Boom global do leite perde força e mercado caminha para reequilíbrio da oferta

Após crescimento recorde em 2025, oferta mundial desacelera, margens ficam mais pressionadas e clima ganha peso nas perspectivas para 2026 e 2027.

Publicado por: MilkPoint

Publicado em: - 7 minutos de leitura

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A produção global de leite está desacelerando após um período de crescimento. As principais regiões exportadoras, incluindo os EUA, União Europeia e Brasil, mostram sinais de estabilização. Em 2026, espera-se um crescimento de apenas 1% na produção mundial, enquanto os EUA continuam a expandir com aumento de rebanho e produtividade. A América do Sul enfrenta desafios climáticos e margens apertadas, enquanto a Austrália e a Nova Zelândia têm crescimento limitado. A rentabilidade e fatores climáticos se tornam preocupações centrais no setor.
Após um longo período de expansão, a produção global de leite começa a dar sinais de desaceleração. Os primeiros indicadores apontam para um mercado mais equilibrado, à medida que o crescimento da oferta perde força nas principais regiões exportadoras e os fundamentos do setor se tornam menos favoráveis.

Segundo Lucas Fuess, analista de lácteos do Rabobank, o crescimento da produção nas principais regiões exportadoras do mundo já atingiu seu pico. “Após quatro trimestres consecutivos com expansão superior a 2% nas regiões produtoras do Big-7, o crescimento global da produção de leite finalmente começou a desacelerar no segundo trimestre”, afirma.

O grupo Big-7 reúne Estados Unidos, União Europeia, Nova Zelândia, Austrália, Brasil, Argentina e Uruguai. Juntos, esses países moldam a oferta global de leite exportável e foram os principais responsáveis pelo forte avanço da produção observado recentemente, que atingiu seu auge no final de 2025. “O crescimento anual da produção chegou a 5,2% no quarto trimestre de 2025, um dos maiores aumentos já registrados”, destaca Fuess.

Agora, porém, a trajetória começa a mudar. Embora a oferta global de leite ainda deva permanecer ligeiramente acima dos níveis do ano anterior no início de 2026, o ritmo de crescimento tende a perder força ao longo do ano. “A contração da produção no quarto trimestre seria o primeiro resultado negativo desde o segundo trimestre de 2024 e reforça a tese de um reequilíbrio da oferta global de leite após vários trimestres de forte expansão”, explica.

Em termos anuais, a desaceleração se torna ainda mais evidente. “Estimamos que a produção mundial cresça 1% em 2026, após avançar 3,1% em 2025. Já nossas projeções iniciais para 2027 apontam queda de 0,2%, a primeira contração anual desde 2022”, afirma.

EUA seguem impulsionando a oferta

Enquanto o crescimento global perde intensidade, os Estados Unidos continuam na contramão da tendência e permanecem entre os principais motores da expansão do Big-7.

Em abril, a produção de leite do país cresceu 2,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, prolongando uma sequência de resultados positivos que já dura mais de um ano. A RaboResearch projeta que a produção americana aumente mais 2% em 2026 na comparação com 2025. O avanço é sustentado por dois fatores principais: aumento do rebanho e maior produtividade por vaca.

O número de vacas leiteiras nos Estados Unidos cresce há quase dois anos e alcançou 9,645 milhões de cabeças em abril, o maior patamar desde a década de 1990 e 190 mil animais acima do registrado um ano antes. Essa expansão reflete margens favoráveis, investimentos contínuos em capacidade de processamento e a rentabilidade dos cruzamentos entre gado leiteiro e de corte, que incentivam os produtores a manter os animais por mais tempo no rebanho.

A produtividade também segue avançando. Em abril, a produção por vaca cresceu 0,7% na comparação anual. Além disso, os teores de sólidos vêm aumentando, com o teor médio de gordura alcançando 4,39% em março. Mesmo com alguma desaceleração sazonal prevista, a oferta de leite nos Estados Unidos continua crescendo em ritmo superior ao da demanda em diversas regiões.

Fuess destaca ainda que as margens entre leite e ração seguem sustentando a expansão. Em março, o indicador Dairy Margin Coverage atingiu US$ 9,57 por hundredweight, o maior valor desde o fim de 2025. Embora a rentabilidade deva moderar nos próximos meses, ela permanece em níveis considerados favoráveis para os produtores.

União Europeia entra em fase de estabilidade

Na União Europeia e no Reino Unido, a oferta de leite continua relativamente forte, mas os sinais são de estabilização. A produção segue em patamares elevados, porém sem a aceleração observada nos últimos anos.

Preços mais baixos do leite ajudam a sustentar a demanda, evitando quedas mais acentuadas na produção. Ao mesmo tempo, produtos como queijo e soro continuam apresentando boa demanda e elevada utilização industrial, mesmo sem grandes incentivos de preço.

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O resultado é um ambiente mais equilibrado, no qual a oferta se mantém estável, mas sem perspectivas de crescimento acelerado. Ao nível das fazendas, a pressão sobre margens e os custos de produção têm limitado novos avanços.

