A maior parte do desempenho durante as primeiras semanas é explicada pela dieta líquida, uma vez que nessa fase os animais estão preparados para digerir e metabolizar nutrientes presentes no leite. Por isso, estratégias de aleitamento intensivo, com maior oferta de leite ou sucedâneo, ganharam espaço. Bezerras jovens apresentam elevada exigência de mantença em relação ao peso corporal e precisam de nutrientes para expressar seu potencial de crescimento. Além do maior ganho de peso, a literatura associa melhor nutrição durante o aleitamento a maior eficiência e, em determinadas condições, a efeitos positivos sobre a produção de leite futura. Assim, fornecer maiores quantidades de dieta líquida, seja aumentando volume ou o teor de sólidos da mesma, é um investimento que vai além de desaleitar bezerras mais pesadas.
Entretanto, aumentar a oferta de dieta líquida também altera o comportamento alimentar. Quando o consumo de dieta líquida é elevado, especialmente acima de aproximadamente 7 a 7,5 L/d, o consumo de dieta sólida tende a ser menor. É justamente aí que surge o paradoxo: a dieta líquida sustenta o desempenho, mas a dieta sólida é indispensável para a transição de pré-ruminante para ruminante funcional.
Aleitamento intensivo não pode ser avaliado apenas pelo ganho de peso
A discussão sobre sistemas de aleitamento evoluiu muito nos últimos anos. Sistemas severamente restritos, historicamente justificados pelo menor custo diário, maior consumo precoce de concentrado e pela percepção de menor ocorrência de diarreias, vêm dando lugar a taxas moderadas ou altas de fornecimento. Segundo a classificação apresentada pelo NASEM (2021), sistemas de alta taxa de alimentação são aqueles que fornecem mais de 900 g de matéria seca por dia via dieta líquida, o que corresponde a mais de 7,2 L/d quando se considera uma diluição de 12,5% de sólidos.
O benefício potencial é claro, mas a resposta depende da qualidade e do consumo de energia. O objetivo não deve ser simplesmente “dar mais leite/sucedâneo”. O manejo precisa produzir crescimento eficiente e, simultaneamente, criar condições para que o consumo de dieta sólida avance antes do desaleitamento.
A meta frequentemente utilizada de dobrar o peso ao nascer durante o aleitamento ilustra bem essa necessidade. Uma bezerra que nasce com 40 kg precisa chegar a aproximadamente 80 kg ao desaleitamento. Para alcançar essa meta em 60 dias, o ganho médio diário precisa ser próximo de 670 g; com ganho de 500 g/d, seriam necessários cerca de 80 dias. Portanto, volume de leite, concentração de sólidos, duração do aleitamento e estratégia de desaleitamento precisam ser pensados em conjunto para atingir metas modernas de criação de bezerras.
A dieta sólida é quem constrói a capacidade de ser ruminante
O desenvolvimento ruminal não depende apenas do aumento físico do rúmen. Ele envolve crescimento e diferenciação das papilas, estabelecimento da microbiota, desenvolvimento da capacidade absortiva e cetogênica, motilidade, ruminação e mudanças na fermentação.
Nesse processo, os substratos oferecidos pela dieta sólida têm papéis diferentes em função do seu diferente perfil de fermentação. Carboidratos não fibrosos, especialmente o amido, favorecem a produção de propionato e butirato. Por outro lado, componentes fibrosos estimulam aspectos físicos e funcionais do rúmen, como volume, motilidade, ruminação, produção de saliva e capacidade tampão.
O concentrado apresenta maior efeito sobre crescimento e diferenciação das papilas, em função da maior produção de butirato. Este ácido graxo de cadeia curta (AGCC), juntamente com o propionato, são responsáveis pelo processo de diferenciação celular permitindo o desenvolvimento do epitélio ruminal, assim como do aparato enzimático que será responsável por metabolizar parte dos AGCC absorvidos na parede ruminal. A forragem, por sua vez, favorece volume e peso do rúmen, motilidade, atividade de bactérias celulolíticas, ruminação, tamponamento e manutenção de um ambiente ruminal mais saudável. O objetivo, portanto, não é escolher entre amido e fibra, mas combinar estímulos químicos e físicos de forma estratégica com dieta sólida balanceada para atender os dois objetivos.
