Muito além do copo
Do ponto de vista nutricional, o leite é um alimento de composição complexa, que fornece proteínas de alto valor biológico, cálcio, fósforo, vitamina B12, riboflavina e outros nutrientes importantes para o organismo. Sua composição reúne diferentes componentes que contribuem para uma alimentação saudável (Sonestedt, 2024).
O cálcio participa da formação e manutenção dos ossos e dentes, enquanto as proteínas fornecem aminoácidos necessários à construção e à manutenção dos tecidos corporais. A contribuição do leite e de seus derivados para a ingestão desses nutrientes pode ser particularmente relevante durante fases de crescimento e em dietas nas quais outras fontes alimentares são consumidas em quantidades insuficientes (Gil & Ortega, 2019).
Sem leite, portanto, não estaríamos condenados a uma população automaticamente menos saudável, mas teríamos um desafio nutricional importante: substituir adequadamente os nutrientes que hoje chegam à mesa por meio dos lácteos. Bebidas vegetais, leguminosas, vegetais e outros alimentos podem contribuir para essa substituição, desde que a escolha considere a composição nutricional, a fortificação e as necessidades individuais. Afinal, uma bebida vegetal não é necessariamente equivalente ao leite em proteínas, cálcio ou vitaminas (Suchy et al., 2010).
E os benefícios não terminam no leite fluido. Iogurtes, queijos e outros derivados apresentam composições e características próprias, que variam conforme o processo produtivo. Revisões científicas indicam que o consumo de determinados produtos lácteos, especialmente os fermentados, está associado a resultados favoráveis em alguns indicadores cardiometabólicos, enquanto o conjunto das evidências não aponta aumento geral do risco de doenças cardiovasculares pelo consumo de lácteos. É importante, contudo, evitar promessas milagrosas: os efeitos dependem do produto, da quantidade consumida e do padrão alimentar como um todo (Sonestedt, E. (2024).
Um mundo sem queijo, iogurte e doce de leite?
Se o leite desaparecesse, a mudança também seria sentida no supermercado, nas padarias, nas cafeterias e nas cozinhas brasileiras. Muitos alimentos precisariam ser reformulados, substituídos ou simplesmente deixariam de existir em suas versões tradicionais. Produtos como queijo, iogurte e doce de leite, além de receitas de brigadeiro, pudim e tantos outras teriam de ser reinventadas, com alterações que poderiam modificar sabor, textura, aroma e comportamento durante o processamento. O impacto seria especialmente expressivo em produtos nos quais as proteínas, a gordura e os minerais do leite desempenham propriedades tecnológicas importantes.
É verdade que a ciência de alimentos poderia desenvolver alternativas para reproduzir algumas dessas propriedades. Ingredientes vegetais, fermentação de precisão e outras tecnologias oferecem possibilidades para a criação de novos alimentos. Entretanto, desenvolver uma alternativa não significa reproduzir integralmente a composição, a funcionalidade, o sabor, o preço e a aceitação de um produto lácteo. A substituição em larga escala exigiria pesquisa, investimento, adaptação industrial e acesso a matérias-primas adequadas (Akyil et al., 2026).
E quem vive do leite?
Agora, vamos olhar para o campo. Para milhares de famílias, a produção de leite representa uma atividade econômica diária, com receitas que ajudam a pagar contas, manter propriedades e sustentar comunidades. Diferentemente de culturas agrícolas com colheitas concentradas em determinados períodos, a atividade leiteira pode proporcionar entrada frequente de recursos, embora a renda efetiva dependa de fatores como produtividade, custos de produção, preço recebido e organização da cadeia (Felis et al., 2025).
Os números ajudam a dimensionar essa importância. Em 2024, o Brasil produziu aproximadamente 35,7 bilhões de litros de leite, dos quais Minas Gerais respondeu por cerca de 9,8 bilhões. Já em 2025, a produção nacional alcançou aproximadamente 36,7 bilhões de litros, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE (IBGE, 2025). No mesmo ano, o consumo aparente foi estimado pelo Cepea em 133,1 litros em equivalente-leite por habitante, considerando o leite e seus derivados convertidos para uma unidade comum (Grigol, 2026). Esses dados ajudam a mostrar que o leite continua ocupando um espaço expressivo na alimentação e na economia brasileiras.
Diante desta perspectiva, o desaparecimento do leite provocaria uma transformação profunda nas propriedades rurais e nos negócios ligados à cadeia produtiva. Produtores, transportadores, cooperativas, técnicos, fornecedores de insumos, laboratórios, indústrias e estabelecimentos comerciais precisariam buscar novas atividades para substituir a renda perdida. A dimensão desse impacto seria variável entre regiões, mas a mudança ultrapassaria os limites das fazendas e alcançaria uma rede de serviços e empregos associados à produção e ao processamento de lácteos (Felis et al., 2025).
Também seria necessário discutir o destino dos animais, das instalações e dos investimentos realizados ao longo de anos. Uma transição dessa magnitude não aconteceria de um dia para o outro sem custos sociais, econômicos e logísticos. Por isso, falar sobre leite é falar também sobre desenvolvimento rural, segurança alimentar, geração de renda e a capacidade de uma cadeia produtiva se adaptar às transformações da sociedade (Felis et al., 2025).