China busca equilíbrio

A China também caminha para uma fase de maior estabilidade. A produção de leite permanece relativamente constante, enquanto a demanda apresenta recuperação gradual. Essa combinação tem contribuído para restabelecer o equilíbrio do mercado doméstico.

Em vez de oscilações bruscas, o setor passa a ser marcado por ajustes graduais tanto do lado da oferta quanto da demanda, cenário que pode gerar um aumento moderado das importações ao longo de 2026.

Para o mercado global, isso significa um perfil de compras mais previsível por parte do país, embora ainda relevante para os fluxos internacionais de lácteos.

América do Sul enfrenta margens apertadas e risco climático

Na América do Sul, as perspectivas são mais desafiadoras. A produção deve enfrentar pressão durante o terceiro trimestre, uma vez que os custos de produção continuam elevados em relação aos preços recebidos pelos produtores, reduzindo os incentivos para expansão.

Além disso, o risco climático ganha importância na segunda metade do ano. A possibilidade de um El Niño mais intenso aumenta as preocupações com eventos extremos, especialmente inundações nas regiões produtoras do Sul do continente. 

A combinação entre margens apertadas e maior volatilidade climática sugere uma oferta mais restrita à medida que 2026 avança.

Austrália cresce pouco

A Austrália inicia a nova temporada com desempenho estável, mas enfrenta limitações para uma expansão mais significativa. Margens apertadas continuam restringindo os investimentos nas fazendas, enquanto as condições climáticas permanecem uma importante fonte de incerteza.

Como o sistema produtivo australiano depende fortemente de pastagens, alterações nos padrões de chuva podem afetar diretamente o desempenho do setor. Assim, a expectativa é de uma produção relativamente estável, mas com crescimento limitado em relação às médias históricas.

Nova Zelândia deve ficar abaixo do pico recente

Após uma temporada excepcional entre 2025 e 2026, a Nova Zelândia enfrenta o desafio de repetir os resultados alcançados no ciclo anterior. Embora o setor continue altamente eficiente e voltado à exportação, condições econômicas menos favoráveis e margens mais moderadas devem limitar o crescimento da produção. O clima também continua sendo um fator decisivo, adicionando incertezas ao desempenho da temporada 2026-2027.

A expectativa é de que a produção permaneça sólida em termos históricos, mas abaixo dos níveis excepcionais registrados no ciclo anterior.

Capacidade industrial impulsiona produção recorde nos EUA

Apesar do aumento da oferta de leite nos Estados Unidos, os diferentes segmentos do mercado lácteo apresentam comportamentos distintos. A produção de queijo e manteiga segue em expansão e caminha para mais um ano recorde, impulsionada pela entrada de novas plantas e pela ampliação da capacidade industrial. Em março, tanto a produção de queijo quanto a de manteiga cresceram 1,2% na comparação anual.

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Já os produtos voltados à proteína continuam mostrando forte dinamismo. A produção de soro de leite em pó aumentou 3,6%, enquanto a de isolado proteico de soro avançou quase 12%, refletindo a demanda crescente por ingredientes proteicos.

As exportações também têm desempenhado papel importante no escoamento da produção. No primeiro trimestre de 2026, a demanda por lácteos nos EUA cresceu 4%, impulsionada por um salto de 10,6% nas exportações.

Margens passam a ser a principal preocupação

Para Fuess, o foco do mercado global está deixando de ser o crescimento da produção e passando a ser a rentabilidade das fazendas. “Em praticamente todas as regiões, a principal preocupação é o aumento potencial dos custos de produção, que pode pressionar as margens na segunda metade deste ano e em 2027”, afirma.

Energia, fertilizantes e juros continuam entre os principais fatores de risco. Além disso, as tensões geopolíticas no Oriente Médio e no Estreito de Hormuz aumentam as incertezas sobre os custos futuros. Ao mesmo tempo, os preços do leite tendem a oscilar dentro de uma faixa mais estável, tornando a gestão de custos cada vez mais importante para a lucratividade dos produtores.

Demanda resiste, mas clima ganha protagonismo

Do lado da demanda, o cenário segue misto, mas encontra suporte no forte consumo de proteínas. “Um ponto positivo é o contínuo efeito do ‘halo da proteína’, que sustenta a demanda por lácteos em muitas regiões, especialmente pelas proteínas do soro”, destaca Fuess.

Por outro lado, a inflação dos alimentos pode alterar o comportamento dos consumidores e pressionar as margens do varejo.

O clima também surge como um fator de atenção crescente.

“Há preocupações com um El Niño forte, que poderia impactar a produção de leite em grande parte da América do Sul, além da Austrália e da Nova Zelândia”, alerta.

Na avaliação de Fuess, o mercado global de lácteos está deixando para trás um ciclo de crescimento impulsionado pela oferta e entrando em uma fase mais equilibrada — e também mais complexa. “O crescimento da produção de leite provavelmente vai cessar, ajudando a restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda”, afirma.

Mas, com o Big-7 ainda determinando os rumos do mercado internacional e os Estados Unidos mantendo sua trajetória de expansão, os próximos anos deverão ser marcados menos por tendências lineares e mais pela interação entre oferta, demanda, custos e clima.

As informações são do Dairy Herd Management, traduzidas e adaptadas pela Equipe MilkPoint. 

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