Andres Padilla: demanda estagnada e pressão no consumo devem acelerar consolidação no leite

Em um cenário global marcado por transformações profundas na produção, no consumo e na dinâmica do comércio internacional de lácteos, eficiência, escala e capacidade de adaptação serão determinantes para a sobrevivência da atividade nos próximos anos.

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Durante o Milk Pro Summit, Andres Padilla, do Rabobank, destacou a importância de eficiência e adaptação na produção de lácteos frente a um comércio internacional em transformação. A China avança com megafazendas, enquanto a Europa enfrenta queda na produção devido a regulamentações e custos. Nos EUA, a produtividade cresce, impulsionada pelo modelo "beef on dairy". A América do Sul enfrenta volatilidade, com o Brasil mostrando rentabilidade em alguns segmentos. A demanda global por lácteos está estagnada, refletindo mudanças demográficas e pressões econômicas. A competição aumentará, favorecendo produtores mais eficientes.
Em um cenário global marcado por transformações profundas na produção, no consumo e na dinâmica do comércio internacional de lácteos, eficiência, escala e capacidade de adaptação serão determinantes para a sobrevivência da atividade nos próximos anos. O alerta foi feito por Andres Padilla, do Rabobank, durante palestra no Milk Pro Summit, ao analisar os movimentos que vêm redesenhando o mapa global do leite.

Figura 1

Ao longo da apresentação, Padilla mostrou como as principais regiões produtoras do mundo vivem realidades distintas, mas convergem para um mesmo ponto: a necessidade crescente de eficiência operacional, gestão de risco e ganho de produtividade em um ambiente de margens mais apertadas e consumidores pressionados economicamente.

Um dos destaques da análise foi a China. Entre 2018 e 2023, o país promoveu uma transformação acelerada em sua cadeia leiteira, impulsionada principalmente pelo avanço das megafazendas. Segundo Padilla, a velocidade com que os chineses conseguem estruturar grandes projetos produtivos impressiona o mercado global. “Hoje, cerca de 50% das fazendas da China já ordenham mais de 5 mil vacas”, destacou. Apesar do crescimento expressivo nos últimos anos, a avaliação é de que o país esteja próximo de atingir seu limite de expansão produtiva. “Eles conseguiram fazer essa mudança muito rapidamente, mas será difícil continuarem crescendo no mesmo ritmo. Provavelmente já atingiram o teto”, avaliou.

Na Europa, o cenário caminha na direção oposta. Depois de um período de expansão impulsionado pelo fim das cotas de produção, a União Europeia deve enfrentar redução na oferta de leite nos próximos anos. O avanço das regulamentações ambientais, políticas de bem-estar animal, regras relacionadas ao uso da água, envelhecimento da população e aumento dos custos de produção vêm pressionando o modelo europeu.

A expectativa apresentada por Padilla é de uma queda de cerca de 5% na produção, mesmo com um rebanho aproximadamente 18% menor. Além disso, o excedente exportável europeu pode recuar até 40%, alterando significativamente a dinâmica do mercado internacional.

Diante desse contexto, os europeus buscam alternativas para preservar competitividade, incentivando a entrada de novos produtores, ampliando a produção de itens de maior valor agregado, diversificando mercados e fortalecendo as sinergias dentro da cadeia.

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Já os Estados Unidos seguem em trajetória consistente de crescimento e consolidam presença cada vez maior no mercado internacional de lácteos. O avanço da produtividade por vaca e a integração entre as cadeias de carne e leite — especialmente com o modelo “beef on dairy” — aparecem como motores deste movimento.

Padilla destacou que a produtividade média das vacas norte-americanas saltou de aproximadamente 8 mil kg para 12 mil kg desde os anos 2000, um avanço de cerca de 40%. Paralelamente, a alta dos preços da carne bovina elevou significativamente a rentabilidade das fazendas leiteiras por meio da venda de animais oriundos do cruzamento entre gado leiteiro e de corte. “Boa parte da margem dos produtores norte-americanos está vindo do beef on dairy”, explicou.

