“Não existe protocolo que funcione simplesmente porque está escrito no papel. É preciso entender como aquela orientação será executada, por quem, em quais condições e quais dificuldades a equipe encontra no dia a dia”, afirma.
Na visão de Leonardo, o técnico também precisa atuar como investigador e educador, ajudando produtores de leite e funcionários a compreenderem a razão de cada procedimento, seja na colostragem, no manejo sanitário, na reprodução, na alimentação ou na prevenção de doenças.
Quando a equipe entende a relação entre manejo, saúde, produtividade e resultado econômico, a propriedade ganha condições de evoluir de maneira consistente. O objetivo, segundo ele, não deve ser tornar a fazenda dependente de recomendações externas, mas desenvolver pessoas capazes de identificar problemas, tomar decisões e prevenir perdas. “Quando conseguimos melhorar a eficiência, reduzir desperdícios e trazer mais previsibilidade para a produção, também estamos contribuindo para melhorar a vida do produtor e de sua família”, destaca.
Da produção de leite à medicina veterinária
A trajetória de Leonardo foi marcada pela experiência dos dois lados da atividade: primeiro como produtor de leite e, depois, como médico-veterinário. Essa vivência contribuiu para ampliar sua visão sobre os desafios enfrentados nas propriedades, mostrando que os problemas sanitários e produtivos precisam ser compreendidos dentro de um contexto mais amplo. “Essa experiência me ensinou a olhar para uma propriedade não apenas pelo animal ou pelo problema clínico, mas por todo o contexto em que aquela situação está acontecendo”, conta.
Um dos casos que mais marcaram sua carreira envolveu uma propriedade com elevada mortalidade de bezerras e episódios recorrentes de diarreia. Na fazenda, já era utilizado um protocolo terapêutico baseado principalmente em antibióticos, mas os resultados clínicos não eram satisfatórios. Diante da falta de resposta, foi necessário questionar a hipótese inicial. Se o tratamento considerava os casos como enterites bacterianas, mas não produzia o resultado esperado, era preciso investigar se aquela era realmente a causa dos problemas.
A investigação identificou a participação do Cryptosporidium, importante agente causador de diarreia em bezerras neonatas. Com essa informação, a abordagem mudou: em vez de simplesmente trocar ou ampliar o tratamento antimicrobiano, o trabalho passou a envolver uma visão mais abrangente, com suporte aos animais, melhorias no manejo, cuidados com a higiene, redução da exposição à contaminação e prevenção.
O episódio reforçou uma das principais convicções do médico-veterinário sobre a medicina de produção: a ausência de resposta a um tratamento também é uma informação clínica que precisa ser considerada. “Quando um protocolo não funciona, não podemos simplesmente trocar o medicamento. Precisamos voltar à história, revisar o diagnóstico, observar o ambiente, o manejo e a execução das rotinas”, explica. A experiência consolidou uma pergunta que orienta sua atuação profissional: “Antes de perguntar ‘qual medicamento devemos usar?’, precisamos perguntar ‘por que isso está acontecendo?’”
Para Leonardo, a vivência como produtor de leite também ensinou a importância de considerar o conhecimento de quem acompanha a propriedade diariamente. Cabe ao técnico unir essa experiência prática à formação profissional, à investigação e às ferramentas disponíveis para encontrar soluções tecnicamente corretas, mas também viáveis e executáveis na realidade da fazenda.
Outra conquista que destaca é acompanhar a trajetória do filho, também médico-veterinário, que atua com assistência na bovinocultura leiteira em Goiás. Para ele, essa continuidade representa a transmissão de valores, experiências e conhecimentos, mas também a oportunidade de reconhecer que a sucessão não significa apenas reproduzir o que a geração anterior fez.
É necessário transmitir a experiência acumulada e, ao mesmo tempo, abrir espaço para que a nova geração incorpore ideias, tecnologias e novas maneiras de enxergar os desafios da atividade.
Eficiência técnica precisa se transformar em resultado econômico
Ao avaliar os principais desafios da produção de leite brasileira, Leonardo destaca o controle dos custos, a disponibilidade e a qualificação da mão de obra, a profissionalização da gestão, a sucessão das propriedades e a capacidade de transformar eficiência técnica em resultado econômico.
Para ele, ainda existe uma distância significativa entre o conhecimento disponível e aquilo que efetivamente é colocado em prática dentro das fazendas. A cadeia conta com tecnologias, ferramentas de diagnóstico, vacinas, medicamentos, indicadores e profissionais qualificados, mas muitas perdas continuam associadas a falhas de manejo, de rotina, de acompanhamento e de tomada de decisão.
Outro ponto central é o conhecimento dos números da propriedade. Produzir mais, isoladamente, não garante melhores resultados. É preciso compreender quanto custa produzir, onde estão os desperdícios, quais indicadores comprometem o desempenho e quais mudanças podem trazer retorno econômico.
