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Como garantir forragem de qualidade para os animais

POR FELIPE TONATO (NÃO USAR)

E CARLOS G. S. PEDREIRA

PRODUÇÃO

EM 27/11/2013

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Como garantir forragem de qualidade para os animais

Na bovinocultura brasileira, a qualidade da forragem talvez seja um dos pontos mais valorizados e buscados por técnicos e produtores, sendo muito comum que se considerem questões sobre qual capim tem maior ou menor qualidade, ou que cultivar tem mais proteína, por exemplo. Ocorre que, da mesma forma que é um dos pontos mais valorizados, é um dos assuntos onde mais ocorrem erros ou enganos de interpretação. De forma geral, a grande maioria das pessoas, quando pensa em qualidade de forragem, está se referindo ao valor nutritivo da forragem, como se qualidade e valor nutritivo fossem a mesma coisa, quando na verdade, não são.

A qualidade de qualquer alimento empregado na alimentação animal é definida basicamente, pelo potencial desse alimento em gerar desempenho animal, ou seja, ganho de peso individual ou produção de leite por vaca, por exemplo. Já o valor nutritivo pode ser estimado por análises laboratoriais, incluindo digestibilidade in vitro, e teores de proteína bruta e de frações fibrosas (FDN e FDA). Assim sendo, “qualidade” é algo muito mais abrangente do que o valor nutritivo.

No caso específico das plantas forrageiras, a qualidade é o resultado dos efeitos combinados do valor nutritivo da forragem ingerida, com a capacidade de consumo de forragem pelo animal, e modificada ainda, pelo potencial genético de desempenho desse animal.

O valor nutritivo passa então a ser apenas um dos componentes a determinar a qualidade da forragem, existindo outros aspectos como a presença de fatores antinutricionais (por exemplo taninos ou alcalóides cianogênicos), o perfil dos compostos resultantes processo digestivo (como aminoácidos e ácidos graxos voláteis), e principalmente os aspectos relacionados à estrutura da pastagem, como composição morfológica (percentual de folhas, colmos e material morto) e a organização espacial com que esses diferentes componentes são apresentados (altura, densidade etc.) que, por afetarem o consumo de forragem pelo animal, acabam resultando na real qualidade dessa forragem (Figura 1).


Figura 1. Principais aspectos determinantes da qualidade da forragem.

Em estudos onde o desempenho produtivo de animais foi avaliado em função da dieta de forragem fornecida, de forma geral, o desempenho individual foi menos dependente do valor nutritivo da forragem (10 a 40% das vezes) e mais afetado pelo consumo (90 a 60% das vezes).

Isso não quer dizer que o valor nutritivo não seja importante. Muito pelo contrário, ele é muito importante, e ações de manejo devem ser tomadas para se obter forragem de valor nutritivo elevado. No entanto, ênfase tem que ser dada no manejo do pastejo para aumentar o consumo de forragem pelos animais, pois a resposta produtiva será maior.

A partir daí, fica a pergunta: Como se pode aumentar o consumo de forragem? Para essa resposta é importante entender cada um dos diversos aspectos que se combinam para determinar o consumo de forragem pelos animais. O primeiro deles está ligado ao ajuste entre o suprimento de forragem e a demanda de alimento do rebanho ao longo do ano, de forma que se garanta que a demanda nunca seja superior ao suprimento. Ou seja o primeiro ponto para garantir forragem de qualidade aos animais, é garantir que não existam épocas em que não haja forragem suficiente para alimentar todos os animais.

