A economia do apetite: como a popularização dos GLP-1 pode transformar o consumo no Brasil?

Brasil lidera conhecimento sobre medicamentos para perda de peso na América Latina, mas adoção ainda é baixa; experiência britânica aponta impactos relevantes no consumo de alimentos, bebidas e higiene bucal.

Publicado por: MilkPoint

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O início das vendas de medicamentos à base de semaglutida no Brasil pode transformar hábitos de consumo e reduzir gastos com alimentos. A pesquisa da Worldpanel by Numerator mostra que 76% dos brasileiros conhecem esses medicamentos, mas sua adoção é baixa (2,4%). O uso pode levar a escolhas alimentares mais saudáveis e impactar categorias de produtos. A experiência do Reino Unido indica que a popularização pode redefinir hábitos e criar oportunidades em diversos setores, além da alimentação.
O início das vendas de versões brasileiras dos medicamentos para perda de peso à base de semaglutida nesta semana promete popularizar o uso e provocar mudanças que vão muito além da saúde. A experiência de mercados mais maduros mostra que a adoção desses tratamentos tem potencial para transformar hábitos de consumo, reduzir gastos com alimentos e bebidas e criar oportunidades para novas categorias de produtos.

Dados inéditos da Worldpanel by Numerator, provenientes de uma pesquisa realizada entre março e abril deste ano, revelam que o tema já ocupa espaço relevante na rotina dos consumidores latino-americanos, com 32,5% dos lares da região afirmando conhecer os medicamentos para emagrecimento — ante 26,6% em 2025.

No Brasil, o interesse pelo tema é ainda mais expressivo. Com 76% de awareness, o país apresenta o maior nível de conhecimento sobre medicamentos para perda de peso em toda a América Latina — um avanço de +6 p.p. em relação a 2025 (70%), refletindo o forte interesse e a ampla repercussão das chamadas canetas emagrecedoras. Apesar disso, a adoção ainda permanece restrita. Apenas 2,4% dos domicílios brasileiros declaram contar atualmente com pelo menos um usuário desses medicamentos. Já entre os lares das classes A e B, a penetração sobe para 4,3%, em linha com o percentual de uso encontrado entre os lares conhecedores (4%). Isso evidencia que o consumo ainda está concentrado entre famílias de maior poder aquisitivo, o que deve mudar com a chegada das opções nacionais ao mercado.

O contraste entre alto conhecimento e baixa utilização sugere um mercado com elevado potencial de expansão nos próximos anos, especialmente à medida que novos medicamentos chegam ao mercado e os tratamentos se tornam mais acessíveis.

O cenário brasileiro chama ainda mais atenção quando analisado sob a ótica dos hábitos alimentares. Entre os países avaliados pelo estudo na América Latina, o Brasil apresenta o menor índice de consumidores que afirmam seguir uma alimentação equilibrada. Nesse contexto, a crescente popularidade dos medicamentos à base de GLP-1 pode atuar como um catalisador para mudanças no comportamento alimentar, impulsionando escolhas mais saudáveis e transformando categorias inteiras dentro e fora do setor de alimentos.

Mais do que uma tendência ligada à saúde, o fenômeno já influencia a forma como os consumidores encaram a alimentação. Na América Latina, por exemplo, dados de 2025 mostram que, entre aqueles que iniciaram ou cogitavam iniciar o uso dos medicamentos, 59% afirmavam reduzir a compra de bebidas açucaradas, 55% diminuíram o consumo de alimentos gordurosos e 51% reduziram a compra de produtos com açúcar.

Reino Unido antecipa possíveis impactos para o Brasil

A experiência britânica oferece um indicativo do potencial transformador desses medicamentos sobre o consumo. Segundo levantamento da Worldpanel by Numerator realizado com mais de 11.500 lares no país, a participação de domicílios com usuários de GLP-1 quase triplicou em apenas dois anos, passando de 2,3% em 2024 para 6,3% em 2026. Atualmente, cerca de 1,9 milhão de britânicos utilizam esses tratamentos, sendo que 68% deles têm como principal objetivo a perda de peso.

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O estudo mostra que a adoção dos medicamentos altera diretamente a relação dos consumidores com a alimentação. Mais da metade dos usuários (54%) afirma sentir menos desejo por comida e menos “ruído alimentar”, enquanto 75% relatam reduzir o consumo de chocolates e 72% diminuem a ingestão de snacks e salgadinhos.

Como consequência, os lares com usuários de GLP-1 gastaram £780 milhões a menos em supermercados durante o período analisado e compraram 299 milhões de unidades a menos do que os demais consumidores. Em média, os gastos anuais dessas famílias foram £418 inferiores aos dos lares sem usuários dos medicamentos.

Os resultados reforçam uma tendência que pode ganhar escala no Brasil à medida que os tratamentos se tornam mais acessíveis. A redução do apetite e a busca por escolhas alimentares mais equilibradas podem pressionar categorias tradicionalmente associadas à indulgência, como chocolates, snacks, refrigerantes e produtos ricos em açúcar e gordura.

Ao mesmo tempo, cresce a oportunidade para categorias alinhadas a bem-estar, saudabilidade e nutrição funcional. Produtos ricos em proteína, alimentos com maior densidade nutricional, porções reduzidas e soluções voltadas à saciedade tendem a ganhar relevância na cesta de compras dos consumidores. A transformação também pode impactar o setor de alimentação fora do lar. No Reino Unido, 40% dos usuários afirmam desejar porções menores em restaurantes, enquanto 26% gostariam de encontrar opções específicas para usuários de GLP-1 nos cardápios.

Oportunidade para novas categorias

Embora o impacto mais visível esteja na redução do consumo de alimentos e bebidas, o estudo britânico mostra que a popularização dos medicamentos também cria oportunidades para novas categorias.

Entre os usuários de GLP-1, os gastos com enxaguantes bucais cresceram 20 pontos percentuais acima do observado entre não usuários no país, enquanto as compras de gomas de mascar registraram aumento de 24 pontos percentuais. O movimento está associado à chamada “boca de Ozempic”, efeito colateral caracterizado por ressecamento bucal e alterações no hálito.

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Os dados demonstram que os efeitos da popularização dos medicamentos para emagrecimento vão além da alimentação e podem gerar impactos indiretos em diversos segmentos, incluindo higiene pessoal, saúde, bem-estar e cuidados preventivos.

Se hoje os GLP-1 ainda representam um fenômeno relativamente restrito no Brasil, os indicadores de conhecimento, interesse e preocupação com o peso sugerem que seu impacto pode se ampliar rapidamente nos próximos anos. A experiência do Reino Unido mostra que essa transformação vai muito além da saúde: ela tem potencial para redefinir hábitos de consumo, remodelar categorias e criar novos espaços de crescimento para a indústria e o varejo.

Metodologia

Os dados de 2025 e 2026 da América Latina fazem parte do estudo “The Health Effect”, realizado pela Worldpanel by Numerator com mais de 15 mil entrevistas em nove mercados da região: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México, Peru e países da América Central.

Já o levantamento realizado no Reino Unido analisou mais de 11.500 lares e investigou os impactos dos medicamentos para perda de peso sobre os hábitos alimentares, os gastos com supermercados e o comportamento de compra dos consumidores.

As informações são da Worldpanel by Numerator. 

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