A mão de obra também exige atenção. À medida que as propriedades incorporam novas tecnologias, equipamentos e protocolos, torna-se indispensável preparar as pessoas para utilizá-los corretamente e compreender a importância de cada procedimento. “O conhecimento precisa chegar a quem executa o trabalho todos os dias”, ressalta.
Nesse cenário, Leonardo enxerga grandes oportunidades na profissionalização da atividade e no uso mais inteligente dos dados. Ferramentas relativamente simples já permitem acompanhar diferentes aspectos da saúde e do desempenho do rebanho.
O refratômetro de Brix, por exemplo, pode auxiliar na avaliação da transferência de imunidade passiva para as bezerras. O BHB permite acompanhar situações relacionadas ao metabolismo, enquanto exames laboratoriais e indicadores epidemiológicos ajudam a identificar problemas que, muitas vezes, só se tornam evidentes depois de provocarem queda na produção ou aumento da mortalidade.
No entanto, o diferencial não está simplesmente em adquirir equipamentos ou acumular informações, mas em saber interpretá-las. “Um número isolado não resolve um problema. Ele precisa ser interpretado dentro da realidade daquela fazenda e transformado em uma decisão”, afirma.
Por isso, o médico-veterinário acredita que a assistência técnica terá um papel cada vez mais estratégico, integrando sanidade, manejo, reprodução, análise de dados, gestão de pessoas e resultado econômico. A oportunidade está em avançar de uma atuação concentrada na reação aos problemas para uma medicina de produção baseada em prevenção, monitoramento e interpretação.
Disciplina e disposição para mudar fazem a diferença
Na avaliação de Leonardo, os produtores que evoluem continuamente não são necessariamente aqueles que possuem as propriedades mais sofisticadas ou utilizam as tecnologias mais caras. O diferencial está na disposição para acompanhar os resultados, questionar processos e reconhecer quando alguma coisa precisa mudar. Esses produtores conhecem seus indicadores, fazem perguntas, aceitam rever procedimentos e, principalmente, conseguem manter uma rotina de execução.
Na pecuária leiteira, muitas melhorias não dependem de grandes inovações, mas da realização consistente de práticas já conhecidas. Isso vale para a colostragem, a higiene, a vacinação, o controle de parasitas, o manejo de bezerras, a reprodução e a alimentação. Leonardo também destaca a importância da relação entre produtor e técnico. Os melhores resultados aparecem quando existe uma parceria em que o conhecimento prático de quem vive a realidade da propriedade se combina com a formação técnica, o método e a capacidade de análise do profissional.
Para ele, duas características são decisivas para a evolução das fazendas: disciplina para executar e humildade para mudar quando os resultados mostram que o caminho adotado não está funcionando. “Não existe protocolo perfeito que resista a uma execução ruim. E também não existe propriedade que evolua se não estiver disposta a medir seus resultados, questionar seus processos e corrigir a própria rotina”, avalia.
O conselho para quem está começando na assistência técnica
Aos profissionais que desejam construir uma carreira na assistência técnica em propriedades leiteiras, Leonardo recomenda que o olhar vá além do sinal clínico ou do problema que motivou a visita à fazenda. “Quando chegar a uma propriedade, não olhe apenas para o animal que está doente. Observe o ambiente, acompanhe a rotina, converse com quem está todos os dias na fazenda e procure entender como aquele problema realmente acontece”, orienta.
Diante de uma bezerra doente ou de uma queda repentina na produção, a recomendação é investigar antes de escolher o medicamento. Nem sempre a solução está no tratamento em si; ela pode depender de mudanças no ambiente, no manejo ou na maneira como as atividades são executadas.
O profissional também precisa reconhecer os limites do próprio conhecimento. Para Leonardo, ter humildade para admitir que ainda não sabe a resposta não diminui a competência de um médico-veterinário. Saber investigar, buscar informações e retornar à propriedade com uma orientação mais consistente faz parte do exercício da profissão.
O conhecimento técnico é indispensável, mas ganha valor quando ajuda a resolver problemas reais. Da mesma forma, a confiança do produtor não é construída pela quantidade de termos técnicos utilizados ou de medicamentos conhecidos, mas pelo interesse genuíno em compreender a realidade da fazenda e encontrar soluções que possam ser colocadas em prática.
Ao resumir sua orientação aos profissionais que estão iniciando a carreira, Leonardo reforça a importância da presença no campo, da escuta e da investigação. “Calce as botas, ouça o produtor, observe a fazenda e nunca pare de perguntar por que aquele problema está acontecendo.”
Para o médico-veterinário, é dessa combinação entre conhecimento, observação, diálogo e capacidade de transformar diagnósticos em ações que nasce uma assistência técnica capaz de gerar resultados duradouros para a propriedade leiteira.