O segundo ponto importante está ligado à relação entre quantidade de forragem existente em uma determinada área, e a quantidade de animais, normalmente expressa em unidades animais (convencionalmente se considera uma UA igual a um animal de 450 kg de peso vivo), colocados nessa mesma área. Esse conceito é conhecido como oferta de forragem. Quanto maior a quantidade de alimento (por exemplo, forragem no pasto) oferecido ao animal por dia, maior é a oportunidade desse animal de selecionar os locais da pastagem e as partes da planta que deseja consumir. Isso permite que seu desempenho individual não seja limitado pela quantidade de alimento, mas normalmente resulta numa contrapartida indesejável, que é o desperdício de forragem. Por outro lado, quando se restringe a oferta de forragem aos animais, reduz-se a oportunidade de seleção, forçando os animais a consumirem forragem de menor valor nutritivo, diminuindo seu desempenho individual, mas melhorando o aproveitamento da forragem pela menor perda (desperdício) daquilo que é produzido. Nos dois extremos desse processo é que ocorrem o subpastejo e o sobrepastejo (às vezes conhecido como “superpastejo”), condições que podem resultar em forragem de má qualidade e até na degradação das pastagens. Forragem de alta qualidade é produzida dentro da faixa de amplitude ótima de pastejo, entre a taxa de lotação máxima e a taxa de lotação mínima (Figura 2).

Figura 2. Relação entre oferta de forragem e desempenho por animal e por área (Adaptado de Mott 1960).

O ajuste da demanda ao suprimento é um ajuste no aspecto quantitativo, sendo que após esse ajuste se fazem necessários outros, em outros aspectos, como em relação à fase de desenvolvimento em que a planta se encontra, e em relação à estrutura com que a forragem é apresentada aos animais.

A idade (maturidade) em que a planta forrageira se encontra no momento do pastejo afeta as suas características qualitativas, e é sabido que valor nutritivo da forragem cai com o avanço da maturidade (Tabela 1), de forma que quanto mais madura, menor é o seu valor nutritivo (Figura 3), exigindo mais tempo para que ela seja digerida, mantendo o rumen cheio por mais tempo, e levando o animal a um menor consumo diário.

Tabela 1. Evolução do valor nutritivo de três gramíneas forrageiras tropicais com o aumento da maturidade (forragem com 28, 35, e 54 dias de idade).


* CT- carboidratos totais; CNF- carboidratos não fibrosos;
Fonte: Sá et al., 2010



Figura 3. Relação entre valor nutritivo e produção de forragem com a evolução da maturidade para as plantas forrageiras.

Plantas mais jovens apresentam maior proporção de folhas e menor proporção de colmos em sua composição, o que favorece a ingestão de forragem, por ser mais fácil realizar o bocado, e porque a digestão das folhas é mais fácil e rápida, permitindo que o animal coma mais. Folhas são mais nutritivas que colmos, folhas verdes são mais nutritivas que folhas mortas, e colmos novos são mais nutritivos que colmos velhos. A queda no valor nutritivo com o tempo decorre do acúmulo de compostos estruturais como celulose e lignina, que não só “diluem” a concentração dos demais compostos na forragem, mas que também tem por função dar rigidez estrutural à planta (algo que ela precisa para se manter em pé e interceptar luz solar), e com isso são de digestão mais difícil (Figura 4).

Um fato que sempre deve ser lembrado, é que a adubação aumenta a produção, acelerando o crescimento e desenvolvimento da planta, e portanto o momento ótimo para pastejo também é atingido mais cedo, pois com a adubação, o processo de “envelhecimento” e acúmulo de lignina nos tecidos também é acelerado.


Figura 4. Digestibilidade nos tecidos de uma planta forrageira.

Os principais objetivos do manejo do pastejo, no que diz respeito à obtenção de forragem de qualidade, são maximizar a produção de folhas pelas plantas forrageiras, e obter o máximo consumo dessas folhas pelos animais. Na busca desses objetivos, nos últimos anos tem sido proposto um novo modelo de manejo do pastejo. Esse modelo é baseado na premissa de que os fatores ambientais para o crescimento das plantas (CO2, N, água, radiação solar e temperatura) e de manejo (adubação, intensidade de desfolhação) alteram a taxa de crescimento e desenvolvimento das pastagens, o que por conseqüência gera alterações em sua estrutura (altura do dossel, densidade de perfilhos, relação folha/colmo e etc.), que condicionam o ajuste de lotação e o comportamento ingestivo dos animais.