Outro diferencial dos Estados Unidos está na gestão de risco. Segundo Padilla, os produtores americanos utilizam amplamente ferramentas de hedge e mercado futuro para proteção de preços. “O produtor nos EUA continua crescendo independentemente do cenário”, afirmou.

Enquanto isso, a América do Sul enfrenta um ambiente de maior volatilidade, marcado por oscilações frequentes na produção, influenciadas principalmente pelo clima, pelas questões macroeconômicas e pela instabilidade financeira.

No caso brasileiro, Padilla questionou uma percepção recorrente do setor: a ideia de que as margens no leite são necessariamente inferiores às observadas em outros países. “Em cinco dos últimos sete anos, o indicador RMCA (receita menos custo com alimentação) foi maior no Brasil do que nos Estados Unidos”, ressaltou.

Segundo ele, os resultados mostram que existe rentabilidade no sistema brasileiro, especialmente entre os produtores mais eficientes e de maior escala. A tendência, portanto, é de continuidade do processo de consolidação da atividade. “O ROIC aumenta significativamente entre os produtores maiores. Os grandes produtores devem continuar crescendo”, afirmou.

Entre os fatores que impulsionam essa consolidação estão os desafios relacionados à mão de obra, ao custo do capital e à necessidade de adaptação à volatilidade climática. Além das grandes potências tradicionais, Padilla também chamou atenção para o avanço de novos polos de produção leiteira, especialmente no Oriente Médio. Países da região vêm investindo pesadamente em megafazendas com foco em autonomia alimentar e redução da dependência de importações.

Ao abordar o consumo global, o executivo apontou que a demanda por lácteos atravessa um período de estagnação, pressionada principalmente pelo aumento do custo de vida. “A vida ficou mais cara para o consumidor comum”, afirmou.

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Segundo ele, alimentos frescos passaram a ter tickets mais elevados quando comparados aos produtos industrializados, o que impacta diretamente o consumo em diversos mercados. Além disso, mudanças demográficas vêm alterando estruturalmente o perfil da demanda mundial.

O aumento do custo para formar famílias, a queda das taxas de fertilidade e o envelhecimento populacional em diversos países já geram reflexos importantes no setor lácteo. Padilla citou como exemplo o mercado de fórmula infantil, tradicionalmente relevante para a indústria de lácteos, mas que vem sofrendo impactos diretos dessas mudanças. Ao mesmo tempo, destacou o crescimento acelerado do mercado pet como um reflexo das novas dinâmicas sociais e de consumo.

Nos Estados Unidos, segundo ele, o consumidor global vive sob forte pressão inflacionária enquanto o valor dos ativos segue em alta, criando um ambiente de menor otimismo em relação ao futuro. “O consumidor está com dificuldade no dia a dia e menos otimista”, resumiu.

Ao final da palestra, Padilla reforçou que a produção global tende a acelerar sempre que houver rentabilidade positiva no campo, como ocorre historicamente com as commodities agrícolas. No entanto, alertou que a combinação entre demanda estagnada, mudanças de consumo e margens mais apertadas deve tornar o ambiente ainda mais competitivo. “A margem para erro será menor nos próximos anos”, afirmou.

Segundo ele, a rentabilidade tende a permanecer concentrada entre produtores e indústrias mais eficientes, enquanto diferentes distorções regionais continuarão influenciando a curva global de oferta — seja pelo avanço do “beef on dairy” nos Estados Unidos, pelos subsídios europeus, pelos prêmios pagos por volume no Brasil ou pelos investimentos públicos e privados em megafazendas na China, Argélia e Indonésia.

Na avaliação de Padilla, produtores sem crescimento consistente e sem margens positivas terão cada vez mais dificuldade de permanecer na atividade no longo prazo, ficando permanentemente expostos à volatilidade do mercado.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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