O leite e seus desafios. E isso faz parte da conversa
Defender a importância do leite não significa ignorar seus desafios. A produção de ruminantes está associada a emissões de gases de efeito estufa, especialmente metano, além de demandar recursos como água, terra e alimentos para os animais. Esses impactos variam de acordo com o sistema produtivo, a eficiência, o manejo e as condições locais, o que torna inadequado tratar todas as propriedades como se produzissem da mesma maneira (Sonestedt, 2024).
Portanto, o caminho não precisa ser escolher entre defender o leite ou reconhecer os desafios da produção. É possível buscar sistemas mais eficientes, melhorar o aproveitamento dos recursos, reduzir perdas, aprimorar o manejo dos animais e desenvolver estratégias para diminuir a intensidade das emissões. O desafio está em produzir alimentos nutritivos, economicamente viáveis e com impactos ambientais cada vez menores (Felis et al., 2025).
Há ainda pessoas que não podem consumir leite convencional com conforto, como indivíduos com intolerância à lactose, e outras que precisam evitar proteínas do leite devido às reações alérgicas. Para esses consumidores, existem alternativas como produtos sem lactose e substitutos adequados às suas necessidades. A importância nutricional do leite não significa que ele seja indispensável para todas as pessoas, mas reforça a necessidade de planejar sua substituição quando ele é retirado da alimentação (Suchy et al., 2010).
Afinal, como seria a vida sem leite?
Talvez conseguíssemos construir um mundo sem leite. A humanidade tem capacidade para adaptar hábitos, desenvolver novas tecnologias e encontrar outras fontes de nutrientes. Mas essa transição exigiria muito mais do que trocar o conteúdo de uma embalagem: seria necessário reorganizar parte da alimentação, da indústria, da economia rural e das tradições que conectam gerações.
Pensar nessa hipótese nos ajuda a enxergar o leite para além do preço pago ao produtor ou do valor na prateleira. Ele reúne ciência, nutrição, tecnologia, trabalho e cultura em uma cadeia que começa no campo e chega à mesa de milhões de consumidores. Reconhecer essa contribuição não significa fechar os olhos para os desafios do setor, mas compreender que eles precisam ser enfrentados com informação, inovação e responsabilidade.
No fim das contas, talvez a pergunta mais interessante não seja se conseguiríamos viver sem leite, mas o que precisaríamos mudar para viver sem ele e quanto custaria essa mudança. A resposta passa pela nutrição, pela economia, pelo ambiente e pelas escolhas de uma sociedade inteira. E, enquanto discutimos o futuro da alimentação, vale lembrar que aquele copo de leite aparentemente simples carrega uma história muito maior do que imaginamos.
Agradecimentos:
Os autores agradecem a CAPES - Código Financiamento 001; ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) (APQ 00785-23/RED 00157-23/ APQ-06600-24/ APQ 05926-24), a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais - Instituto de Laticínios Cândido Tostes (EPAMIG-ILCT) e FINEP (FINEP-01.23.0632.00)
Autores:
Jeferson Silva Cunha (Bacharel em Ciência e Tecnologia de Laticínios, Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos e membro do Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos- LIPA/DTA/UFV).
Danielly Aparecida de Souza (Bacharel em Ciência e Tecnologia de Laticínios, Mestre em Ciência e Tecnologia de Alimentos e membro do Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos- LIPA/DTA/UFV).
Profa. Dra. Érica Nascif Rufino Vieira (Professora do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFV e coordenadora do Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos- LIPA/DTA/UFV)
Prof. Dr. Bruno Ricardo de Castro Leite Júnior (Professor do Departamento de Tecnologia de Alimentos da UFV e coordenador do Laboratório de Inovação no Processamento de Alimentos- LIPA/DTA/UFV)
Fontes consultadas:
Sonestedt, E. (2024). Milk and dairy products-a scoping review for Nordic Nutrition Recommendations 2023. Food & Nutrition Research, 68.
Gil, Á., & Ortega, R. M. (2019). Introduction and executive summary of the supplement, role of milk and dairy products in health and prevention of noncommunicable chronic diseases: a series of systematic reviews. Advances in Nutrition, 10(suppl_2), S67-S73.
Suchy, F. J., Brannon, P. M., Carpenter, T., Fernandez, J. R., Gilsanz, V., Gould, J. B., ... & Wolf, M. A. (2010). NIH consensus development conference statement: Lactose intolerance and health. NIH consensus and state-of-the-science statements, 27(2), 1-27.
Akyil, S., Winkler, S., Meyer, D., Kiesswetter, E., Kussmann, M., Schwingshackl, L., & Hauner, H. (2026). Association between dairy intake and multiple health outcomes: a scoping review of systematic reviews and meta-analyses. European journal of clinical nutrition, 80(1), 16-27.
Felis, A., Pica-Ciamarra, U., & Reyes, E. (2025). Dairy’s development and socio-economic transformation: A cross-country analysis. World, 6(3), 105.
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. (2025). Produção da pecuária municipal 2024. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/84/ppm_2024_v52_br_informativo.pdf
Grigol, N. (2026). Balanço leite 2025: Excesso de oferta derrubou preços no campo. In Anuário ASBIA de genética bovina 2026 (pp. 36–37). Associação Brasileira de Inseminação Artificial. https://asbia.org.br/wp-content/ASBIA_anuario_2026-site.pdf