1. A relação entre produção de leite e fisiologia de vacas leiteiras
O direcionamento da seleção genética para produção de leite, associado às melhorias no manejo nutricional, sanitário e de conforto dos rebanhos leiteiros, resultou em um aumento expressivo na produção média das vacas. Atualmente, são muito comuns rebanhos com médias superiores a 30 kg de leite/dia em diferentes regiões do país.
A maior produção de leite está associada a um maior consumo de matéria seca, que, por sua vez, está altamente relacionado a um maior fluxo sanguíneo hepático. Como consequência, ocorre maior metabolização de hormônios esteroides, como a progesterona e o estradiol, resultando em menores concentrações circulantes desses hormônios em vacas de maior produção. Essa condição interfere na fisiologia reprodutiva e pode comprometer a fertilidade.
O estradiol é o hormônio responsável pelo comportamento de cio, e menores concentrações circulantes estão associadas à redução tanto da probabilidade quanto da intensidade da expressão de cio. Como consequência, a eficiência de detecção de cio em vacas de maior produção é menor, contribuindo para menores taxas de serviço no rebanho. Além disso, a maior metabolização do estradiol faz com que os folículos precisem crescer por mais tempo para produzir estradiol suficiente para a expressão do cio. Esse maior período de desenvolvimento folicular está relacionado ao envelhecimento do oócito e à redução da fertilidade. Por fim, concentrações adequadas de estradiol durante o proestro do ciclo estral e ao final de um protocolo de sincronização também são importantes para a fertilidade e manutenção da gestação.
Por outro lado, menores concentrações de progesterona durante o desenvolvimento folicular, seja durante o ciclo estral natural ou durante um protocolo de sincronização, resultam em menor qualidade oocitária e, consequentemente, menor fertilidade. Menores concentrações de progesterona após a inseminação e a ovulação também podem estar associadas a prejuízos na manutenção da gestação. Além disso, baixa progesterona circulante durante a onda folicular está associada ao aumento da ocorrência de ovulações múltiplas e, consequentemente, de gestações gemelares. A gemelaridade é uma das principais causas de perdas gestacionais em vacas leiteiras e também é indesejável em nível de rebanho quando a gestação gemelar chega a termo, devido à maior incidência de problemas relacionados ao parto e à saúde das vacas no período pós-parto.
Portanto, sim, o fato de uma vaca apresentar maior produção de leite interfere em sua fisiologia reprodutiva, alterando a dinâmica folicular e luteal e o ambiente hormonal durante o ciclo estral e, consequentemente, podendo resultar em menor fertilidade. No entanto, a evolução dos protocolos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF) permitiu o desenvolvimento de estratégias que melhoram o ambiente hormonal durante o desenvolvimento folicular, a sincronização das vacas e a fertilidade. Esses benefícios tornam-se particularmente importantes quando Programas de Fertilidade são implementados para o 1º serviço pós-parto.
2. Atingindo alta fertilidade, mesmo em vacas de alta produção
Como apresentado nos textos anteriores: O 1º serviço pós-parto é o carro-chefe da reprodução, e sabemos dirigi-lo – Programa G-Synch; e Atingindo ≥ 50% de concepção no 1º serviço de vacas com diferentes programas de fertilidade, o 1º serviço pós-parto é o carro-chefe da eficiência reprodutiva e representa um momento estratégico para a utilização de programas de IATF otimizados, conhecidos como Programas de Fertilidade.
Esses programas incluem uma pré-sincronização antes do protocolo de IATF para o 1º serviço pós-parto. O objetivo da pré-sincronização é induzir uma ovulação prévia, fazendo com que a maioria das vacas inicie o protocolo de IATF no momento ideal do ciclo estral, geralmente entre os dias 6 e 7 do ciclo. Isso aumenta a sincronização das vacas e proporciona um ambiente hormonal mais adequado durante o desenvolvimento folicular, ajudando a contornar algumas das alterações na fisiologia reprodutiva associadas à alta produção de leite e, consequentemente, aumentando a fertilidade.
Mas será que isso realmente acontece em vacas de alta produção?
A Figura 1 apresenta resultados de experimentos científicos relacionados à fertilidade de acordo com a produção de leite de vacas submetidas ao programa G-Synch para o 1º serviço pós-parto em três diferentes fazendas de alta produção no Brasil. Quando as vacas foram divididas em quintis de acordo com a produção de leite no momento da IATF, não houve diferença na fertilidade entre as vacas de menor produção, as de produção intermediária e aquelas de maior produção. Ou seja, dentro desses rebanhos e utilizando o programa G-Synch, produzir mais leite não esteve associado à redução da fertilidade.
Resultados como esses reforçam porque o 1º serviço pós-parto é o carro-chefe do manejo e da eficiência reprodutiva. A implementação de programas de IATF otimizados, como o G-Synch, é uma importante estratégia para atingir altas taxas de concepção mesmo em rebanhos de alta produção, contribuindo para aumentar a taxa de prenhez a cada 21 dias, reduzir o intervalo entre partos e colocar uma maior proporção de vacas dentro do Ciclo da Alta Fertilidade.
Figura 1. Associação entre produção de leite e fertilidade de vacas leiteiras submetidas ao programa G-Synch para a 1ª IATF pós-parto. Resultados de experimentos científicos incluindo 943 vacas em 3 fazendas no Brasil. Abreviações: PEV (período de espera voluntário). Fármacos: Repro sync (dispositivo intravaginal de 2 g de progesterona), Maxrelin (2 mL = 16,8 µg acetato de buserelina), Induscio (2 mL = 0,5 mg de cloprostenol sódico), Cipion (0,5 mL = 1 mg de cipionato de estradiol). Adaptado de Consentini et al. (2026).
Carlos Eduardo Cardoso Consentini1,Bruno Gonzales2, Luiz Moroz3, Tiago Carneiro4
1GlobalGen reproductive engineering ,2Fazenda São Jorge,3Fazenda Frankanna, 4Fazenda Bela Vista