentrado proteico de soro (WPC 80) tornou-se praticamente insaciável. E não se trata mais apenas dos frequentadores de academia com suas coqueteleiras. A indústria está vendo proteína aparecer em lugares inesperados — de refrigerantes proteicos a chips de batata enriquecidos com proteína. À medida que os consumidores buscam bem-estar em todos os corredores do supermercado, as proteínas lácteas se tornaram o ingrediente padrão-ouro, sustentando a indústria mesmo quando o mercado de queijo enfraquece.

Beef-on-Dairy: o colchão financeiro definitivo

Se a proteína é o motor das indústrias de processamento, o beef-on-dairy é o motor dentro da fazenda. Durante anos, o setor encarou o beef-on-dairy como uma espécie de fase de lua de mel — uma forma rápida de obter um prêmio maior pelo bezerro. Em 2026, essa tendência amadureceu e se transformou em um dos pilares do modelo de negócios da pecuária leiteira.

Enquanto os preços do leite enfrentaram sua habitual volatilidade, a renda proveniente do beef-on-dairy permaneceu “absurdamente alta”, oferecendo uma rede de segurança essencial para produtores que trabalham com margens apertadas. Essa tendência é tão forte que está influenciando até mesmo os dados nacionais do rebanho. “O rebanho é o maior desde o início dos anos 1990”, explicou Plourd. “Estamos com 190 mil cabeças a mais do que no mesmo período do ano anterior.”

Esse crescimento não ocorre necessariamente porque os produtores desejam inundar o mercado com mais leite. Trata-se de uma estratégia deliberada. As fazendas leiteiras enfrentam escassez de novilhas de reposição e, por isso, mantêm vacas mais velhas no rebanho por mais tempo do que o habitual.

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O motivo? Essas vacas estão prenhes de bezerros beef-on-dairy de alto valor comercial. Mesmo uma vaca com desempenho apenas razoável na produção de leite continua sendo rentável quando entrega um bezerro preto de alto valor, funcionando como um importante retorno financeiro para a fazenda.

O desafio dos componentes: gordura versus proteína

A mudança nas preferências dos consumidores também alterou a forma como as vacas são alimentadas. Na última década, o setor ouviu repetidamente que “gordura é sabor” e “gordura é amiga”. Isso levou a uma enorme busca por maiores teores de gordura no leite, impulsionada por avanços significativos na genômica. As vacas holandesas atuais produzem níveis de gordura que rivalizariam com os das jerseys de uma geração atrás.

Agora, porém, o mercado está enviando um sinal diferente. Com os preços da manteiga atingindo os níveis mais baixos dos últimos anos, a indústria está abastecida de gordura, mas continua carente de proteína. “É difícil aumentar a produção de proteína sem, ao mesmo tempo, aumentar um pouco a produção de gordura”, admite Plourd.

Esse detalhe está obrigando nutricionistas a repensarem as dietas dos animais. Os produtores estão reduzindo o uso de suplementos destinados a elevar agressivamente os teores de gordura, como alguns derivados de óleo de palma, e migrando para estratégias que priorizem a produção de proteína. O objetivo para 2026 é atingir precisão cirúrgica: produzir exatamente o que o mercado deseja, sem gerar excedentes daquilo que ele não quer.

Infraestrutura para uma nova era

Os investimentos da indústria já apostaram nesse futuro de alta demanda por proteína. As grandes fábricas de queijo que estão sendo construídas atualmente deixaram de ser apenas fábricas de queijo. Elas se tornaram sofisticadas instalações de extração de proteína que, por acaso, também produzem queijo como coproduto.

Plourd observa que, enquanto instalações mais antigas se contentavam em produzir soro em pó de menor valor agregado, as novas plantas estão sendo projetadas especificamente para fabricar WPC 80 e WPI. Isso representa um compromisso de bilhões de dólares com a ideia de que o futuro dos laticínios está mais nos componentes do leite do que simplesmente no volume produzido.

Perspectivas: céu cinzento ou parcialmente nublado?

Ao olhar para o horizonte, existe uma tensão entre a experiência vivida pelos produtores e aquilo que mostram as planilhas dos economistas. O relatório Farm Journal 2026 State of the Dairy Industry Report descreve um sentimento de “céu cinzento” entre os produtores, impulsionado pela armadilha da infraestrutura envelhecida e pela restrição de crédito, que transforma até pequenos reparos em grandes desafios.

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Plourd, no entanto, oferece uma visão um pouco mais otimista, classificando o cenário como “parcialmente nublado”. “No papel, se você observar apenas as margens projetadas, elas são médias ou ligeiramente acima da média”, afirma.

A salvação da indústria americana tem sido o mercado internacional. Embora a demanda doméstica por queijo esteja enfraquecida devido à desaceleração econômica e às mudanças nos hábitos alimentares, os Estados Unidos têm conseguido exportar grandes volumes de queijo, além de quantidades significativas de manteiga e gordura láctea. Essa rede de segurança global, combinada à receita proveniente do beef-on-dairy, é o que mantém muitas operações lucrativas.

Um novo padrão de resiliência

À medida que 2026 avança, a fazenda leiteira média dos Estados Unidos já não existe mais. O sucesso agora exige domínio de três negócios distintos: um negócio de leite focado em componentes de alto valor, um negócio de carne apoiado em dados e genética, e um negócio global de fornecimento de proteína.

A fase de ganhos fáceis pode ter terminado, mas o casamento entre o beef-on-dairy e a pecuária leiteira — e entre os laticínios e a indústria do bem-estar — está mais forte do que nunca.

Para o produtor de leite norte-americano, o céu pode parecer cinzento, mas a determinação e a precisão das operações modernas estão construindo uma indústria mais robusta e resiliente, pronta para alimentar um mundo cada vez mais sedento por proteína.

Artigo escrito por Karen Bohnert, para os Dairy Herd Management, adaptado e traduzido pela equipe MilkPoint.

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