O consumo de carboidratos não fibrosos é o fator que mais importa
O concentrado inicial de boa qualidade deve ser formulado com ingredientes de alta digestibilidade, teor adequado de proteína e energia e características físicas que favoreçam o consumo. O NASEM (2021) e a literatura científica destacam valores de 20–22% de proteína bruta, cerca de 80% de NDT, 15–25% de FDN e tamanho médio de partícula em torno de 1,2 mm como referências práticas, sempre considerando a formulação completa e os ingredientes utilizados.
Mais importante que estabelecer um único consumo diário de concentrado é compreender quanto substrato fermentável a bezerra efetivamente ingeriu ao longo do período. Através de modelagem de um rico banco de dados, Quigley et al. (2019) propuseram o consumo cumulativo de aproximadamente 15 kg de carboidratos não fibrosos (CNF) como indicador de maturação do trato gastrointestinal. Assim, quando o concentrado contém 50% de CNF, a bezerra terá o trato gastrintestinal maduro e, portanto, pronto para o desaleitamento, quando acumular consumo de cerca de 30 kg de concentrado ao longo do período de aleitamento.
Dados de diferentes trabalhos mostram como a composição e o consumo alteram drasticamente o tempo necessário para atingir esse patamar. Na média dos estudos conduzidos no Bezerreiro Experimental da ESALQ, os concentrados apresentaram 48,5% de CNF e consumo médio de 393 g/d, resultando em cerca de 87 dias para atingir 15 kg de CNF. A variação entre estudos, entretanto, foi grande. Essa informação ajuda a explicar por que recomendações de desaleitamento baseadas apenas em idade ou em um consumo pontual de concentrado podem ser insuficientes para atingir metas de crescimento e desenvolvimento ruminal, tão importante para a fase pós-desaleitamento.
E quanto à forragem? A pergunta precisa mudar
Durante muito tempo, a recomendação foi evitar o fornecimento de forragem para bezerras jovens pelo receio de que ela substituísse o concentrado e reduzisse o consumo de energia. Hoje, a evidência mostra um cenário mais complexo. Os resultados sobre consumo e ganho de peso ainda dependem do nível de inclusão, da fonte de forragem, da forma física do concentrado e do método de fornecimento. Isso significa que perguntar apenas “devemos fornecer forragem?” é pouco útil uma vez que invariavelmente a resposta será “depende”.
O NASEM (2021) reconhece a importância da fibra no desenvolvimento ruminal e sugere que o consumo de forragem seja limitado a uma pequena proporção da dieta sólida. Para feno de alfafa, por exemplo, recomenda-se menos de 10% do consumo de matéria seca; para fenos de gramíneas, valores inferiores a 5% ou fornecimento à vontade podem ser utilizados dependendo da qualidade da forragem. Na prática, o consumo de volumoso deve permanecer, de modo geral, abaixo de 5–10% do consumo total de dieta sólida.
A qualidade da forragem também modifica a resposta. Forragens de alta qualidade podem exigir fornecimento mais controlado para evitar substituição excessiva do concentrado. Com forragens de menor qualidade, o próprio animal tende a limitar o consumo. Quando bem manejada, a inclusão de volumoso pode beneficiar o desenvolvimento ruminal e o comportamento sem necessariamente comprometer o ganho de peso.
Silagem também pode fazer parte da dieta de bezerras
Outro conceito que merece revisão é a ideia de que bezerros não podem receber silagem de milho em função do risco associado a forragens fermentadas com baixa estabilidade. Além disso, o conceito errôneo de que bezerros têm preferência por feno e, portanto, silagem não seria apropriada. Resultados do grupo de pesquisa da ESALQ (Toledo et al., 2023 e 2024) mostram que a inclusão de 10% de silagem de milho durante o período de aleitamento aumentou o consumo de dieta sólida e de amido, sem alterar o desempenho, além de reduzir o tempo de ócio e aumentar o tempo dedicado ao consumo, ruminação e mastigação. No pós-desaleitamento, observou-se maior consumo de dieta sólida, novamente sem prejuízo de desempenho.
Em comparações entre tipos de volumoso, silagem e fenos de diferentes qualidades modificaram principalmente o consumo de dieta sólida e de FDN, enquanto ganho de peso e eficiência apresentaram respostas mais discretas ou dependentes da fase. Esses resultados reforçam que a avaliação de um volumoso para bezerras não deve se limitar à preferência aparente ou ao consumo daquele ingrediente isoladamente. Além disso, quando a silagem de milho é de boa qualidade e o manejo de cocho bem feito, não existem riscos para a saúde do animal.
