Como outros países blindam o leite da volatilidade e o que o Brasil pode aprender?

A volatilidade tornou-se uma das principais marcas da cadeia leiteira nos últimos anos. Diante desse cenário, discutir gestão de risco deixou de ser um tema secundário e passou a ocupar posição estratégica dentro do setor.

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A volatilidade tornou-se uma das principais marcas da cadeia leiteira nos últimos anos. Oscilações de preços, mudanças climáticas, instabilidade de mercado, custos de produção, questões institucionais e riscos financeiros passaram a pressionar cada vez mais produtores, indústrias e cooperativas. Diante desse cenário, discutir gestão de risco deixou de ser um tema secundário e passou a ocupar posição estratégica dentro do setor.

Foi esse o foco da palestra de Glauco Carvalho, pesquisador da Embrapa, durante o Milk Pro Summit. Ao analisar modelos adotados em diferentes países, Carvalho mostrou que o Brasil ainda possui espaço significativo para evoluir em previsibilidade, proteção de margem e instrumentos de gestão capazes de reduzir a exposição da cadeia à volatilidade. “Na gestão de risco existem várias fontes de risco: produtivo, humano, institucional, financeiro e mercadológico”, destacou.

Segundo ele, o principal objetivo das estratégias de gerenciamento de risco é justamente reduzir a volatilidade do negócio e aumentar a previsibilidade da renda ao longo do tempo.

Ao longo da apresentação, Carvalho comparou diferentes modelos internacionais de gestão de risco utilizados por grandes regiões produtoras de leite, mostrando como cada país construiu mecanismos próprios para proteger produtores e indústrias das oscilações do mercado.

Na Europa, por exemplo, predominam contratos privados de preço fixo estabelecidos entre produtores com cooperativas e produtores com indústrias. O sistema permite maior previsibilidade de receita e redução da exposição às oscilações de mercado. “É um modelo que pode ser utilizado no Brasil? Sim. Mas é uma estratégia que precisa ser melhor trabalhada”, afirmou.

Nos Estados Unidos, a gestão de risco faz parte da própria estrutura da política agrícola nacional. Carvalho relembrou a evolução histórica da Farm Bill, que passou por diferentes fases ao longo das décadas: inicialmente focada em suporte de preços e controle de oferta, depois direcionada à garantia de renda e, atualmente, centrada principalmente em gerenciamento de risco.

Nesse modelo, o produtor norte-americano conta com forte apoio em ferramentas como seguros de receita, derivativos financeiros e programas subsidiados pelo governo.

Já na Nova Zelândia, a lógica é fortemente centralizada na atuação da cooperativa Fonterra, que oferece programas de preço fixo, definição de preço mínimo, faixas de preços e contratos adicionais por temporada.

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Segundo Carvalho, a grande diferença do modelo neozelandês é que a própria Fonterra realiza toda a intermediação financeira e operacional das estratégias de hedge, simplificando o acesso do produtor às ferramentas. “O objetivo é criar uma blindagem estratégica e possibilitar receitas mais previsíveis no longo prazo”, explicou.

Como outros países blindam o leite da volatilidade e o que o Brasil pode aprender?

Ao trazer a discussão para o cenário brasileiro, o pesquisador destacou que a volatilidade aumentou significativamente na última década — mesmo sendo inferior à observada em commodities como milho e soja.

Além das oscilações de mercado, o setor leiteiro brasileiro ainda convive com forte sazonalidade de produção, embora em menor intensidade do que no passado. Isso faz com que muitos produtores enfrentem dificuldades para atravessar períodos de baixa sem comprometer fluxo de caixa e capacidade de investimento. “É importante construir fluxo de caixa para enfrentar momentos de baixa”, ressaltou.

Segundo Carvalho, historicamente o mercado de leite UHT costuma exercer forte influência sobre toda a cadeia. Quando o preço do produto recua, os efeitos acabam se espalhando rapidamente pelos demais segmentos do setor.

Um dos pontos de maior destaque da palestra foi a apresentação do novo mercado futuro de leite, lançado no Brasil pela StoneX neste mês de maio. A ferramenta foi criada justamente com o objetivo de ampliar as possibilidades de proteção de preço e gestão de risco para diferentes agentes da cadeia. Os contratos contemplam quatro produtos: leite UHT, leite ao produtor, queijo muçarela e leite em pó integral.

Os volumes foram definidos com base na experiência internacional da empresa e buscam atender desde pequenos até grandes participantes do mercado. Apesar dos tamanhos padronizados dos contratos, também existe possibilidade de fracionamento, ampliando potencialmente o acesso às ferramentas.

Segundo Carvalho, mecanismos como mercado futuro, hedge e contratos de preço fixo ajudam a construir maior previsibilidade financeira para produtores e indústrias. “Com isso, posso ter um valor médio talvez melhor”, explicou ao comentar as possibilidades da ferramenta.

Ao comparar Brasil e Estados Unidos, o pesquisador mostrou diferenças estruturais importantes na forma como os dois países lidam com gestão de risco.

Enquanto nos EUA a previsibilidade é mais elevada, com uso intenso de seguros e instrumentos de bolsa, no Brasil o preço do leite ainda costuma ser definido apenas após a entrega do produto.

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Também existem diferenças relevantes no papel do governo. Nos Estados Unidos, há subsídios para prêmios de seguro e forte apoio institucional às ferramentas de proteção de margem. Já no Brasil, predominam crédito rural e intervenções pontuais de mercado.

Outra diferença importante está no foco da gestão. Enquanto os produtores norte-americanos trabalham fortemente orientados pela margem operacional — especialmente no indicador “milk over feed cost” — o setor brasileiro ainda concentra grande parte da análise apenas no preço bruto por litro.

Além disso, as ferramentas predominantes também mudam. Nos EUA, derivativos financeiros e seguros de receita fazem parte da rotina do setor. No Brasil, ainda prevalecem contratos bilaterais e relações construídas principalmente via cooperativismo.

Ao final da palestra no Milk Pro Summit, Glauco Carvalho reforçou que o avanço da gestão de risco no leite brasileiro não depende apenas da criação de ferramentas financeiras, mas também da mudança cultural dentro da cadeia.

Em um ambiente cada vez mais volátil e competitivo, previsibilidade tende a se tornar um dos ativos mais valiosos para produtores, cooperativas e indústrias. E, na avaliação do pesquisador, aprender com modelos internacionais pode acelerar a construção de uma cadeia mais resiliente e preparada para enfrentar os ciclos do mercado.

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Material escrito por:

Raquel Maria Cury Rodrigues

Raquel Maria Cury Rodrigues

Head do MilkPoint e Zootecnista pela UNESP de Botucatu

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Samuel Jose de Magalhaes Oliveira
SAMUEL JOSE DE MAGALHAES OLIVEIRA

JUIZ DE FORA - MINAS GERAIS - PESQUISA/ENSINO

EM 29/05/2026

Ótimo conteúdo. Parabéns!
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