Publicado na Frontiers in Nutrition, o estudo analisou 50 pesquisas de coorte prospectivas, reunindo dados de mais de 3 milhões de adultos saudáveis. O resultado chamou atenção especialmente para os laticínios fermentados.
Segundo a análise, um maior consumo desses produtos esteve associado a um risco cerca de 6% menor de mortalidade por todas as causas. O consumo também apresentou associação com menor mortalidade cardiovascular e por câncer. Entre os produtos avaliados, iogurte e queijo também apareceram com resultados positivos, embora as associações variassem conforme o tipo de mortalidade analisado.
O que a fermentação pode ter a ver com isso?
A explicação pode estar justamente no que acontece com o alimento durante o processo de fermentação. Além de modificar sabor, textura e conservação, os microrganismos envolvidos no processo produzem compostos que podem interagir com o organismo. Os pesquisadores destacam possíveis efeitos relacionados à modulação da microbiota intestinal, redução da inflamação e melhora da saúde metabólica.
No caso dos laticínios, isso significa que o debate sobre saúde não envolve apenas nutrientes tradicionais, como proteína, cálcio e gordura. A fermentação pode acrescentar uma nova camada à equação.
O iogurte, por exemplo, foi associado à redução da mortalidade por todas as causas. Já o queijo apresentou uma redução mais modesta nesse indicador e também um possível efeito protetor em relação à mortalidade por câncer de pulmão. Os resultados, no entanto, não foram iguais para todos os alimentos fermentados. Missô e pão fermentado, por exemplo, não apresentaram associações fortes com redução da mortalidade.
Até o chocolate apareceu entre os alimentos associados a menor mortalidade por todas as causas e por doenças cardiovasculares — nesse caso, possivelmente pela presença dos polifenóis do cacau, relacionados à função vascular e à redução do estresse oxidativo.
Fermentar não é garantia de benefício
Os próprios resultados mostram que não basta um alimento ser fermentado para produzir automaticamente os mesmos efeitos sobre a saúde. Os pesquisadores observaram diferenças importantes entre os alimentos, o que reforça que fatores como composição nutricional, quantidade consumida, processo de produção e estilo de vida das populações estudadas também podem influenciar os resultados.
Além disso, por se tratar de uma metanálise de estudos observacionais, os dados mostram associações, e não uma relação direta de causa e efeito. Ou seja: não é possível afirmar que consumir mais iogurte, queijo ou leite fermentado, por si só, fará uma pessoa viver mais. Ainda assim, o estudo adiciona evidências a uma discussão cada vez mais relevante para a indústria de alimentos: quando o leite passa pela fermentação, ele pode se transformar em algo mais do que apenas leite.
E, em um momento em que consumidores buscam alimentos associados à saúde intestinal, bem-estar e funcionalidade, entender melhor o papel dos fermentados pode abrir novas possibilidades para uma das categorias mais tradicionais da indústria láctea.
As informações são do Dairy Daily Report, traduzidas pela Equipe MilkPoint.
Vale a pena ler também:
Do leite ao sorvete de kefir: por que essa inovação merece a atenção da cadeia leiteira?