Assim sendo, passa-se a considerar que o desempenho animal tem uma dependência direta da ingestão diária de forragem e uma dependência indireta, através dos efeitos do processo de pastejo, da composição morfológica (folhas, colmos e material morto) da pastagem, estrutura e produtividade da pastagem. A estrutura de uma pastagem diz respeito ao arranjo e à distribuição dos componentes da parte aérea das plantas dentro de uma comunidade vegetal. A distribuição espacial pode afetar a produção animal por influir sobre a facilidade com que a forragem é apreendida.

Essa nova forma de manejo do pastejo, determina então que, além do ajuste de lotação, é necessário considerar também a velocidade de crescimento das plantas, ajustando-se o momento de entrada dos animais e início do pastejo ao desenvolvimento da planta. A partir daí, relaciona-se o período ótimo de descanso entre pastejos (Figura 3) não mais a uma premissa de tempo fixo como dias, mas a uma premissa estrutual fixa, por exemplo a uma altura do pasto, que será atingida mais cedo ou mais tarde, dependendo da época do ano.

Segundo essa proposta, o pasto não segue um calendário, substituindo-se as recomendações de manejo por intervalos de dias entre pastejo e dias de ocupação dos piquetes, por alturas de referência a entrada e saída dos animais desse piquetes (Tabela 2), levando os animais a consumirem a forragem sempre em uma condição fisiológica semelhante.

Tabela 2. Alturas de referência para manejo de algumas espécies forrageiras


Os resultados que vem sendo obtidos pela pesquisa mostram que esse novo enfoque no manejo do pastejo tem possibilitado a obtenção de forragem de melhor qualidade para os animais, garantindo altas produções de forragem, com grande participação de folhas e pequena participação de colmos na massa produzida, e principalmente, permitindo que os animais aumentem o consumo de folhas e melhorem o aproveitamento da forragem produzida (utilização da forragem, balanço entre produzido e consumido), levando a maiores produções.

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FELIPE TONATO (NÃO USAR)

CARLOS G. S. PEDREIRA

Professor do Departamento de Zootecnia da ESALQ-USP, em Piracicaba. Desenvolve pesquisa e leciona disciplinas na área de produção e manejo de pastagens

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NEY PEDRA

SALVADOR - BAHIA

EM 19/02/2017

Gostaria de ver publicado tabela nutricional de capins e relação com o solo. Por vezes o produtor quer um capim para uma solo inadequado (pobre), assim como formas de plantação. Tenho dificuldade em contratar tratores para tal. Posso plantar, a lanço, com adubo, em meio ao mato e posteriormente limpar o mato?
DONIZETE VERENKA

EM 29/03/2015

estou começando agora a criação bovina para corte,sou de guarapuava do parana,uma regiao muito fria no inverno.gostaria de saber qual pastagem indicada pra minha região?ou se devo manter uma permanente e melhorar no inverno?se puder me ajudar desde ja agradeço
JULIANO SANTOS

SANTA MARIA - RIO GRANDE DO SUL - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 10/01/2014

Caro Dilermando, o período de descanso deverá ser definido por outra variável, a massa de forragem existente na área, e esta , por sua vez dependerá de inúmeros fatores externos, como precipitação pressão de pastejo, temperatura, etc.  Tenho por base de sempre  ofertar 50% da massa de forragem total. Por exemplo, se no piquete existir 1200 kg de MS, os aminais sairão da área quando a massa estiver  em 600 Kg de MS. Esse consumo dependerá da carga animal por você estipulada.

Sendo assim o período de descanso pode aumentar em épocas menos favoráveis, ou pode diminuir com temperatura, umidade e adubação adequada.



Espero ter ajudado, ou quem sabe criado mais dúvidas.........



Att:

Juliano Costa dos Santos

Zootecnista, MSc em Produção Animal

Doutorando em Produção Animal pela UFSM.

