Essa redução está diretamente associada à prática do beef-on-dairy, que consiste no cruzamento de vacas leiteiras com touros de raças de corte, como o Angus, gerando bezerros direcionados à produção de carne em vez da produção de leite. A estratégia ganhou tração a partir de 2023 com a alta nos preços da carne bovina, impulsionada pelo fato do rebanho de corte americano ter atingido o menor nível desde 1961.
Corey Geiger, economista-chefe de laticínios do CoBank (em Omro, Wisconsin), descreve o cenário atual do setor: "Esta é uma situação dinâmica que está ocorrendo nas fazendas de leite, na indústria de laticínios dos EUA como um todo: as novilhas de reposição, todas as novilhas leiteiras, estão no nível mais baixo desde 1978. Portanto, balançamos o pêndulo um pouco longe demais ao produzir bezerros beef-on-dairy."
Dados de Mercado e Dinâmica do Rebanho
Segundo dados da Associação Nacional de Criadores de Animais dos EUA citados por Geiger, foram comercializadas 9,8 milhões de unidades de sêmen de touros de corte nos EUA no último ano, das quais quase 80% foram destinadas a propriedades leiteiras. Geiger aponta os fatores de custo que impulsionaram o movimento: "À medida que os preços da carne bovina começaram a subir, as novilhas leiteiras passaram a ter mais valor nos confinamentos do que nos estábulos de leite, porque custava cerca de US$ 2.000 por cabeça para criá-las. Foi mais ou menos aí que o movimento beef-on-dairy começou. Portanto, há muitos desses bezerros beef-on-dairy, e seus preços estão ficando cada vez mais altos."
Em contrapartida, o rebanho total de vacas leiteiras nos EUA registrou crescimento de 212.000 cabeças em relação ao ano anterior, totalizando 9,6 milhões de unidades, o maior inventário em mais de 30 anos. Para viabilizar esse crescimento em um cenário com menos animais jovens entrando no sistema, os produtores reduziram o descarte de matrizes antigas. "O rebanho de vacas leiteiras está, na verdade, com o maior inventário por aqui em mais de 30 anos, com 9,6 milhões de unidades. Se estou conversando com públicos de produtores de leite, eu digo que, em alguns casos, o útero da vaca tem mais valor do que a própria vaca, devido ao valor do bezerro de pelagem preta. A única maneira de expandir o rebanho leiteiro é reter as vacas leiteiras. Por isso, reduzimos o descarte de vacas leiteiras. O que isso significa nas fazendas de leite dos EUA? Nossas vacas estão ficando mais velhas", afirma Geiger.
Impacto nos Preços e Projeções de Abastecimento
Na parte operacional, Blake Hansen, coproprietário da Hansen’s Dairy em Hudson, Iowa — propriedade que utiliza touros de corte em uma pequena parcela do rebanho há mais de dez anos —, confirma a valorização dos animais em leilões e frigoríficos: "Os bezerros machos estão incrivelmente caros – refiro-me aos bezerros machos da raça Holandesa. E então, é claro, os bezerros de pelagem preta estão ainda mais caros. É a melhor coisa que já aconteceu para os pecuaristas de corte e para a indústria de laticínios, no que me diz respeito. Estamos esperando por esse aumento de preço há muito tempo, porque houve muitos anos em que eles não ganharam muito dinheiro com o que fazem."
A longo prazo, Hansen projeta potenciais reflexos no mercado de laticínios: "Isso vai limitar a oferta de... novilhas em geral e, depois, também vai limitar a oferta de leite no futuro, porque os produtores não terão o suprimento de novilhas para repor seu rebanho de vacas. Por enquanto, o preço do leite está um pouco baixo, mas acho que até o final do ano ou entrando em 2027, teremos preços de leite realmente altos devido à escassez de novilhas."
Custos de Reposição e Comportamento dos Produtores
A projeção de Geiger com base nos dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) — que, segundo ele, podem subestimar a real dimensão do problema — aponta que o mercado terá 438.000 novilhas de reposição a menos entrando na linha de ordenha neste ano em comparação com o ano anterior, prevendo uma recuperação de 285.000 animais apenas para 2027.
Essa redução na oferta causou reflexos diretos nos preços de mercado. Conforme o relatório de Geiger, o valor de mercado das novilhas de reposição, que ficava entre US$ 1.400 e US$ 1.500 no período de 2015-2016, atingiu a marca recorde de US$ 3.100 em outubro. Registros de leilões realizados no início de maio em Withee, Wisconsin, indicaram lotes de novilhas leiteiras comercializados acima de US$ 4.000 por cabeça.
Como resposta a esse aumento de custos, algumas propriedades rurais começaram a direcionar investimentos para a genética seletiva visando assegurar o nascimento de fêmeas. Julie Bacon, coproprietária da Bacon’s Rolling Acres em Columbus, Wisconsin, descreve a tomada de decisão da fazenda diante do custo de oportunidade: "É realmente surpreendente porque os preços do leite estão tão baixos, mas ainda estamos vendo preços recordes para as novilhas. Especialmente aquelas prontas para entrar direto na linha de ordenha. E, pessoalmente, nossa fazenda está em expansão e estamos inseminando mais usando sêmen sexado para tentar obter mais bezerras. Mas você ainda está sacrificando algo – porque poderia estar vendendo um bezerro de corte –, há um custo de oportunidade aí."
Em relação à duração do cenário atual de rentabilidade com o cruzamento industrial, Corey Geiger indica o sinalizador de mercado que deve marcar o fim deste ciclo: "O primeiro... indicador de que isso pode estar chegando ao fim é quando... os pecuaristas de corte começarem a reter novilhas. Então eu penso: é preciso aproveitar a oportunidade enquanto ela dura, como muitos produtores costumam dizer. E esta onda de beef-on-dairy é o momento em que o sol está brilhando, e é hora de aproveitar."
As informações são da PBS, traduzidas e adaptadas pela equipe MilkPoint.
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