No painel gestão de pessoas e liderança, dois nomes de referência compartilharam experiências práticas sobre construção de cultura, formação de equipes e gestão de sistemas de alta performance.
Paulo Fernando Machado, da Clínica do Leite, conduziu a palestra “A mentalidade vencedora dos produtores de sucesso”, abordando como crenças, cultura organizacional e padronização de processos sustentam operações resilientes e lucrativas no longo prazo.
Já Greg Bethard, da High Plains Ponderosa Dairy, no Kansas (EUA), trouxe ao público a palestra “Como se tornar um excelente CEO em uma fazenda leiteira”, conectando visão empresarial, gestão de capital, liderança e tomada de decisão baseada em dados dentro de operações de grande escala.
Apesar das diferenças de contexto entre Brasil e Estados Unidos, os dois palestrantes convergiram em um mesmo ponto: fazendas de alta performance não são construídas apenas com tecnologia, vacas produtivas ou investimentos milionários. Elas nascem da cultura.
O que garante que uma fazenda continuará forte no futuro?
Logo no início de sua palestra, Paulo Machado lançou uma provocação direta aos produtores de leite presentes: “Qual é a garantia de que vocês continuarão sendo um sucesso daqui a 1, 5 ou 10 anos?” A pergunta abriu espaço para uma reflexão profunda sobre um dos maiores desafios da produção leiteira moderna: a consistência.
Segundo Paulo, muitas fazendas conseguem atingir excelentes resultados pontuais, mas poucas conseguem manter estabilidade operacional ao longo do tempo. E isso acontece porque grande parte das operações ainda funciona apoiada em esforços individuais, improvisos e correções emergenciais — e não em sistemas sólidos e controlados.
“O foco não deve estar apenas nos resultados, mas em processos que entreguem resultados sem variação.” Para ele, o verdadeiro diferencial competitivo das fazendas vencedoras não é apenas produzir mais leite, mas construir sistemas capazes de operar com previsibilidade, estabilidade e resiliência.
Crescer sem controle pode destruir o negócio
Ao longo da palestra, Paulo reforçou que muitos produtores buscam expansão antes mesmo de consolidar os fundamentos da operação. “Não importa o número de vacas ou a produção. Se os processos não estiverem estabilizados, crescer aumenta muito as chances do negócio não dar certo.”
Segundo ele, a base de qualquer crescimento sustentável está na estabilização dos chamados “4 Ms”: mão de obra, máquinas, métodos e materiais. Somente depois disso a fazenda cria capacidade real de expansão sem aumentar descontrole, desperdícios e variações de resultado. A mensagem foi clara: produtividade sem gestão não garante longevidade.
Excelência não nasce do improviso
Ao conectar mentalidade e operação, Paulo destacou que sistemas consistentes não surgem por acaso. Eles dependem de disciplina, repetição e cultura organizacional.
Para isso, apresentou ferramentas de gestão amplamente utilizadas na indústria e que, cada vez mais, precisam fazer parte da rotina das fazendas leiteiras: 5S, Kaizen, Kanban, PDCA, Poka Yoke, programas de manutenção preventiva, instruções de trabalho e treinamentos estruturados. Mas fez um alerta importante: ferramentas, sozinhas, não resolvem problemas. “Os princípios não crescem em solo inóspito.”
Segundo Paulo, muitos negócios falham não por falta de técnica, mas por ausência de ambiente adequado para as pessoas trabalharem, aprenderem e evoluírem.
Cultura organizacional: a base invisível das fazendas fortes
Para o especialista, fazendas resilientes são construídas sobre princípios sólidos de convivência e liderança. Entre eles, destacou confiança, trabalho em equipe, responsabilidade, respeito, desenvolvimento individual e segurança emocional dentro das operações. “A empresa é uma comunidade. As pessoas vivem lá, moram lá.”
Paulo também apresentou três crenças que, segundo ele, sustentam organizações de excelência:
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a vida é precária;
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a empresa é uma comunidade;
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o aprendizado é o motor da excelência.
A primeira delas reconhece uma realidade inevitável da atividade leiteira: existem inúmeras variáveis fora do controle do produtor — clima, mercado, custos, juros e volatilidade. Por isso, o sistema precisa ser robusto o suficiente para suportar oscilações sem colapsar.
Já a ideia de que a empresa é uma comunidade muda completamente a forma de enxergar pessoas dentro da fazenda. Nesse modelo, colaboradores deixam de ser apenas mão de obra e passam a ser parte estratégica da sustentabilidade do negócio. Por fim, Paulo defendeu que a excelência operacional depende diretamente da capacidade de aprendizado contínuo.
Isso exige líderes mais presentes, capazes de formar pessoas competentes, transformar erros em aprendizado e desenvolver equipes dentro do ambiente de trabalho. “Não devemos punir o erro, mas aprender com ele.”
O papel do CEO dentro da fazenda
Na sequência do painel, Greg Bethard trouxe uma visão prática sobre liderança empresarial dentro da produção de leite. Como sócio administrador da High Plains Ponderosa Dairy, no Kansas, ele apresentou a lógica de gestão utilizada em operações de grande escala nos Estados Unidos e reforçou que o papel do CEO vai muito além da gestão financeira. “O meu trabalho é identificar as melhores oportunidades para gerar retorno sobre o capital.”
Ainda assim, Greg deixou claro que nenhum sistema prospera sem envolvimento genuíno do líder com a atividade. “Você precisa realmente gostar da produção de leite. Tem que ralar muito. Sem paixão, tudo vira uma dureza.”
O sistema é mais importante que a vaca
Uma das frases mais marcantes do painel veio justamente ao discutir a expansão e sustentabilidade das operações. “O sistema é mais importante que a vaca.”
A afirmação resume uma mudança importante dentro da pecuária leiteira moderna: vacas excepcionais não compensam sistemas ruins. Para Greg, fazendas fortes dependem de processos bem desenhados, pessoas capacitadas, gestão de risco e tomada de decisão baseada em dados. Ele destacou que acompanha diariamente a rotina da fazenda, participa das principais decisões e mantém presença constante na operação. “Sujar a bota todos os dias continua sendo indispensável.”
Liderança é desenvolver pessoas
Outro ponto central da apresentação foi a importância das equipes dentro das fazendas em crescimento. Segundo Greg, conforme as operações aumentam de tamanho, as pessoas se tornam ainda mais importantes.
Isso exige líderes capazes de contratar talentos, desenvolver equipes e construir relacionamentos sólidos — inclusive com investidores e instituições financeiras. “O pessoal que me empresta dinheiro também é meu sócio.” Ele também reforçou a importância da humildade dentro da gestão. “Você não aprende nada de graça.” Para Greg, fracassos fazem parte do processo de construção de grandes operações e precisam ser encarados como oportunidades de evolução.
Rentabilidade também é sustentabilidade
Ao final do painel, Greg conectou eficiência econômica com responsabilidade social e ambiental. Segundo ele, fazendas sustentáveis precisam equilibrar rentabilidade, cuidado com as pessoas, relação com a comunidade e preservação dos recursos naturais. Ele reforçou uma visão cada vez mais presente no setor: sustentabilidade não é apenas uma pauta ambiental, mas também econômica, humana e operacional.
Mais do que discutir liderança, o painel do Milk Pro Summit deixou uma mensagem ampla sobre o futuro da atividade leiteira: as fazendas mais fortes dos próximos anos provavelmente não serão apenas as maiores ou mais tecnificadas, mas aquelas capazes de construir cultura, desenvolver pessoas e operar sistemas resilientes em um ambiente cada vez mais desafiador.
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