(55) 9146-8350

julsantos2003@yahoo.com.br
VÂNIO DE BETTIO FILHO

XAXIM - SANTA CATARINA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 02/01/2014

  Parabéns pelos artigo, muito interessante. Momento de colocar e retirar os animais é  crucial.
DILERMANDO JOSÉ DA SILVA

UNAÍ - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 07/12/2013

Qual o período ideal de descanso para o piquete da braquiara no período de novembro a março na região de Una/MG?
MOACIR GOMES DE OLIVEIRA

SANTA MARIA DA VITÓRIA - BAHIA - CONSULTORIA/EXTENSÃO RURAL

EM 05/12/2013

Muito oportuno o conteúdo nos apresentado por Felipe e Carlos.

Gostaria apenas de observar que devemos pensar em oferecer o melhor pasto para os animais, mas não deixando de cuidar para que o capim tenha formado de forma satisfatória, as raízes, para que possa rebrotar com o vigor necessário para ser consumido novamente pelos animais na sua melhor forma.

Temos notado, um cuidado todo especial somente com os animais. Esquecendo que sem capim, não temos como alimentá-los. Pois a cada rebrota, se não for observado o tempo necessário para uma boa formação de raízes, o CAPIM, vai se degradando muito ligeiro, chegando até mesmo em casos mais graves a morrer. Temos que conciliar uma boa formação de pastagem, dando tempo suficiente para a formação das raízes que irão garantir uma rebrota vigorosa, só colocando os animais para pastarem, no período certo. Aí, teremos bom pasto e gado bem alimentado por muitos anos.

Obrigado..

MOACIR GOMES.
JOAO EUDES RODRIGUES DE MIRANDA

RIACHÃO - MARANHÃO - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 30/11/2013

Excelente a reportagem de um aproveitamento muito bom para quem está inicianco como no meu caso espero receber mais informações. Obrigado
EMÍLIO CINTRA IOVINO

JAÍBA - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/11/2013

Meus parabéns pelo artigo citado acima !

Estamos sempre aprendendo,  e gostaria de receber mais informações sempre.
GUILHERME ALFREDO MAGALHÃES GONÇALVES

LAGOA DOS PATOS - MINAS GERAIS - TÉCNICO

EM 28/11/2013

Primeiramente parabenizo o Felipe e o Carlos pela autoria e desenvolvimento do projeto e texto.

Realmente manejar pastagens neste nosso Brasil central, pela minha pouca experiência, já tenho plena certeza que não é nada fácil. Digo ainda que é o elemento central do sistema de pecuária produtiva. Recentemente, discutimos algo parecido a esta nova metodologia de manejo de pasto, que considera-se não mais dias pré fixado para uma variedade ou outra de forrageira, e sim a sua altura -  interceptação luminosa 95% etc.

Como os senhores entendem esse novo método de avaliação, numa forma mais prática e fácil de ser compreendida por um simples produtor rural?





Obrigado



@ de abracos
SIDNEY

GOIÂNIA - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/11/2013

Esse assunto é recorrente e extremamente importante. Temos que estudar as técnicas adequadas de oferecimento do alimento aos animais e as formas de otimizar este momento.

Vamos continuar discutindo e consolidando este conhecimento.
ALEXANDRE NUNES RABELO

ALVARENGA - MINAS GERAIS - INSTITUIÇÕES GOVERNAMENTAIS

EM 28/11/2013

Achei muito bom o artigo, tanto a parte descritiva (objetiva mas suficiente para cobrir o assunto) como as figuras e tabelas (muita informação num pequeno espaço).

Parabéns pelo bom texto.
JOAQUIM SILVA

CABECEIRAS - GOIÁS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 28/11/2013

Parabéns pelo trabalho, tenho certeza que ira ajudar muitos produtores, assim como me ajudou.



Mas gostaria de saber se os senhores possuem as informações das tabelas 1 e 2 para o capim brachiaria cv MG4..



Obrigado.
RONALDO MARCIANO GONTIJO

BOM DESPACHO - MINAS GERAIS - PRODUÇÃO DE LEITE

EM 27/11/2013

Porque em uma mesma área que contém tifton, tanzania e brachiaria, os animais consomem primeiro a brachiaria, depois a tanzania e por último o tifton?