Foi justamente sobre essa jornada que falou Anna Pinto, gerente da Fazenda Bom Retiro, de Pouso Alto (MG), durante sua palestra no Milk Pro Summit, evento que ocorreu nos dias 28 e 29 de maio em Atibaia/SP. Em uma apresentação marcada por reflexões pessoais, aprendizados de gestão e resultados concretos, ela compartilhou os desafios e as transformações vividos ao longo do processo de sucessão familiar dentro de uma das mais tradicionais propriedades leiteiras do país.
Formada em Gestão do Agronegócio pela Universidade Federal de Viçosa, Anna contou que sua trajetória no negócio da família não começou diretamente na atividade leiteira. Antes de ingressar na fazenda, trabalhou na granja de postura do grupo, experiência que, segundo ela, ajudou a mostrar qual caminho realmente desejava seguir.
Quando decidiu entrar na operação leiteira, assumiu inicialmente uma posição de aprendizado. Como assistente técnica, era responsável por atividades como lançamentos de informações e gestão dos dados zootécnicos da propriedade. "Foi um período longo de aprendizado para entender não apenas o funcionamento do negócio, mas também as relações que existem dentro dele", relatou.
A virada, segundo Anna, veio com a adoção de uma metodologia estruturada de gestão, que trouxe maior clareza sobre os desafios e oportunidades da fazenda. O trabalho envolveu diagnóstico detalhado da operação, definição de indicadores, construção de planos de ação e estabelecimento de metas objetivas. "O método trouxe a organização que faltava para transformar informação em tomada de decisão", destacou.
A profissionalização da gestão ajudou a sustentar um crescimento expressivo da operação ao longo da última década. Entre 2016 e 2026, a produção diária saltou de 11,5 mil litros para mais de 58 mil litros de leite. Atualmente, a Fazenda Bom Retiro conta com cerca de 1.380 vacas em lactação, sendo aproximadamente 40% delas primíparas.
Mas, para Anna, os números são consequência de algo maior: o investimento contínuo em pessoas.
A estrutura da fazenda foi organizada com setores bem definidos, líderes responsáveis por cada área, treinamentos de liderança, acompanhamento de recursos humanos, revisão periódica de procedimentos e reuniões semanais de alinhamento.
Ela destacou especialmente a importância do suporte profissional voltado ao desenvolvimento humano, incluindo o acompanhamento psicológico e o fortalecimento das relações interpessoais dentro da equipe. "Grande parte da sustentabilidade do negócio está na capacidade de desenvolver pessoas e formar líderes", afirmou.
Ao abordar a sucessão familiar, Anna compartilhou momentos que classificou como verdadeiras crises de transformação. Entre eles, as dúvidas sobre seu papel após assumir a gerência da fazenda, mudanças importantes dentro dos negócios da família e o peso de dar continuidade a uma trajetória construída ao longo de décadas.
Segundo ela, enfrentar esses períodos exigiu conversas difíceis, disposição para ouvir e confiança mútua. "Aprendemos a trabalhar juntos por meio de muitos diálogos", resumiu.
Um dos principais aprendizados apresentados durante a palestra foi a necessidade de enxergar a sucessão além da transferência de responsabilidades. Para Anna, trata-se de um processo de construção conjunta, no qual diferentes gerações precisam encontrar formas de colaborar sem perder suas identidades.
Nesse contexto, ela chamou atenção para uma armadilha comum enfrentada por sucessores: a comparação constante. "Comparar trajetórias diferentes, vividas em momentos diferentes e com ferramentas diferentes, raramente é justo", observou.
Ao mesmo tempo, destacou que a herança recebida também carrega expectativas, pressões e responsabilidades que precisam ser compreendidas e enfrentadas. "É preciso aceitar o legado, aprender com a experiência de quem veio antes e, ao mesmo tempo, construir sua própria identidade."
Outro ponto central da apresentação foi a importância do autoconhecimento. Para ela, compreender as próprias limitações, emoções e comportamentos é um passo fundamental não apenas para o desenvolvimento pessoal, mas também para uma gestão mais eficiente. "O autoconhecimento é libertador e fortalece o controle emocional necessário para liderar pessoas e tomar decisões", afirmou.
Ao refletir sobre a convivência entre diferentes gerações dentro da empresa familiar, Anna resumiu o desafio em uma frase frequentemente ouvida em propriedades rurais: "sempre fiz assim".
Segundo ela, a experiência acumulada pelos fundadores merece respeito. Afinal, os resultados alcançados ao longo dos anos não aconteceram por acaso.
Por outro lado, destacou que a permanência dos negócios exige abertura para mudanças, novas tecnologias e adaptações constantes. "É uma relação que exige humildade dos dois lados: para ensinar, para aprender, para adaptar e para confiar."
Encerrando sua participação, Anna reforçou que um negócio verdadeiramente sustentável precisa ser capaz de funcionar além da presença diária dos proprietários, apoiado em processos sólidos, liderança distribuída e equipes engajadas.
Ainda assim, lembrou que existe um elemento insubstituível em qualquer empresa familiar: os valores transmitidos pelas pessoas que construíram o negócio. "O olhar do dono sempre será insubstituível. É ele que guia a empresa por meio dos princípios e valores demonstrados todos os dias."
Mais do que uma palestra sobre sucessão, a apresentação de Anna Pinto mostrou que a continuidade dos negócios familiares passa pela capacidade de equilibrar tradição e inovação, resultados e relações, gestão e humanidade. E que, muitas vezes, o maior patrimônio de uma fazenda não está apenas na estrutura ou nos animais, mas nas pessoas que aprendem, geração após geração, a construir o futuro juntas.
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