Há uma dispersão relevante nos valores recebidos, explicada principalmente pelo volume produzido, mas também por qualidade (spoiler: sólidos terão um peso cada vez maior daqui para a frente), práticas ESG, localização, competição local pela matéria-prima, estratégia do comprador e capacidade de influência e negociação do produtor.
O gráfico 1 mostra a dispersão de preços de acordo com o volume de leite comercializado. Já o gráfico 2, preparado pelo colega Wagner Beskow, apresenta essa dispersão de forma ainda mais ampla, com cada ponto representando um produtor. No estudo dele, o volume foi o principal determinante da variação de preços, mas sozinho representou somente 22% da variação total.
Fonte: Cepea
Gráfico 2 — Relação entre o volume comercializado por estabelecimento rural (L/mês) e o preço líquido do leite (R$/L) pago pela indústria ao produtor do Rio Grande do Sul (2025–2026), segundo o ajuste por lei de potência equivalente ao modelo log-log. Fonte: Wagner Beskow.
Isso significa que, diferentemente de uma commodity em que produtores de uma mesma região tendem a enfrentar preços muito semelhantes, no leite é possível deixar bastante dinheiro na mesa. O produtor não controla o mercado. Mas pode, sim, influenciar o preço efetivamente recebido. E não é só negociação, mas principalmente decisões gerenciais que podem ou não capturar mais valor. E aí entra um segundo ponto, talvez ainda mais interessante.
Cada vez mais, a atividade leiteira interage com outras fontes de receita associadas à própria produção de leite: genética, cruzamentos entre bovinos de leite e de corte (beef on dairy), energia, créditos de carbono, fertilizantes orgânicos, entre outras possibilidades. Nos Estados Unidos, por exemplo, o beef on dairy pode acrescentar até 30% no preço do leite. Essas receitas adicionais podem mudar significativamente a economia da atividade — e, principalmente, o seu ponto de equilíbrio.
Vamos a um exemplo simples. Suponha uma fazenda com custo de produção de R$ 2,00/litro e preço do leite de R$ 2,50/litro. Sua margem é de R$ 0,50/litro e, simplificando, seu break-even ou ponto de equilíbrio é de R$ 2,00/litro: abaixo desse preço, a operação começa a ficar no vermelho. Agora imagine que essa mesma fazenda desenvolva uma atividade complementar que gere R$ 0,40/litro em receita líquida adicional, já descontados os custos para realiza-la. Nessa simulação muito simples, o preço do leite necessário para cobrir todos os custos cai para R$ 1,60/litro. O negócio ficou muito mais resiliente aos momentos difíceis de mercado.
Ou, visto de outra forma, essa atividade complementar adicionou R$ 0,40/litro de resultado e aumentou significativamente a resiliência da fazenda diante de uma queda no preço do leite.
É por isso que produtores de leite mais sofisticados estão começando a considerar as receitas marginais de atividades complementares na própria estruturação de seus negócios. Há fazendas de destaque em genética, por exemplo, que conseguem adicionar mais de R$ 1,00 por litro produzido em receitas dessa atividade. Falamos muito — e corretamente — sobre custo de produção. Afinal, essa é, em tese, a variável sobre a qual o produtor tem maior controle.
Quando analisamos resultados de fazendas relacionando custos, preços e rentabilidade, é comum concluir que diferenças de custo explicam muito mais as diferenças de resultado do que os preços recebidos. O raciocínio é válido: uma fazenda leiteira muito eficiente em custos pode ser mais rentável mesmo se tiver um preço menor do que seu vizinho ineficiente. Mas é preciso cuidado para não transformar essa constatação em uma conclusão simplista.
Para uma mesma fazenda, nas mesmas condições, cada centavo adicional de receita por litro melhora diretamente o resultado financeiro. Mais ainda: com a padronização do sistema de produção confinado, cada vez mais será difícil ter uma diferenciação relevante em custos.
E talvez tenhamos dado pouca atenção a esse lado da equação justamente porque nos acostumamos com a máxima de que, em commodities, “não se controla o preço”, o que é facilmente confundido com “não se controla receita”. Uma definição equivocada. Talvez a pergunta mais interessante, portanto, não seja apenas: qual é o seu custo por litro?
Mas também: qual é a sua receita equivalente-leite?
Ou seja:
- quanto sua fazenda gera, por litro de leite produzido, quando somamos todas as receitas economicamente associadas à atividade, após subtraídos os custos marginais dessas atividades?
- Quanto essas receitas adicionais reduzem o seu break-even e aumentam a resiliência do negócio?
- Quanto você pode melhorar o preço efetivamente recebido pelo próprio leite, considerando as oportunidades de diferenciação por qualidade, volume e práticas estimuladas pelo comprador?
- E que oportunidades de receita marginal existem dentro da sua fazenda que ainda não estão sendo exploradas — seja no próprio leite, seja em atividades complementares?
A gestão eficiente de custos continuará sendo fundamental. Mas talvez seja hora de colocarmos a mesma energia na gestão e na composição das receitas. A gestão de custos é necessária para garantir o direito de jogar o jogo, mas cada vez mais a diferença entre ter um negócio marginal e um excelente negócio pode estar na receita – e como cada fazenda compõe seu negócio a partir de sua otimização.