O evento reuniu executivos da companhia e uma comitiva estratégica composta por órgãos do governo federal, agências reguladoras e instituições de pesquisa, como o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), a Anvisa e a Embrapa Gado de Leite, além de entidades de classe, associações industriais e grandes produtores de leite do país, incluindo representantes do Sindan, da Abraleite e da indústria de laticínios.
No centro das discussões esteve o conceito de Saúde Única e a implementação da Certificação em Biosseguridade (CBS) — programa desenvolvido pela Boehringer Ingelheim em parceria com a Embrapa para transformar diretrizes científicas em rotinas sanitárias auditáveis dentro das propriedades.
A transformação observada na própria Fazenda Colorado ajuda a ilustrar essa mudança na prática. Em 2016, 100% das vacas da propriedade recebiam antibióticos no momento da secagem. Quase uma década depois, em 2026, cerca de 80% do rebanho que entra no período seco utiliza apenas selante de teto, recebendo antimicrobianos apenas em casos estritamente necessários.
"A prevenção, o monitoramento contínuo e a tomada de decisão fundamentada em diagnósticos representam o futuro da pecuária leiteira sustentável. Produtores que investem nesses pilares elevam a eficiência operacional, protegem o bem-estar animal e contribuem ativamente para mitigar a resistência antimicrobiana global", destacou José Peron, diretor de Saúde Animal da Boehringer Ingelheim no Brasil.
Fazenda Colorado. Fonte: MilkPoint.
Da secagem seletiva à mudança de rotina
A mudança na Fazenda Colorado começou depois que Sérgio Soriano, diretor da propriedade, participou de uma palestra sobre secagem seletiva na Itália, em 2017. A adoção da técnica ocorreu de forma gradual: em 2024, 64% das vacas já eram secas apenas com selante de teto (36% com antibióticos), chegando aos 80% sem o uso de antimicrobianos em 2026.
A evolução ocorreu simultaneamente ao crescimento do rebanho em lactação, que saltou de 1.700 para 2.400 vacas entre 2016 e 2024, período em que os tratamentos para mastite também apresentaram queda. A meta agora é avançar ainda mais rumo à cobertura total. "A seleção baseada em critérios técnicos substitui o tratamento universal. A execução e a disciplina vêm norteando a nossa rotina, conectando a saúde dos animais, do ambiente e das pessoas para entregar produtos com maior valor agregado ao consumidor", afirmou Soriano.
Mastite concentra grande parte do uso de antimicrobianos
A discussão sobre o uso racional ganha urgência ao olhar para a mastite, principal causa de utilização de medicamentos nos rebanhos. Durante o evento, Eduardo Pires Macedo, gerente técnico de ruminantes da Boehringer Ingelheim, apresentou dados indicando que 52% a 62% do uso total de antimicrobianos em estudos com rebanhos leiteiros esteve associado ao tratamento e prevenção da doença.
Eduardo Pires Macedo, gerente técnico de ruminantes da Boehringer Ingelheim.
Um levantamento realizado pela Boehringer Ingelheim entre 2024 e 2025 em 65 propriedades de três bacias leiteiras (SP e MG) apontou a necessidade de qualificar as decisões sanitárias:
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67,7% das propriedades avaliadas utilizavam classes de antimicrobianos criticamente importantes para a medicina humana como primeira escolha para mastite.
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43,1% iniciavam tratamento medicamentoso imediato sem diagnóstico prévio em casos leves.
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Apenas 12,3% realizavam cultura microbiológica antes de decidir o tratamento em casos leves.
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53,9% não registravam os casos de mastite e 90,6% não pesavam as vacas para calcular a dose de injetáveis.
"O objetivo não é eliminar tratamentos necessários, mas sim tomar decisões de maneira responsável com embasamento técnico", pontuou Macedo.
Diagnóstico preciso e economia real na Fazenda Santa Luzia
Demonstrando os impactos financeiros do modelo, a Fazenda Santa Luzia (também certificada pelo programa CBS) adotou exames diagnósticos prévios e reduziu em 50% o uso de antibióticos para mastite clínica e em 70% nos casos de Tristeza Parasitária Bovina (TPB).
De acordo com o produtor Maurício Coelho, dos 3.161 casos avaliados na propriedade, 1.366 (43%) deram resultado negativo e não indicavam necessidade de antibiótico. A precisão evitou o descarte por carência de 244,5 mil litros de leite por ano, gerando um impacto econômico positivo estimado em R$ 660.150,00 anuais. "Até quatro em cada dez tratamentos podem ser evitados no modelo convencional. Elevando o status sanitário da fazenda, reduzimos custos e nos preparamos para o mercado internacional", avaliou Coelho.
Biosseguridade auditada e valorização do produto
A Certificação em Biosseguridade (CBS), criada pela Boehringer Ingelheim e Embrapa, avalia mais de 140 pontos críticos nas propriedades. Bruno Carvalho, chefe adjunto da Embrapa Gado de Leite, destacou que o programa abrange animais, pessoas, veículos, instalações e processos: "se não temos um registro sanitário confiável, corre-se o risco de enviar leite com resíduo de antibiótico ao tanque. Cada ponto de contato na fazenda pode representar um risco ou uma barreira de proteção", explicou Carvalho.
No mercado final, a biosseguridade traduz-se em confiança. Alexandre Sardo, gerente de marketing e trade da marca de laticínios Xandô (que adota o selo CBS em suas embalagens), mostrou que 47% dos consumidores elegem a qualidade e a confiança como fator principal de escolha, enquanto 83% declaram disposição para pagar mais por um leite de qualidade superior comprovada.
Encerrando o debate, Geraldo Borges, presidente da Abraleite, reforçou o papel da iniciativa liderada pela Boehringer Ingelheim para o futuro do setor: "O bem-estar animal, o cuidado com as pessoas, com o meio ambiente e com o consumidor formam um elo único. Precisamos caminhar nessa linha para consolidar o Brasil como uma grande cadeia exportadora de leite", concluiu Borges.
Para encerrar a programação do encontro, os convidados e autoridades realizaram uma visita guiada pelas instalações da Fazenda Colorado. Reconhecida como a 2ª maior produtora de leite do Brasil pelo ranking Top 100 MilkPoint, a propriedade abriu sua operação para demonstrar, na prática, como a maturidade sanitária, a tecnologia no manejo e o treinamento das equipes geram resultados consistentes e mensuráveis na rotina do campo.
Fazenda Colorado. Fonte: MilkPoint.