Foi essa estratégia que Tatiani Bula Sundgaard, da Arla Foods, apresentou durante o Milk Pro Summit. Na palestra "Tecnologias, programas de incentivo e parcerias para promover a transformação dos produtores de leite", a executiva mostrou como a cooperativa dinamarquesa vem utilizando dados, tecnologia e colaboração para acelerar a transição sustentável nas propriedades leiteiras.
Segundo ela, a jornada começou muito antes de a sustentabilidade ganhar protagonismo no setor. "Na Arla, as primeiras discussões sobre sustentabilidade começaram em 2008. Assumimos uma agenda bastante ambiciosa porque entendemos que construir um futuro sustentável também significa garantir a rentabilidade dos produtores."
Hoje, a estratégia faz parte da visão da cooperativa de se tornar líder em criação de valor e sustentabilidade, apoiando milhares de produtores associados distribuídos em sete países.
Sustentabilidade começa com dados
Para Tatiani, a sustentabilidade só pode ser gerenciada quando é possível medi-la. Por isso, a Arla desenvolveu o FarmAhead Technology, um modelo que reúne ferramentas digitais, indicadores e incentivos financeiros para apoiar a evolução das fazendas.
O sistema funciona como uma plataforma de acompanhamento individual. Cada produtor acessa seus próprios resultados, visualiza sua pontuação em sustentabilidade e pode comparar seu desempenho com a média nacional e com outros produtores da cooperativa. "O objetivo não é apenas medir. É mostrar ao produtor onde ele está, onde pode melhorar e incentivar essa evolução."
Esse processo é acompanhado por um sistema de remuneração. Os produtores acumulam pontos conforme adotam práticas sustentáveis e recebem incentivos financeiros pagos trimestralmente. Segundo Tatiani, esse formato cria um estímulo contínuo para que as melhorias saiam do papel e façam parte da rotina das propriedades.
O maior banco de dados climáticos da pecuária leiteira
A base de todo esse modelo é o FarmAhead Check, considerado pela Arla o maior banco de dados do mundo sobre emissões climáticas em fazendas leiteiras. A ferramenta reúne quatro anos de informações coletadas diretamente em milhares de propriedades distribuídas por sete países. Os dados são obtidos por meio de questionários respondidos pelos produtores e posteriormente validados em visitas e auditorias realizadas nas fazendas.
Esse volume de informações permitiu identificar quais fatores concentram a maior parte das emissões de carbono dentro das propriedades. Segundo a executiva, cerca de 73% da pegada de carbono está relacionada a cinco grandes frentes: eficiência alimentar, uso de fertilizantes, manejo do solo, eficiência no uso de proteínas na dieta e saúde e longevidade do rebanho.
A partir desse diagnóstico, a cooperativa direciona seus programas de melhoria para temas considerados prioritários, como otimização da alimentação dos animais, gestão dos dejetos, produção eficiente de alimentos, adoção de energias renováveis, aumento do sequestro de carbono e fortalecimento das práticas de bem-estar animal. "Na Arla, enxergamos isso como um ecossistema completo. Não estamos falando apenas de clima, mas de todo o sistema produtivo."
Tecnologia que gera aprendizado — e não apenas indicadores
Mais do que monitorar resultados, a plataforma foi desenhada para estimular o aprendizado entre os próprios produtores. Ao comparar seu desempenho com o de colegas da mesma região ou do país, cada associado consegue identificar oportunidades de melhoria e acompanhar sua evolução ao longo do tempo.
Segundo Tatiani, esse ambiente cria um ciclo positivo de desenvolvimento. "O produtor percebe onde pode avançar, melhora seus resultados, fortalece a cooperativa e também aumenta sua própria remuneração." Para a executiva, esse tipo de transparência contribui para tornar a sustentabilidade parte da gestão cotidiana das fazendas, e não apenas um requisito imposto por mercados ou regulamentações.
Inovação construída em parceria
Outro pilar da estratégia da Arla é a criação de um ambiente permanente de inovação. Por meio do programa FarmAhead Innovation, a cooperativa mantém fazendas de demonstração que funcionam como laboratórios para testar novas tecnologias, validar soluções e gerar evidências científicas antes de levá-las para um número maior de produtores.
Esses projetos são desenvolvidos em parceria com universidades, centros de pesquisa, consultores e outras organizações ligadas ao setor. As fazendas também recebem visitas de equipes comerciais, clientes e parceiros estratégicos, aproximando diferentes elos da cadeia e ampliando o entendimento sobre os desafios e as oportunidades da produção leiteira sustentável. Segundo Tatiani, essa colaboração permite acelerar a adoção de tecnologias e reduzir os riscos normalmente associados à inovação no campo.
Uma transformação que depende de toda a cadeia
Além do trabalho realizado diretamente com os produtores, a Arla também desenvolve projetos conjuntos com clientes por meio do programa FarmAhead Customer Partnership. A iniciativa conecta indústria, varejo e foodservice em ações voltadas ao financiamento da transição sustentável nas propriedades, compartilhando dados primários sobre pegada de carbono e apoiando projetos específicos dentro das fazendas.
Na avaliação da executiva, esse tipo de colaboração é fundamental para que a sustentabilidade seja economicamente viável. "Os produtores precisam desse apoio no campo. Queremos criar valor em toda a cadeia."
Ela ressalta, porém, que o modelo desenvolvido pela cooperativa foi construído para atender às características dos países onde a Arla atua. "Nosso modelo funciona para nós, dentro do nosso contexto. Talvez ele não possa ser simplesmente replicado em outros lugares, mas certamente pode inspirar."
Segundo Tatiani, cada país terá sua própria jornada de transformação, mas alguns princípios são universais: colaboração entre os diferentes elos da cadeia, visão de longo prazo, uso inteligente de dados e foco permanente na rentabilidade do produtor.
Mais do que apresentar um conjunto de ferramentas, a Arla mostrou no Milk Pro Summit que a sustentabilidade pode deixar de ser apenas um objetivo e se transformar em um modelo de gestão capaz de gerar ganhos ambientais, econômicos e produtivos para toda a cadeia do leite.
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