Quando gestão deixa de ser coadjuvante
Em uma sociedade familiar em que os pais são maioria, uma das primeiras barreiras foi cultural. Jaqueline precisou demonstrar que a atividade não se sustenta apenas com trabalho operacional. Para ela, tecnologia, planejamento e administração precisam ocupar o mesmo nível de importância que o manejo diário. “Muito se fala do trabalho braçal, mas pouco se fala do trabalho de gestão. Existe uma ideia de que quem está só na administração ‘não faz nada’. Se soubessem o peso das decisões e a responsabilidade envolvida…”
Jaqueline com o seu pai na "lida" diária
Segundo Jaqueline, no leite, o tempo é um fator determinante. "Um investimento realizado hoje em uma terneira só começa a mostrar retorno após 22 ou 24 meses, no primeiro parto. O potencial produtivo pleno, muitas vezes, só se confirma na terceira lactação — cerca de cinco anos depois da decisão inicial. Essa defasagem entre investimento e retorno exige visão estratégica, organização financeira e resiliência emocional".
Foi justamente nessa direção que Jaqueline decidiu avançar: incorporar tecnologias, estruturar controles mais rigorosos e trazer para dentro da propriedade profissionais que já atuavam em fazendas com desempenho consolidado. Mais do que copiar modelos, a proposta sempre foi entender processos e adaptá-los à realidade da Agropecuária Ceretta.
“Eu procuro olhar para quem está há décadas no negócio. Quem começou em 1930, 1950 e continua até hoje certamente atravessou inúmeras crises. O que fez essas pessoas permanecerem? É isso que me interessa entender.”
O aprendizado que só o campo ensina
Com o tempo, veio outra percepção importante: não existe fórmula universal para resultado.
Jaqueline conta que, no início, tinha o impulso de replicar exatamente o modelo de produtores com números expressivos. Hoje, a visão é mais contextual. Estrutura física semelhante não significa capacidade de execução igual. Equipe, clima, cultura, perfil de gestão e recursos disponíveis mudam completamente o cenário. “Nem tudo que dá certo em uma propriedade vai dar certo na outra. Cada fazenda tem suas peculiaridades, suas forças e suas limitações.”
A vivência no Rio Grande do Sul reforçou ainda mais essa leitura. Nos últimos anos, a sucessão de secas históricas impôs desafios severos: dificuldade na produção de alimentos, necessidade de compra externa de insumos e, em alguns casos, redução de rebanho. Para Jaqueline, a atividade exige não apenas conhecimento técnico, mas resiliência constante. “A gente transforma lavoura em leite. Para ser um bom produtor de leite, você precisa ser um bom agricultor. Tudo começa no cuidado com a terra.”
Entre planejamento e incertezas climáticas, ela reconhece que a fé também faz parte da rotina do produtor. Projetar faturamento com base em animais que ainda irão parir é um exercício permanente de expectativa e risco. “Só quem vive o dia a dia entende o que é investir hoje e esperar anos por um resultado.”
Identidade não é obstáculo para competência
Quando o tema é ser mulher no agronegócio, Jaqueline fala com franqueza. Para ela, críticas existirão independentemente da postura adotada. “Você será criticada de qualquer forma. Então faça aquilo que faz sentido para você.”
Ela defende que a identidade pessoal não interfere na eficiência profissional. Cuidar da aparência, ter um estilo marcante ou optar por um perfil mais discreto são escolhas individuais que não definem competência. “Eu tenho o meu jeito. E quando tentei ser diferente do que sou, adoeci. Não vale a pena perder a própria essência.”
Jaqueline também faz uma reflexão sobre a relação entre mulheres no setor. Reconhece que já criticou outras profissionais no passado e entende hoje que, muitas vezes, a crítica nasce da insegurança. “Quando comecei a ser criticada, percebi o quanto isso machuca. Resultado é o que sustenta qualquer argumento.”
Para ela, a consistência é a resposta mais eficaz. Construir números sólidos, manter a propriedade organizada e sustentar decisões ao longo do tempo são atitudes que falam por si.
Jaqueline com os seus pais
No fim, sua mensagem é clara: cada mulher deve ocupar seu espaço à sua maneira, desde que alinhada a princípios e responsabilidade. A atividade leiteira exige técnica, estratégia, resiliência e coragem — independentemente de quem esteja à frente.
O Especial Leite por Elas segue aberto para novas histórias de mulheres que transformam a produção leiteira brasileira com gestão, consistência e visão de futuro.
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