Durante sua palestra no Milk Pro Summit, Rodrigues traçou um panorama sobre as perspectivas do agronegócio brasileiro em meio ao que definiu como uma “era da incerteza”, marcada pela perda de protagonismo das organizações multilaterais, pela desordem institucional global e pela crescente instabilidade política e econômica no mundo. “O mundo está olhando para o Brasil com bons olhos por causa dos alimentos, da energia e da disponibilidade de terras. Existe boa vontade em relação ao Brasil lá fora, mas ela muitas vezes não se materializa por questões jurídicas. É um cenário complexo, de insegurança e desordem”, afirmou.
Segundo ele, a geopolítica mundial atravessa um momento de transformação profunda, com novos arranjos globais sendo construídos ao mesmo tempo em que antigas estruturas perdem força. Neste ambiente, o agro brasileiro passou a ocupar posição estratégica. “Estamos vivendo um tsunami que entrou no território agrícola brasileiro”, disse.
Apesar das incertezas, Rodrigues destacou que o Brasil reúne características únicas para assumir protagonismo global, especialmente diante de quatro dos principais desafios contemporâneos: a segurança alimentar, transição energética, mudanças climáticas e desigualdade social. Chamados por ele de “os modernos cavaleiros do apocalipse”, esses fatores devem redefinir a economia mundial nas próximas décadas.
A segurança alimentar, segundo o ex-ministro, deixou de ser apenas uma questão de abastecimento e passou a representar estabilidade política e social. Ao mesmo tempo, a busca global pela descarbonização amplia a importância de países capazes de produzir energia renovável e alimentos de forma sustentável.
Nesse contexto, o Brasil surge como uma potência singular.
“Devemos aumentar a produção? Sim. Mas onde? Os avanços tecnológicos permitem ampliar a produtividade sem desmatamento”, ressaltou. Rodrigues destacou que as projeções para a produção mundial de alimentos até 2026/2027 colocam o Brasil como o país com as maiores perspectivas de crescimento, acima de 40%, impulsionado por quatro fatores centrais: tecnologia, empreendedorismo, disponibilidade de terras e políticas públicas.
Entre os diferenciais competitivos brasileiros, ele chamou atenção para modelos produtivos praticamente inexistentes em outros países, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), além da matriz energética nacional, composta por cerca de 50% de fontes renováveis. “O mundo fala: Brasil, aumenta a produção — e a gente finge que não é conosco”, provocou.
Para Rodrigues, o potencial brasileiro, no entanto, depende diretamente da capacidade de organização interna do setor. Segundo ele, o país precisa construir uma estratégia integrada para transformar sua força produtiva em liderança econômica efetiva.
“Nosso time campeão é o agro”, afirmou.
O ex-ministro defendeu uma agenda estruturada envolvendo infraestrutura e logística, política de renda, comércio internacional, diplomacia, acordos comerciais, combate ao neoprotecionismo, fortalecimento da imagem do agro brasileiro, segurança jurídica, conectividade no campo, digitalização, inteligência artificial, bioinsumos, sustentabilidade, irrigação e agricultura circular.
Também reforçou a importância da organização das cadeias produtivas, da agregação de valor e da inclusão social como pilares para ampliar a competitividade brasileira no mercado internacional.
No caso do leite, Rodrigues fez uma provocação direta ao setor ao questionar por que o Brasil ainda não alcançou protagonismo global semelhante ao obtido em outras cadeias agroindustriais. “Hoje somos os maiores produtores de café, suco de laranja e tantos outros produtos. Mas e as frutas? E o leite? Por que não? Porque precisamos nos organizar”, afirmou.
Segundo ele, a construção desse avanço passa necessariamente pelo fortalecimento da relação entre produtores, indústria e cooperativas. “Tem que haver entendimento entre produtor e indústria, e a cooperativa tem papel fundamental nisso. Essa cadeia precisa se organizar cada vez mais”, destacou.
Ao abordar sustentabilidade e gestão de risco, Rodrigues também reforçou a importância do seguro rural como ferramenta essencial para garantir estabilidade ao produtor diante das crescentes incertezas climáticas e econômicas.
Na avaliação do ex-ministro, o Brasil ainda precisa desenvolver uma relação cultural mais forte com sua agricultura, algo que, segundo ele, já acontece em diversos países europeus. “Os europeus têm orgulho da agricultura deles. Isso faz parte da cultura. Precisamos seguir neste caminho”, concluiu.
Ao longo da palestra, Roberto Rodrigues reforçou que o momento atual representa, ao mesmo tempo, um período de turbulência e uma oportunidade histórica para o Brasil. Em um cenário global cada vez mais pressionado pela necessidade de produzir alimentos, energia e sustentabilidade, o país possui ativos estratégicos raros — mas precisará transformar potencial em organização para assumir o protagonismo que o mundo já espera dele.
Vale a pena ler também:
Nova Zelândia: próxima temporada deve ter preço do leite e custos mais elevados, aponta Rabobank