Da dieta com componentes ao conceito de dieta completa
Talvez a mudança conceitual mais importante seja deixar de pensar separadamente em “concentrado” e “volumoso”. A bezerra responde à dieta consumida como um todo: à quantidade de nutrientes, à proporção entre carboidratos fermentáveis e fibra, à forma física, à palatabilidade e à interação entre esses fatores.
O fornecimento de volumoso pode, inclusive, aumentar o consumo total de dieta sólida. Quando isso ocorre, a inclusão de fibra não significa necessariamente menor ingestão de amido ou de CNF. Dependendo da formulação e da resposta de consumo, a bezerra pode ingerir mais dieta sólida e, consequentemente, mais substrato fermentável. Esse ponto é particularmente relevante porque rompe com a visão de que fibra e desenvolvimento de papilas seriam objetivos antagônicos. Muito deste efeito ocorre à medida que o fornecimento de fibra auxilia na manutenção da saúde ruminal, ou seja, reduz risco de acidose e, portanto, permite aumento no consumo total de dieta sólida.
Assim, o caminho mais promissor é trabalhar com o conceito de dieta completa: uma dieta sólida formulada para estimular consumo, fornecer energia e proteína, oferecer fibra fisicamente efetiva em quantidade adequada e promover ambiente ruminal funcional e saudável. A pergunta deixa de ser “feno ou concentrado?” e passa a ser “qual combinação de ingredientes e características físicas prepara melhor esta bezerra para o desaleitamento?”.
Desaleitar é uma transição nutricional, não apenas retirar o leite
Recomendações históricas para consumo de concentrado no momento do desaleitamento variam amplamente, de cerca de 600–750 g/d a 1,4–1,5 kg/d. Essa amplitude reflete diferenças entre sistemas de aleitamento, idade, composição da dieta, peso corporal e critérios utilizados ao longo do tempo.
Por isso, o desaleitamento não deve ser decidido por um único número. É preciso avaliar se a bezerra apresenta consumo de dieta sólida suficiente e consistente, se teve oportunidade de acumular ingestão de substratos fermentáveis (CNF), se o rúmen está funcionalmente preparado e se a redução da dieta líquida está sendo conduzida de maneira a estimular o consumo sem impor queda abrupta no aporte de nutrientes.
O manejo alimentar estratégico precisa, portanto, conectar as duas dietas. A dieta líquida garante desempenho enquanto a bezerra ainda depende fortemente dela; a dieta sólida constrói a capacidade que permitirá manter esse desempenho depois que o fornecimento da dieta líquida for interrompido.
Mensagem prática
O objetivo do período de aleitamento não é maximizar isoladamente o consumo de dieta líquida nem antecipar ao máximo o consumo de concentrado. É preparar uma bezerra que apresente adequado desempenho, considerando recomendações modernas, e atravesse o desaleitamento com o mínimo de perda de desempenho e de estresse.
Para isso, quatro pontos precisam caminhar juntos: garantir desempenho, garantir consumo de dieta sólida, entender os detalhes da composição e da forma física da dieta e reduzir o estresse da transição. O aparente conflito entre dieta líquida e dieta sólida desaparece quando ambas são tratadas como partes de um mesmo programa nutricional. Em outras palavras, não basta criar uma boa bezerra durante o aleitamento. É preciso criar, ao mesmo tempo, a ruminante que ela precisará ser no dia seguinte ao desaleitamento.
Fontes consultadas
NASEM. Nutrient Requirements of Dairy Cattle. 8th rev. ed. 2021.
Quigley, J. D. et al. Estimates of calf starter energy affected by consumption of nutrients. 1. Evaluation of models to predict changing digestion on energy content in calf starter. J. Dairy Sci. 102:2232–2241 (2019).
Toledo, A. F. et al. M. Whole-plant flint corn silage inclusion in total mixed rations for pre- and postweaning dairy calves. J. Dairy. Sci. 106, 6185–6197 (2023).
Toledo, A. F. et al. M. M. Forage sources in total mixed rations early in life influences performance, metabolites, and behaviour of dairy calves. J. Dairy. Sci. 107, 3601–3613 (2024).